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Trechos de “anti-corpo”

Atualizado: 2 de set.

ensaio inédito de Adelaide Ivánova, no qual ela parte de seus sobrenomes de batismo para tentar descobrir o que eles informam sobre xenofobia anti-Nordestina no Brasil




A pequena Adelaide em Gravatá do Jaburu - PE



(...)


O sobrenome Bezerra é um sobrenome muito comum em alguns estados do Nordeste. No semiárido de Pernambuco, vários “coronéis” (ou seja, latifundiários) tinham e têm esse sobrenome[1]. No semiárido pernambucano, entre Sertânia, Afogados da Ingazeira, Gravatá do Jaburu e Panelas, existiram tanto o Coronel Bezerra, (latifundiário violento e vingador) e o Tenente João Bezerra da Silva (assassino de Lampião), quanto Raimundo Bezerra da Silva (meu avô agricultor e organizador comunitário) e Gregório Lourenço Bezerra (filho de agregados[2] paupérrimos, que um dia se autoalfabetizaria e se tornaria comunista e um dos maiores políticos da história dessa terra indígena que passamos a chamar de Brasil).


A gente sabe que durante a escravidão, filhos e filhas dos escravizados, inclusive os libertos, muito frequentemente recebiam o sobrenome do dono da terra. E mesmo depois de 1888, esse costume se perpetuou, com filhos de trabalhadores agregados sendo batizados com sobrenome do latifundiário para o qual “trabalhavam”. Vovô também foi um Bezerra – não o nascido em casa caiada, mas um de pele escura e que não herdou nada; um Bezerra que só conseguiu comprar seu pedaço de terra depois de adulto, usando o dinheiro que juntou trabalhando como vendedor ambulante (terra que ele perdeu, anos depois, pra um agiota); um Bezerra que morreu agricultor aposentado pelo Funrural.


(...)


O fato de vovô ser um Bezerra “sem lenço e sem documento” (quero dizer, sem ancestralidade documentada/rastreável), confirma a arbitrariedade dos silenciamentos históricos e estes como prática de opressão – e indica a quem eles estão a serviço. Eu só posso, portanto, trabalhar com a ideia de que a genealogia do Bezerra pobre vem dessa linhagem: de ex-escravizados e agregados: os filhos não quistos do latifúndio.


Quando vovô nasceu em Gravatá do Jaburu, em 1916, Lei do Ventre Livre tinha sido promulgada apenas 45 anos antes, em 1871. Já a abolição tinha acontecido menos tempo antes ainda, em 1888 – apenas 30 anos antes de vovô nascer, menos que o tempo de vida que tenho hoje. Meu bisavô paterno, Manuel Luiz Bezerra da Silva, conhecido como Pai Neco, nasceu na mesma região que vovô, em 1892. Suponhamos que o pai dele (ou seja, o avô de vovô, que infelizmente ninguém sabe o nome[3]), tivesse tido Manuel Luiz aos 26 anos, a mesma ideia que Manuel Luiz teve meu avô. Isso significa supor que o pai de Manuel Luiz, meu tataravô, teria nascido em 1866[4], ou seja, antes mesmo da Lei do Ventre Livre ser promulgada. Talvez seja esse o motivo pelo qual nós nos chamamos Bezerra? Nomeados pelos Bezerra donos de terra, donos de agregados e de escravizados no Alto Capibaribe? Eu não sei, e só me resta imaginar se foi assim ou se não foi, já que não há documentos, já que os registros dos meus trisavós desapareceram, já que vovô não está vivo para contar e já que tinha coisas das quais ele não somente se recusava a falar, como proibiu quem soubesse de passá-las adiante[5].


Falando em recusar-se a falar, esses silêncios me lembram da mãe do camarada Carlos Marighella: “O passado de Maria Rita dos Santos, nascida com a abolição, era um mistério. Mais que discreta, ela dava mostras de que as lembranças a incomodavam. (...) Ela contava que sua mãe, Maria Especiosa dos Santos, fora escrava. Calava sobre o pai, Jesuíno dos Santos. [Carlos Marighella] e seus irmãos ignoravam o destino dos avós. (...) nunca apareceu um parente da mãe baiana [para visitar]. (...) É razoável supor que a mãe de Maria Rita tenha nascido no Brasil em meio a uma comunidade haussá”[6], mas não se pode confirmar.


Tudo isso sou eu elucubrando, imaginando, tentando ligar pontos, dentro num quarto escuro que é nossa história, pegando um indício aqui, outro ali e tentando entender: quem sou eu? Tudo indica que foi assim, como eu conto, mas infelizmente eu não tenho certeza de nada.


É nessa incerteza ancestral, nesse sem-eira-nem-beira coletivo, herdado pelos de baixo, que me afirmo como gente, como ente, como parente, como aderente – como parte, enfim, dessa família contratopográfica que é classe trabalhadora espalhada mundo afora. Se, por um lado, não compartilho laços de sangue com Marighella, nem com Gregório Bezerra (apesar de compartilhamos um sobrenome), por outro lado compartilho com eles terra, tempo e sonhos: somos nordestinos conterrâneos, contemporâneos, camaradas.


(...)


