capa2.jpg

DOM MARTE DE LA MANCHA

Atualizado: 1 de dez. de 2021

por Mariana de Oliveira Campos




A grande jornada do herói de Miguel de Cervantes foi a de cruzar o tempo. Na história da literatura peninsular, corresponde ao período da idade média a aparição do herói de cavalaria, rodeado de todo o universo trovadoresco. Dom Quixote parece chegar tarde, mas não tão tarde, conseguiu agarrar-se ao rabo de uma época e com seus românticos restos desbravar a modernidade, fazendo-se mártir de um tempo em dissolução.

Na astrologia, a atribuição de sua figura ao planeta Marte pode ser justificada pela sua incansável figura. Quanto a sua liquefeita nostalgia, soa próprio um signo da triplicidade das águas. Entre os três signos de que dispomos, o Escorpião, gozando da muita força do domicílio e da rigidez de ritmo fixo, acaba por não responder pelo caráter de nosso herói, Dom Marte, gentil demais e nada sanguinário. Restam Câncer e Peixes. E assim, no primeiro, Dom Marte teria a sua queda, que pelo viés da nostalgia até lhe serviria. Porém,é Peixes, de ritmo mutável e essencialmente benéfico, digamos, com ares de inocência, que contempla o caráter volúvel, sonhador e - por ahí vamos - essencialmente apaixonado.

Dom Marte, tendo já nome para seu rocim e para si mesmo, em sua mímesis cavaleiresca, carecerá, antes de mais nada, de uma dama e da dor de sua ausência, “que andante cavaleiro sem amores era árvore sem folhas nem frutos, e corpo sem alma”. Assim, ainda mais servo de suas causas literárias, sofrerá, nas conquistas que lhe foram designadas, da impossibilidade do amor.




CARTA DE D. QUIXOTE A DULCINÉIA DEL TOBOSO Soberana e alta senhora! O ferido do gume da ausência, e o chagado nas teias do coração, dulcíssima Dulcinéia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta. Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, além de muito graves, já vão durando em demasia. O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por teu respeito. Se te parecer acudir-me, teu sou; e, se não, faze o que mais te aprouver, pois com acabar a minha vida terei satisfeito à tua crueldade e ao meu desejo. Teu até à morte, O Cavaleiro da Triste Figura.


Marte não esconde a sua ferida. E o amor, assim como a guerra, sempre deixa a sua marca. A cicatriz em seu peito tem a exata forma da ponta da flecha do Cupido.

Marte está sempre a serviço. Em Peixes, serve a Júpiter, pois é esse e não outro o senhor desse signo. De Júpiter é a cruz, as contas ou qualquer outro sinal de fé que Marte discretamente leva pendurado debaixo de seus trajes. O amuleto faz pelo seu espírito o mesmo que o escudo por seu corpo. Nas grandes batalhas toda proteção é bem-vinda.

Mas como se protegeria Dom Quixote de sua própria imaginação amorosa? Em Peixes, também a Vênus é dulcíssima senhora, por exaltação, uma condição astrológica de adoração. Em Peixes, Marte dirige à Vênus a sua entrega e os seus suplícios - se te parecer acudir-me, teu sou.

O signo de Peixes é domicílio de Júpiter e exaltação de Vênus. Quando Marte está nesse signo, é como se o cavaleiro levasse esses dois planetas estampados em seu estandarte. E assim Marte parte para o teatro da guerra. Na Astrologia, ainda que Marte em Peixes não assuma o mais digno dos postos, de um general de Áries ou comandante de Escorpião, tem potências que lhe são próprias, uma vez que na triplicidade dos signos de água, ele encontra força, geralmente associada à noite.


A guerra, assim como é madrasta dos covardes, é a mãe dos valentes.


Em Peixes, Marte dorme em vigília, como os próprios os bichos marinhos, desprovidos de pálpebras: Marte sonha acordado. Um conquistador é, antes, um sonhador que fantasia para si o que não possui. E sendo Peixes mais um entre os signos mutáveis, a fantasia atenua a realidade, e faz da distração um meio de sobrevivência:


O sonho é o alívio das misérias para os que sofrem acordados.


