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Uma nota, uma lista e um esquete

por Juliana Thiré de Negreiros




Rimbaud; tradução Ivo Barroso



Uma nota: três anos depois, começo a transcrever as notas que fiz durante o processo de Hamlet-Máquina com a Cia Terror Barato, em 2019. Segue uma delas:


Meu marido, eu já vou. - Vem, miserável.

Quando eu era criança puxava as pintas da minha nona!

Quero trocar de voz com ele

Vou me descontrolar de mansinho

Em cima da cadeira

Nada-náusea deselegante

colo de mãe

meu ouvido no peito dela

peito quente manchado de sol

que eu pude mamar até a primeira traição

Erotismo na redenção

meditação estuprada

Aligeiramento

Enfatizar a 3ª pessoa

Tensão eu - ofélia no texto inteiro

Galo canta

Mais de mil anos há que Ofélia passa

Raiva de luto, batendo alguma coisa, arrastada pelo rio. Passou, morreu, Ofélia.

Eu sou Ofélia.

Quer comer o meu coração, Hamlet?

Ofélia deslizando no concreto da escada

Canto baritono do cativeiro

quebra imediata - surpreender a mim mesma no ato

7 e 8 de agosto - quarta - Iguaba Grande. Noite.

O MAL do Rimbaud

Adeus pomba adorada

Gertrudes no velório

Coração desastre, quero descer

Cadê Ofélia?

Hoje me senti presa, diferente de quinta passada. Esse vestido me exige o que eu não quero dar.


Uma lista: dia desses tentei contar quantos teatros temos no centro do Rio pra começar as articulações em 2023. Até agora contei 34. A maior concentração que conheço.


1. CTO - Centro de Teatro do Oprimido - Mém de Sá 31

2. Tá na Rua - Mém de Sá 3

3. Sala Cecília Meireles - Rua da Lapa 47

4. Instituto do Ator - Rua da Lapa 243

5. Teatro Riachuelo Rio - Rua do Passeio 38/40

6. Teatro de Anônimo - Rua dos Arcos 24-50

7. Casa Quintal das Artes - R. Silvio Romero

8. Sede das Cias - Escadaria Selarón

9. Teatro Rival Refit - Rua Álvaro Alvim 33

10. Teatro Municipal - Cinelândia

11. Teatro Gonzaguinha - Rua Benedito Hipólito 125

12. Terreiro Contemporâneo (Cia Confraria do Impossível) - Rua Carlos de Carvalho 53

13. Teatro Chica Xavier - Rua Carlos de Carvalho 53

14. Teatro Firjan Sesi Centro - Av. Graça Aranha 1

15. Teatro João Caetano - Praça Tiradentes

16. Teatro Carlos Gomes - Praça Tiradentes

17. Teatro Dulcina - Rua Alcindo Guanabara 17

18. Teatro Glauce Rocha - Funarte - Av. Rio Branco 179

19. Teatro Nelson Rodrigues - Av. República do Paraguai 230

20. Sesc Ginástico - Av. Graça Aranha 187

21. Maison de France - Av. Presidente Antônio Carlos 58

22. Armazém Cia de Teatro - Rua dos Arcos 24

23. Cabaré Assyrio - R. Manuel de Carvalho 239

24. Desterro - Av. Henrique Valadares 141 sala 301

25. Teatro da Caixa Econômica - Carioca

26. Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF) - Cinelândia

27. CCBB - Candelária

28. CCC - Atrás do CCBB

29. Beco das Letras - Pça da Cruz Vermelha

30. Armazém da Utopia - Av. Rodrigues Alves, armazém 6 - Sto Cristo

31. Sede da Cia de Mystérios e Novidades - Rua Pedro Ernesto 21 - Gamboa

32. Teatro de Bolso Sérgio Britto - Rua da Constituição 34

33. Centro Cultural José Bonifácio - Rua Pedro Ernesto 80 - Gamboa

34. Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo - Rua Monte Alegre 306




Um esquete: Delírio Cênico (vencedora prêmio FUNARJ/Rádio Roquette-Pinto de esquetes 2021, escrita por Juliana Thiré, Filipe Felix e Thais Mazzoni)


É noite

Sala pequena

Algumas mesas, muitas cadeiras

Pessoas sentadas e pessoas em pé

Pessoas entrando

Alguns estão bêbados, cambaleando

Muitas gargalhadas

O teatro morreu é o que estão dizendo

O que sobrou são fanáticos

Está bem quente

Uma boca se abre e entra uma mosca

Faz cócegas a mão se agita – sai sai sai

Que derruba o copo de vidro no chão

Seis cavalheiros de chapéu na mão

Uma dama

Será Teresinha de Jesus?

Ela brinca de ser bebida

Seu nariz está sangrando

Tem bastante terra no chão

Adália aquece a voz com a fumaça de seu cigarro

O Ney não vem?

Corre até a única janela e grita: é sexta feira da paixão

Os faróis, por enquanto, estão mal utilizados

Roberto está desenhando não quer que encham seu saco

No fundo ele gosta que encham seu saco, é assunto

Geise romântica aponta pra lá, da uma piscadinha, mas o velho não percebe

Mãos enormes

Ancas enormes

Costelas expostas

Um fio de eletricidade cheira a queimado

Um salto alto no piso

É Denise que vomita e acena para Brenda

Entra uma senhora vestida de negro e em carne viva

Ela limpa o vômito dos cabelos do pianista

Um cavalo ameaça ser içado

Mas ainda não é hora

O Glauber está mijando na boca de uma ajoelhada

O olhar é de mãe

Um beicinho amargurado

Um chilique do outro lado

Um soco no queixo de Maísa

Ela está excitada porque vai cantar

Regina e Mário engatinham aos pés das mesas pedindo perdão

Helena põe a cara em evidência, besuntada

O que é isso?

Quem te deixou fugir?

Tosse três vezes, sendo a última meio forçada

Duas genitálias se cumprimentam

O Rivotril tenta ensinar uma cançoneta para o óleo de copaíba

A voz barítona arrepia o carpete surrado

Christina enfia uma sonda hospitalar no espirro do estrangeiro

Ele boceja

Já jantou?

O chipanzé está aos prantos

Ele diz que foi chifrado e jamais terá carteira assinada

O pierrô exibe delicadamente seus testículos

Está grávido: de cada ovo nascerá um novo pinto

O parto acontece em instantes, em cima de um caixão

É um tenente coronel quem cortará o cordão

Gêmeas siamesas grudadas pela cabeça

Aguardam para entrar em cena

Uma quer porque quer entrar de cabelo molhado

A luz do camarim apaga

Júlio não pagou a conta?

O altar pega fogo

Queima o salto de Alice

Mas ela apaga discretamente e volta a rezar

Você conhece tudo por aqui?

Não vai acontecer nada?

Como assim acontecer?

(para Alexa, o aparelho de inteligência artificial)

Alexa, você aqui no meio de tudo, és uma atriz?

Como assim essa imunda quer ser uma atriz?

diz Karina rebolando, agarrada na vassoura

Cai um refletor na cabeça dela

Um dos cavalheiros tira Teresinha de Jesus para dançar uma valsinha

E Karina com metade do crânio exposto se junta na dança do casal

Hilda grita: É aquela moça da novela!

Sobe na mesa rosnando, faz que vai chorar, e late

Regina e Mário estão comendo toda a terra do chão agora

Hilda aponta e grita: É aquela moça da novela!

O Flávio ainda nem se matou

Ele tenta dizer alguma coisa

Feliz aniversário, Flávio

Uma pistola agora diz que não é uma pistola

Mas seria mais excitante se fosse mesmo uma pistola

É muito mais excitante justamente que não seja uma pistola

Um tapa na cara da Brenda,

É Denise vomitada dizendo

Faça planos, Brenda! Nós vamos voltar com tudo!

Ouve-se fogos vindo do lado de fora

O palquinho de apresentação é minúsculo

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