Tentei dar conta desse vazio proletário no poema abaixo publicado no meu quinto livro, chifre (Juiz de Fora: Edições Macondo), em 2021:



notas pra um poema ainda sem título sobre o nome que a gente tem tema: estupro fundador? os meeiros ganhavam sobrenome do dono das terras. Coronel Bezerra era dono da fazenda Poco da pedra, ali por Sertânia. Será que tem alguma coisa a ver com a gente? E o espirito “revolucionário” fundador?, a historia revolucionária do nordeste? uma lista, sem pensar muito: levante dos maribondos os bezerra hilário bezerra gregório bezerra raimundo bezerra (vovô) inventar uma conexão panelas, onde gregório nasceu, e gravatá do jaburu, onde nasceu vovô <3

referencial: luiz rufato, aquele texto dele até bem moderado que na época causou confusão, aff, nunca entendi Jorge Amado em Cacau – que livro! eu merma no texto que fiz pro zine com Jéssica kkk “Luto” (a HQ de B. J. Fogueteiro) notas no diário: a agonia que eu sinto por não conseguir rastrear o passado da minha família deve ser semelhante a quem procura um parente que sumiu alguém executado ou desaparecido em porões

não sei

essa sensação de estar solta no mundo

soa muito leviano da minha parte comparar o buraco deixado pelo desaparecimento de quem lutou contra uma ditadura militar com o buraco deixado por quem não deixou rastros porque não teve direito a um lugar na “H”istória

mas isso também não é menor. Sei lá, preciso entender o fio da meada. meus antepassados empobrecidos sem dinheiro pra fotografias ou registros de nascimento

os antepassados no sertão de Pernambuco que nem sempre sabiam escrever

acho que escrevo pra me vingar

ou me enterrar na terra de onde me arrancaram décadas antes deu nascer

seriam um desaparecido político e um desaparecido da “H”istória iguais? não seriam ambos desaparecimentos políticos?

Dias depois me espanto que apesar da culpa da comparação o primeiro nome que aparece quando busco no SIAN “bezerra” são os arquivos que o DOPS mantinha de outro bezerra que não Raimundo, vovô, mas sim o Gregório parece um sinal de que não preciso ter culpa e posso seguir pesquisando mas isso não diz nada sobre minha pergunta inicial: por que me chamo bezerra para além do fato desse ser o sobrenome de vovô?


Enfim: por que as coisas são como elas são? Ah só mais uma coisa, nada a ver com o tema mas que acabei de pensar: não termos mais acesso à mesma quantidade de coisas

que costumávamos ter de vez em quando (mas não sempre) não é o mesmo que passar necessidade




A poeta Adelaide em Gravatá do Jaburu - PE




Adelaide Ivánova (Recife, 1982) é uma fotógrafa, poeta, escritora e tradutora.

Expôs suas fotos no Brasil, Argentina, Estados Unidos, França, Alemanha e Espanha.Estudou jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, e fotografia, na Ostkreuzschule (Berlim). Editou o zine anarcofeminista MAIS PORNÔ PVFR. Ganhou o Prêmio Rio de Literatura de 2017 pelo seu livro O Martelo.








Notas: [1] Diz-se também que, durante a Inquisição, Bezerra e Bezzera foram dois dos sobrenomes escolhidos por cristãos novos, quando tentavam escapar das perseguições antissemitas mudando de sobrenome e/ou de país – muitos deles tendo chegado a Pernambuco, onde foi fundada a primeira sinagoga das Américas, em 1637.

[2] Agregados (também conhecidos como meeiros, alugados ou moradores) são “famílias de sitiantes e trabalhadores rurais” que possuem “pouca ou nenhuma terra” e trabalham com “pouco ou nenhum vínculo de assalariamento”. O trabalho alugado, “além de uma sujeição econômica e material, era uma relação de dominação circundada de uma moralidade de favores e reciprocidades”. Era, portanto, uma relação de subordinação, arbitrariedade e crueldade, que gerava violência, miséria e refugiados nordestinos – além, claro, da manutenção do status quo latifundiário e monocultor. As aspas nesta nota são do artigo Recordar é poder, de Valdênio Freitas Meses, disponível aqui: https://revistas.ufpr.br/nep/article/download/70866/40017. Além dele, os livros Seara Vermelha e Tereza Batista cansada de guerra, do escritor e comunista nordestino Jorge Amado, oferecem uma imagem potente do que é a relação de exploração entre latifundiário e alugado e suas trágicas consequências. Outra excelente fonte é Patativa do Assaré no poema O agregado (https://www.youtube.com/watch?v=pYqc2SeqLLg) que faz parte do livro-disco A terra é naturá (https://www.youtube.com/watch?v=hJGEMSE4TiM). [3] Não encontramos registros na igreja de Taquaritinga do Norte e nenhum parente se lembra.

[4] Ano de devastadora epidemia de cólera naquela região, vale ressaltar.

[5] Por exemplo: em 2017, entrevistei minha tia mais velha viva, tia Rilda. Quando perguntada sobre um parente de vovô que teria sido cangaceiro, ela respondeu: “seu avô me pediu para nunca falar disso e respeito a vontade dele”.

[6] Em “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, de Mário Magalhes, 2019, pgs. 40-41.

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