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Mrs. Dalloway [parte um]: Temporada (ou: “eles amam a vida.”)

Atualizado: Fev 23

por Julia de Souza


Jovem de novo

quando o verão vem

— Angela Melim



Publicado em 1925, Mrs. Dalloway é um romance marcado pela multidimensionalidade e polifonia: ainda que, de saída, a narrativa pareça acompanhar tanto os périplos de Clarissa Dalloway por Londres como as ondulações de seu pensamento, logo o leitor será surpreendido pelas interferências quase radiofônicas das impressões e movimentos de outros personagens que circulam pela mesma cidade.


A guerra havia acabado, e Clarissa daria uma festa — “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”, diz a consagrada primeira frase do livro. “Adoro passear por Londres”, diz ela ao esbarrar com um conhecido na rua.


A caminhada de Clarissa até a floricultura Mulberry dá início à topografia do norte de Londres que a narrativa esboça. E se o espaço é descrito não apenas pelos nomes de lojas, ruas e praças, mas também pela postura das pessoas que se deslocam por elas, o tempo, em Mrs. Dalloway, é de certa forma organizado pelas badaladas pontuais do Big Ben — o som de longo alcance do relógio, capaz de ser ouvido por todos os personagens da trama, é signo de uma possível continuidade entre suas experiências.


*


Mapa antigo de Londres



Enquanto admiram e escolhem os cravos, rosas, íris e lilases, flores que parecem “arder com uma chama interior”, Clarissa e a floricultora ouvem um estampido na rua. É neste momento que os rumores e rostos alheios começam a invadir a narrativa: avistou-se um automóvel distinto aproximando-se da calçada, e, ali dentro, um rosto “dos mais eminentes” foi entrevisto, antes que uma mão masculina fechasse a cortina do carro. A multidão se mobiliza em torno daquele mistério: seria o Príncipe de Gales, o Primeiro-Ministro, a Rainha? Os humores, atiçados pela possível proximidade com a Coroa ou alguma autoridade do Império, provocam as mais variadas reações nos passantes: “a pálida luz da presença imortal recaiu sobre eles, assim como sobre Clarissa Dalloway.” A agitação provocada pela passagem enigmática do automóvel “tocara em algo profundo.” Essa árvore de raízes tão frágeis quanto inelutáveis — essa erva daninha que atravessa os palácios e domina silenciosamente o “peito britânico” — será explorada com ironia durante todo o romance.


Mas o automóvel seguira seu caminho e os olhares se voltaram para o céu, onde um avião faz manobras ornamentais, deixa rastros de fumaça e some entre as nuvens. As nuvens, como acontecerá em outro momento da narrativa, são as agarras que o narrador (ou narradora) instala para saltar da impressão difusa sobre os transeuntes para a consciência de Septimus, um homem que terá importância central no decorrer dessa quarta-feira de verão, ainda que não tenha ligação direta com a mulher que dá nome ao romance. “Bem, pensou Septimus ao levantar os olhos, estão me enviando sinais.” A loucura e a influência de um passado fantasmagórico, como veremos, ameaçam diluir o “senso de proporção” desse veterano de guerra.


Mas voltemos ao dia. É verão — uma estação que, quando de fato vinga na Inglaterra, parece dar aval a uma espécie de fruição rara a seus habitantes. Esse humor desafogado vai ao encontro da forma como se estabelece o foco narrativo do romance: trata-se de uma voz mediadora que atua como uma espécie de cavalo de muitas selas: deixa-se montar pelo ponto de vista das diversas personagens — e espelha seus pensamentos, seus olhares, suas sensações. Trata-se de um(a) narrador(a) que, de aparência neutra, saltita entre uma mentalidade e outra, como se mimetizasse o trânsito acelerado das ruas de Londres, tecendo uma teia de impressões que se encadeiam inadvertidamente no tempo e no fio da narrativa. É inútil tentar distinguir, durante a leitura, a quem pertencem as ruminações ou descrições que embalam a narrativa: ao narrador sem rosto ou às personagens. Não se sabe também quem é aqui destronado: o posto de locutor onisciente ou a ilusão de uma consciência independente dos sujeitos que habitam a obra.


É verão e Clarissa dará uma festa. As ruas estão cheias, e as pessoas e seus afetos se esbarram pelos caminhos: “Arlington Street e Picadilly pareciam agitar o próprio ar do parque e erguer as folhas de modo cálido e radiante, em ondas de uma vitalidade divina que Clarissa amava. Dançar, cavalgar, ela adorava tudo isso.” No verão, arrisco dizer, os ingleses se permitem amar, se não alguém, pelo menos algo além de seus cães; amar, no limite, a própria permissividade do verão — ou, como se inscreve na consciência nostálgica de Clarissa Dalloway, de um outro verão.


