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Uma festa para os olhos

por Julia de Souza




Anivlette



Esperam que esperemos resignados,

não sentem a seiva


subindo à nossa orquídea.

Ontem trouxemos a roupa de baile,


hoje, a cápsula suicida

[...]


do poema “Velhos”, de Edimilson de Almeida Pereira




Quando minha avó tirou a própria vida, eu estava dormindo. Depois de receber a notícia — que foi somada a um outro desaparecimento —, fiquei acordada em excesso, como ela sempre esteve. Vivi o que consegui descrever como uma “excitação mórbida”: a abundância de energia causada pelo disparate do mundo me levava a um estado de prontidão constante que me alçava ao teto, ao chão, ao teto, mas nunca de volta ao solo.

Desde que minha avó tirou a própria vida, no início deste ano, voltei a sonhar muito, portanto descanso pouco. Lembro de ela contar repetidamente sobre uma madrugada em que fui “visitá-la” em sua casa. Percorri seus armários, sonâmbula, escolhendo o que me servia, e depois parti. Nós duas sempre gostamos de roupas, e meus primeiros vestidos foram costurados por ela, assim como as roupas das minhas bonecas, que tinham enxovais prodigiosos.


*


Entre os membros da minha família, foi minha avó quem mais comemorou minha condição de poeta. Quando lancei meu último livro, ela, que vivia de uma aposentadoria mínima, comprou do próprio bolso uns dez exemplares, e os distribuiu entre seus vizinhos, os médicos do posto de saúde onde ela era paciente cativa, as amigas da padaria Karla. Foi também a primeira da família a assumir, sem pedir qualquer justificativa, que agora somos poetas, e não mais poetisas. “Minha neta é poeta”, ela dizia em alto e bom som, performática, enfatizando a rima. Ela mesma escrevia poemas, mas sua escrita inquietava sobretudo nos recados que deixava em suas passagens por nossa casa. Muitas vezes os assinava mais ou menos assim “Da sua avó muy vieja e maluca”.


*


Minha avó nasceu com um desafio. Carregava um nome que não é um nome, um nome esdrúxulo — o avesso de um nome. Explico: minha avó se chamava Anivlette. Lendo esse nome estranho de trás para a frente, descobre-se um outro, um pouco menos estranho: Ettelvina. Não tenho a menor ideia do motivo de minha bisavó, dona Antônia, ter escolhido minha avó para receber esse fardo identitário — uma provocação, me parece. Ou uma revolta, um empurrão: Vai, minha filha, ser extraterreste na vida! E lá foi ela, migrando solteira de estado para criar os dois filhos (minha mãe Adelia, e meu tio Anselmo) na marra. Foi por muito tempo secretária, mas gostava mesmo de costurar, pintar, esculpir, ler e correr o mundo. Cantava para espantar o silêncio — ou para se impor sobre ele. E tinha manias musicais e cinematográficas. Sean Connery. Pink Floyd. Denzel Washington. “Se eu quiser falar com Deus”, do Gilberto Gil. O “Uirapuru”, de Villa-Lobos. Mariza, a cantora de fado portuguesa.


*


Éramos muito parecidas fisicamente. Se tenho os olhos e o sorriso da minha mãe e as pernas tortas e veias saltadas do meu pai, meu nariz adunco e o formato do meu rosto pertencem em absoluto à minha avó. Meu rosto perfilado é o rosto da minha avó.

Não tenho nem um décimo da sua energia, mas aprendi a usar as pernas nos longos passeios que fizemos juntas. Cavernas inundadas, trilhas pelo mato, jogo do bicho e loteria antes do sorvete de flocos, quermesse da igreja do bairro, tomar um passe sem querer na Vila Mariana. Um voo de teco-teco em Minas Gerais, que talvez tenha sido a origem do meu medo de avião. E a condução que pegamos logo após eu acordar da sedação de uma endoscopia (ela era minha acompanhante, e não me deu outra opção a não ser esperar o ônibus e, depois dele, caminhar até em casa. Minha avó não era dada a paliativos.)


*

Gostava fervorosamente de algumas pessoas, mas custava pouco para de repente decidir detestar algumas delas. E inventava explicações tão criativas quanto delirantes para justificar seu repentino desgosto. Quando chegava a esse ponto, a aversão era irremediável. O nome do desafeto era riscado da agenda telefônica e sequer era permitido que os outros citassem seu nome em sua presença.


*


Nas últimas eleições presidenciais, a saúde de Anivlette já estava um bocado prejudicada. Ainda assim, fez questão de votar no primeiro e no segundo turno — ela, que foi ensinada pela televisão a nutrir todo o tipo de julgamento contra Lula, entendeu que derrotar Bolsonaro era um imperativo. Foram duas empreitadas hercúleas fazê-la chegar, cadeirante, a sua seção eleitoral, localizada no segundo andar de uma escola municipal que não tinha elevadores ou rampas de acesso até os pisos superiores. Os funcionários encarregados da acessibilidade do colégio eleitoral nos desencorajaram e disseram que não podiam arcar com a responsabilidade de transportá-la escada acima. Conseguimos, nos dois turnos, mobilizar eleitores — de ambos os lados da disputa — para içar minha avó, montada em sua cadeira de rodas, por quatro lances de escada. Foi aplaudida pelos jovens que acompanharam ou tomaram parte daquele empenho de uma mulher de 86 anos para tomar parte no que chamamos de democracia.


*


Por que não digo: “no dia em que minha avó se matou”? “No dia em que minha avó se suicidou”? Não sei. Acho que ela não furtaria a esses termos. Ela não se esquivava das palavras, embora sempre as medisse muito bem — era calculista e sedutora. Quando chegava a um mote envolvente, o repetia como se fosse a sua marca registrada. E eram mesmo. “Uma festa para os olhos”, dizia ela, falando sobre o brilho vermelho de Marte quando o céu está desanuviado. Telespectadora fiel de programas televisivos sobre astronomia — seu preferido era o Cosmos, apresentado por Carl Sagan —, minha avó talvez tentasse encontrar nos corpos celestes algo que pulsasse na mesma frequência ou coloração de sua mente irrequieta.


*


Como minha avó, eu também não acho nada fácil dormir. Abandonar com suavidade progressiva o dia — aceitar que ele se foi, não é possível detê-lo. O vidro das horas é implacável, mas queremos assistir a areia correr, ainda, ainda hoje.

Minha avó não gostava do mar, nem da areia. Era muito alérgica, mas nunca às plantas, que conhecia profundamente. Transplantava nas árvores do jardim as orquídeas que chegavam nos vasos — mas, entre uma e outro transplante, fui perceber mais tarde, enfiava flores de plástico.

Numa tarde qualquer, durante a pandemia, ela caminhou até a minha casa (a casa onde eu vivia com a minha mãe) e me pediu que eu a acompanhasse até uma rua próxima para ver um Ipê amarelo que estava florido — “exuberante, um colosso!”, disse ela. Hesitei. Estava trabalhando, cumprindo meus planos, e a ideia de interromper o fluxo moroso e burocrático do dia não parecia possível. Mas ela insistiu. Fui. Fomos. E aquele Ipê — impossível, superlativo — foi, de fato, uma festa para os olhos.



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