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Primavera

por Julia de Souza





Quando chego em casa, vejo o tremendo golfinho na piscina vazia. Está morto, não há dúvidas quanto a isso, seu corpo está petrificado e enegrecido. Há, aliás, algo de pássaro negro e pré-histórico nesse bicho: seu bico, que está aberto como se procurasse o fôlego e desponta para fora da piscina, é também o bico de um corvo, só que mais alongado. O corpo enorme e gordo repousa na parede do reservatório — que agora reserva apenas esse corpo. É de fato enorme. Pergunto a minha mãe, meu pai e meu irmão por que não fizeram nada para evitar sua morte. Por que não telefonaram à universidade para que o resgatassem? Não esboçam resposta; parecem ter ignorado tacitamente aquele embaraço que pousara no quintal. Fico aflita, sinto repulsa pela carniça estrondosa de um peixe-não-peixe que, entendo num relance, viajara até aqui na tempestade da noite anterior: peixe (não peixe) ou corvo colossal? Meu pai, provavelmente envergonhado (afinal, era ele o cientista, era ele quem amava os bichos a ponto de sacrificá-los para seu estudo), empunha um facão e entra na piscina seca. Começa a retalhar o golfinho em partes grandes, mas (como é próprio de toda parte), menores que seu todo. Quem sabe assim poderemos nos livrar da tarde tétrica (parece primavera, o sol inunda e colore as coisas.) Penso agora que o golfinho poderia ser um boto; ou melhor: a vingança de um boto. Não o boto que esconde o homem sedutor (ou também ele), mas o boto enquanto resto bovino. Como respiram os golfinhos?, é o que pesquiso abismada de manhã, depois de olhar para a piscina cheia.

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