Pois, além do presente londrino em que a narrativa transcorre, há a incidência de um passado, sempre celebrado, que parece ter selado o destino do núcleo aristocrático desse romance: um fatídico verão em Bourton, quando Peter Walsh, antigo amigo de Clarissa, declarara sua paixão por ela, que terminou por se casar com Richard Dalloway, um político insuspeito que lhe proporcionou uma vida confortável em Westminster, bairro nobre nos arredores do Palácio de Buckingham. “Que farra! Que mergulho! Sempre se sentia assim quando, com um leve rangido das dobradiças, que ainda podia ouvir, escancarava as portas envidraçadas e mergulhava ao ar livre em Bourton.” Na manhã que inaugura a narrativa, no início do dia que culminaria em sua festa, o prazer e os pensamentos de Clarissa parecem existir sempre à sombra de vivências anteriores: “o momento dessa manhã de junho submetido à pressão de todas as outras manhãs.”


Há, portanto, um caráter dissociativo na experiência de Clarissa Dalloway. A reserva com que perscruta o mundo se limita com o estranhamento e a ambivalência de sua percepção de si mesma. “Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha;”


Para além da partilha de um mesmo espaço-tempo, a Londres moderna do pós-guerra, esse senso de desagregação é a linha d’água que circunscreve essa espécie de barca compartilhada por Clarissa Dalloway e Septimus Warren-Smith. Ainda que os dois personagens nunca se toquem ou interajam diretamente, ambos estão às voltas com um certo descolamento com relação àquilo que têm diante de si: o presente e, no limite, a realidade e a vida. A existência mundana de Clarissa, voltada para as recepções e relações muitas vezes frívolas da alta sociedade londrina, contrasta com a tonalidade especulativa e questionadora com que mensura o fato de estar viva: “Porém, aprofundando mais (...) o que, agora em seu espírito, significava isso para ela, essa coisa que chamava de vida? Ó, era bem estranho.”


Septimus encara sua existência sob o ponto de vista dos confins: sobrevivera às trincheiras da guerra, que vitimaram, no entanto, seu amigo Evans, com o qual nutria uma intimidade que se insinua homoafetiva. “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego”, propôs Freud em Luto e melancolia, publicado poucos anos antes do romance de Woolf. Septimus, assombrado pelo amigo ausente, ouve sua voz atrás de um biombo e responde a ela: “Evans! Evans!”, grita ele, causando agonia crescente em Rezia, sua esposa italiana que o leva a consultas psiquiatras, com Dr. Holmes, inicialmente, na tentativa de resgatar seu marido de um mundo invisível a ela. “Mesmo o próprio Holmes não poderia alcançar esse derradeiro despojo perdido na borda do mundo, esse proscrito, que contempla de longe as regiões povoadas, que jaz, como um marinheiro naufragado, na beira do mundo.”


O flerte de Septimus com a morte, explicitado tanto em sua proximidade com “os mortos” como em seu desejo de suicidar-se, encontra eco nas elucubrações de Clarissa sobre a finitude e o sentido da vida — e até mesmo de sua celebração ritual, a festa: “Era uma oferenda; juntar, criar; mas para quem?”. Qual o sentido da celebração se há a certeza da morte, esse “inconcebível”? Sua vida, pretensamente tão estável, é trespassada por avanços e recuos de humor: “Simplesmente, o que ela apreciava mesmo era a vida. ‘É por isso que dou essas festas’, disse, em voz alta, à vida.”


A vida, portanto, assume a vez de um interlocutor para esses dois personagens a princípio tão antagônicos: Clarissa, responsável apenas pela manutenção de sua família e estirpe, toca sua existência (ou aquele dia de sua existência) com um misto de pasmo, adoração e esvaziamento. Septimus, que percebe a violência de existir num mundo que tenta prevalecer às perdas imensuráveis da guerra, a encara com um tom de despedida, mas também com a exaltação de um dever: experimenta um tipo de certeza — uma convicção inflexível, a crença de ter acessado uma verdade límpida que deve ser transmitida — sensação experimentada, talvez, apenas pelos loucos: ele tem acesso ao “segredo supremo”, e isso é motivo de angústia e delícia. Como se nota, os influxos de vigor e exaltação também marcam a passagem desses personagens pelo dia. “Era tudo para a festa”, pensa Clarissa. Ambos, no entanto, de forma mais ou menos explícita, dividem a mesma paisagem limítrofe — a das imagens litorâneas, marítimas, aquosas, da vida que, inevitavelmente, recua. Uma apenas contempla a profundeza e o naufrágio; o outro, os incorpora.


O trânsito de Clarissa e Septimus pelo dia e por Londres coincidem não apenas geograficamente, mas em saliências inconclusas e dissoluções do pensamento. Septimus tem algo a dizer antes do abismo final, fora convocado a transmitir uma mensagem; e Clarissa — bem, Clarissa dará uma festa.


[fim da primeira parte]


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