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Uma paixão pitoresca ou O triunfo secreto de Charles Swann

por Italo Diblasi


Te das cuenta, Benjamín? El tipo puede cambiar de todo: de casa, de familia, de novia, de religión, de dios. Pero hay una cosa que no puede cambiar, Benjamín: no puede cambiar de Pasión

Pablo Sandoval


1. Alegrias e Tormentos


Para que a paixão seja um tema viável é preciso que instauremos, de antemão, um engano didatizante. Comecemos, portanto, por um episódio anti-paradigmático: uma brecha por onde Eros poderá trabalhar. Este episódio é uma seção do romance No caminho de Swann, de Marcel Proust, intitulada, na tradução de Mario Quintana, Um amor de Swann. Nela, vemos o desenvolvimento minucioso da paixão de Charles Swann por Odette de Crécy e a relação amorosa que se segue entre eles. E se falo de um desenvolvimento minucioso, é porque Proust parece querer registrar a fabricação desta paixão ou, em outras palavras, apresentar-nos a paixão como um fenômeno fabricável. Tudo isso requer, evidentemente, muito cuidado, mas aceitemos, por ora, a proposição do autor.


Aqui é necessária uma digressão: Charles Swann é, neste ponto da narrativa de Proust, um homem prestigiado, que transita bem aceito entre os setores da sociedade francesa. A narrativa se passa na Belle Époque, momento em que há um convívio tenso entre dois modos de vida tão imiscuídos, àquela altura, quanto antagônicos: o aristocrático decadente e o burguês. Charles Swann é, em muitos sentidos, essa tensão encarnada. Seus valores, e mais do que isso, seu modo de vida, são permeados por essa confusão, e sua vida amorosa é o recorte que Proust elege para apresentar uma Fratura.


Solteiro convicto, nosso personagem vive uma vida relativamente despreocupada do ponto de vista econômico e muito ativa socialmente. No episódio em questão, passa a frequentar a casa de uma família burguesa que se constitui como uma espécie de pequeno clã que reúne frequentadores assíduos, aí incluídos artistas e todo tipo de gente que permeava certa burguesia ascendente na França. É neste ambiente que Swann conhece Odette, uma ex-cortesã que frequenta esta família, personagem muito singular que fará um nó entre os dois mundos que constituem Swann. A princípio, o personagem não se interessa por ela, considera-a desinteressante e, no limite, feia. Com o passar da narrativa, seguem se encontrando nas reuniões da tal família e ela, interessada por ele, começa a seduzi-lo, e ambos passam a se visitar. A relação começa a se dar por uma espécie de jogo mútuo, retroalimentado por ambos, um jogo erótico de provocação e vaidade, um jogo que alguém sempre acaba perdendo.


Aqui entramos propriamente no território da fabricação do fenômeno que Proust leva a cabo e passamos, também, a ser seduzidos por ele. Ao passo em que o jogo vai avançando os personagens se envolvem cada vez mais e Swann, particularmente, começa a submergir emocionalmente. O ponto que nos interessa se localiza precisamente nessa parte da narrativa: Charles Swann começa a investir esteticamente sobre a figura de Odette. Apaixonado por arte (sobretudo música e pintura) passa a relacioná-la a elementos artísticos: sua voz com uma melodia, seus gestos com imagens, inventando-a deliberadamente a partir de suas referências de beleza. O auge deste processo se dá quando, preocupado em encontrar uma justificativa para seu crescente interesse por Odette, olha-a e acredita estar vendo a personagem de um quadro de Botticelli:



Vida de Moisés, Sandro Botticelli, 1482. No detalhe, a personagem que Swann associa a Odette.


A partir deste momento o jogo se transforma, para Swann, em paixão. Uma ardente paixão por Odette, em quem vê a Céfora do quadro de Botticelli. Ela passa a "absorver-lhe todos os sonhos" e vai se tornando, a passos largos, objeto de sua obsessão amorosa. Os defeitos da amada vão sendo encobertos paulatinamente pelas delícias da paixão e eles se tornam amantes, frequentando-se cada vez mais. Swann passa a se consumir por ciúmes, completamente tomado pelo desejo de fusão. A amada passa a ser uma espécie de obra de arte preciosa. Está estabelecido, na narrativa, o Eros do romantismo, o Eros que no limite tende ao destrutivo, e ele se dá, em Proust, sob o signo de sua fabricação.


Assim, como assinalou Maria Cristina Kuntz, "seu sentimento (pathos) terá como base os dados de uma beleza estética certa (ethos)". A fascinação transforma esse homem e começa a guiá-lo em todas as suas ações. Completamente tomado pela relação, Swann se cega para os avisos da sociedade e se casa com Odette. Aqui começa a tragédia da relação amorosa, já que tudo na união dos dois é considerado impróprio e ele deixa de ser convidado para os eventos da sociedade. Swann, entretanto, segue obcecado pela beleza atribuída a Odette e passa a devotar sua vida a esse amor.


O desenrolar da narrativa se dá pelo prisma de uma desilusão completa, já que a invenção amorosa de Swann escapa à realidade e se torna um tormento. Ele se vê imerso em uma intensidade que não é compartilhada e passa a sofrer, estando nas mãos de uma mulher que não o ama. À medida em que este processo se dá, vai se confrontando com o tempo que considera perdido, investido numa relação enganosa e que, no limite, levou ao sofrimento, um sofrimento intenso, próprio da paixão.


Chega ao ponto de afirmar: "E dizer que eu estraguei anos inteiros de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo". Aqui, começa-se a desenhar um sentido possível à tal busca do tempo perdido proustiana, mas um sentido neurótico, fantasmático. Eu gostaria de arriscar a ideia de que este tempo perdido, que é "desperdiçado", é uma construção propriamente burguesa, em oposição, inclusive, ao ímpeto de se enredar esteticamente numa fabulação amorosa, de invenção e entrega: um choque que veremos se desenhar modernidade a dentro, e em nossas próprias vidas. Algo que ficou mal resolvido em torno da noção de perder.



2. Perder melhor


Há um equívoco quase perverso instaurado, hoje, na linguagem, no que diz respeito à noção de perda; ao valor do termo, mais que ao seu significado. Georges Bataille, ao seu modo, não cansou de nos alertar a respeito disso. Estamos nos tornando tristes empreendedores de nós mesmos. Encaramos os eventos de nossas vidas como investimentos, e estamos sempre à espera do retorno, ou de algo que o valha: uma espécie de pagamento pelo que foi empenhado. Como se a vida coubesse nessas terminologias. Quando isso não se dá, nos tornamos amargurados, nos sentimos injustiçados, porque confrontados com a noção da perda. Distorceram uma ideia férrea, a de que estamos imersos no tempo e limitados a ele, e nos infundiram um desespero esquizo-capitalista: ele nos diz que devemos otimizar nossa deriva temporal, conter as perdas e ganhar o máximo possível. Fazem de nós verdadeiras máquinas paranoides, confrontadas o tempo todo com o medo. Sujeitos hipotecados! Já era esse o desespero de Charles Swann ao se confrontar com os anos "perdidos" em seu amor por Odette, os anos que sua criação lhe "tomou". É preciso dar um basta a isso.


Estamos imersos em uma ontologia da conservação. Nosso campo social nos quer (e nos produz) emocionalmente conservadores. Economicamente eficientes, politicamente dopados e emocionalmente conservadores. "Não aposte", eles nos dizem, porque quem joga perde. Não é à toa que a produção discursiva publicitária incida sobre nós pela lógica do autoamor, convidando-nos a construir, em nossas vidas, ligações amorosas práticas, em que dispendemos pouco do nosso ser, de nossa libido — melhor empregada, na visão deles, em outros campos da vida — e assim vamos nos tornando peças que se acoplam eficientemente, no limite de uma pobreza da experiência. Frios e risonhos.


Mas há uma sombra debaixo do tapete que cresce a cada dia, um clamor que vai tomando nosso imaginário e nos confunde. Queremos sentir. Queremos sentir. Queremos sentir. "Energia é delícia eterna, e aquele que deseja, mas não age, engendra a peste", escreveu William Blake, confrontado com o tempo de uma Inglaterra que há muito já tentava organizar os corpos e as vidas de sua gente. Uma organização em que sempre saímos perdendo. Trata-se, no caso de um Blake, evidentemente, da renovação de uma aposta, de uma inclinação trágica, afirmativa. De uma vocação para a vida. A poesia está o tempo todo se havendo com isso. Como no célebre poema de Elizabeth Bishop:


(...)

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério: Lugares, nomes, a escala subsequente Da viagem não feita. Nada disso é sério


Perder mais rápido, com mais critério, perder melhor. Tudo isso nos lembra de que não há coeficiente possível para os movimentos que vamos traçando, arriscando como corsas bambas num bosque à deriva. Não há juros ou correção monetária aplicáveis ao dispêndio terrível e delicioso que é viver, porque perder e já estar na vida (e vice-versa), e não tomar parte nela é bailar com fantasmas feito um pobre Swann, já tão assolado àquela altura, sem levar em conta que na mesma França, décadas antes, Rimbaud berrava sua “Canção da mais alta torre”: "Inútil beleza / A tudo rendida / Por delicadeza / Perdi minha vida".



3. Erosofia


Mas também o Charles Swann haveremos de vindicar, não porque seja necessário, mas porque para que a paixão seja um tema viável, é preciso que instauremos, de saída, um engano. Uma brecha por onde Eros pode trabalhar. Partamos do seguinte princípio: o lamento de Swann — aquilo que nos acostumamos a ler assim — nunca o foi. Isso porque o que sobressai da narrativa, com todos os seus percalços e anacronismos, é a força estrondosa da arte — que é a força estrondosa da vida — da capacidade inventiva alimentada por ela, engendrada com ela e por ela. O atravessamento. Algo tão forte que assustou Proust, que o fez dedicar toda sua literatura à busca do tempo perdido. Que o fez enlouquecer.


Outra leitura possível: Charles Swann, depois de todo o ocorrido, se confronta com aqueles anos de sua vida e exclama, "E dizer que dediquei anos de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor por uma mulher que encontrei num quadro de Botticelli". Ou "E dizer que um quadro influenciou tantos anos de minha vida, que desejei a morte, e no entanto vivi". Ou "E dizer que minha paixão pela vida, minha paixão pela arte me lançou ao maior amor que tive, e que tudo deu errado". Ou "Que minha paixão pela paixão me fez desejar a morte, que precisei da arte para dar vazão a ela". Que a busca do tempo perdido é tão somente o gesto de presentificar sempre e a cada instante tudo o que foi vivido e que segue. Nosso quinhão de eternidade. Por isso, não se lamente, Charles.


"Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológicos. Quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão?", escreveu Herberto Helder, que depois, no mesmo poema, indaga: "Paixão pela paixão, tinha?". Por isso, creio ser o caso de nos perguntarmos: Tenho? Temos? Teremos? E então passamos a tratar de uma Erosofia. Proust também a viu, e lá se vão cem anos.


Já é chegado o seu tempo.

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