Mas o abrandamento das águas é provisório, como tudo o que é mutável, aliás. A natureza marcial prevalece, e é quente. Toda ferida inflama. E a subsequente febre é a batalha que o corpo trava contra ele mesmo. O apaixonado Marte em Peixes sofre, então, delírios febris. Mais ainda Dom Quixote, benéfico cavaleiro cortês, que não é capaz de acometer com maldades a sua doce amada, e acaba por voltar contra si mesmo a lâmina dos próprios pensamentos. É comum aos signos de duplas formas, como os Gêmeos e os Peixes aqui em questão, a ambiguidade e a ambivalência. Em Peixes, a fusão de Dom Marte com a Dulce Vênus é, antes de tudo, psíquica. Como Dom Quixote enamorou-se das suas ideias sobre Dulcinéia!

Duplos como os apaixonados Peixes, diante das incontroláveis ofensivas amorosas, Dom Quixote se debate com suas próprias ideias, como quem pergunta ao outro dentro de si: “quem ousa roubar de mim meus pensamentos?”.


O amor nunca fez nenhum covarde.


A figura de Dom Quixote recupera a memória romântico-cavaleiresca, e para que a ilustração lhe seja perfeita, não pode carecer das exaltadas motivações de uma Dulce Vênus. Acho que foi Voltaire quem disse: “Eu, como Dom Quixote, invento paixões para exercitar-me”. Dom Marte está sempre enamorado de suas ideias, como um ativo soldado que se mantém em forma, de prontidão para a guerra. E a guerra imaginária que lhe é própria chega a atingir as amplas proporções jupiterianas.


— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.


— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.

Confundido pelas águas mutáveis, no nevoeiro de sua imaginação, Dom Marte de La Mancha se lança contra os gigantes moinhos de vento.


— Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu, heis-de mo pagar.

E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora.


Nem mesmo os inúmeros avisos do fiel escudeiro Sancho freiam Dom Marte de transpor contra os inimigos as suas provações e erigir a sua honra.


Deixe seu filho caminhar por onde sua estrela o chama.


Eis, por fim, o diálogo de Sancho com Dom Quixote sobre suas expectativas em relação à carta que enviaria a Dulcinéia:

— A mim me parece — disse Sancho — que os cavaleiros, que isso fizeram, seriam primeiro provocados, e alguma causa teriam para cometerem esses destemperos e penitências; porém Vossa Mercê que razão tem para enlouquecer? que dama o desprezou? ou que sinais achou para suspeitar que a Senhora Dulcinéia del Toboso fizesse algumas tolices com mouro ou com cristão? — Aí bate o ponto — respondeu D. Quixote — aí é que está o fino do meu caso; ensandecer um cavaleiro andante com causa não é para admirar nem agradecer: o merecimento está em destemperar sem motivo, e dar a entender à minha dama que se em seco faço tanto, em molhado o que não faria? Quanto mais, que razão não me falta com a larga ausência que tenho feito da sempre senhora minha Dulcinéia del Toboso. Bem ouviste dizer àquele pastor que sabes, o Ambrósio: “Quem está ausente, não há mal que não tenha e que não tema.” Portanto, Sancho amigo, não gastes tempo em me aconselhar que deixe tão rara, tão feliz e tão nunca vista imitação. Louco sou, e louco hei-de ser até que me tornes com a resposta de uma carta que por ti quero enviar à minha senhora Dulcinéia; e se ela vier tal, como lho merece a minha lealdade, acabar-se-ão a minha sandice e a minha penitência; e se for ao contrário, confirmar-me-ei louco deveras, e assim não sentirei nada.


__________________





Mariana de Oliveira Campos nasceu em Campinas (1988). É astróloga e escritora em seu canal, Luzeira – Astrologia e professora da Saturnália - Escola de Astrologia. É graduada em Letras (português/espanhol) e mestre em Estudos da Literatura, ambos pela Universidade Federal de São Carlos. Vive no Rio de Janeiro.

85 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo