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Mrs. Dalloway [parte dois]: Estar sempre de frente

por Julia de Souza



Lá vem o vento correndo

montado no seu cavalo

Nas asas do seu cavalo

vem um mundo amanhecendo

vem outro mundo morrendo

Ligando um mundo a outro mundo

vem um grito reboando

reboando, reboando.

Jorge de Lima







Clarissa dará uma festa, e não sabe distinguir bem a motivação desse evento (além daquele amor vago pela vida que abordei na primeira parte deste texto). Dará uma festa, talvez por estarem em meados de junho. Talvez porque a guerra havia acabado — ainda que, como ela mesma anota em seus pensamentos, tantas vidas tenham sido perdidas, “mas havia terminado; graças a Deus — acabado.” Imbuída desse espírito de página virada, Clarissa pensa na família real, no que fariam agora o Rei e a Rainha no Palácio. Repara também na vida pulsante das ruas, “um alvoroço de cavalos a galope”, e recebe essas impressões sobre as ruas e a imaginação do Palácio como uma espécie de incentivo: ela estava “amando tudo aquilo com uma paixão insensata e constante, fazendo parte daquilo, pois sua família frequentara a Corte na época georgiana, ela também naquela noite iria deslumbrar e resplandecer, “ela daria uma festa.”


Mas pensemos na paixão, ou nas paixões, esses fenômenos da insensatez que se manifestam no romance de formas múltiplas por diferentes personagens. Rememorando o fatídico verão em Bourton, Clarissa pensa em Sally, amiga de juventude cujas “força assombrosa”, beleza fulgurante e veia destemida lhe provocavam encantamento e alvoroço. “Foi Sally quem lhe fez notar, pela primeira vez, o quão protegida era a existência que levava em Bourton. Ela [Clarissa] nada sabia sobre sexo — nada sobre os problemas sociais.” Essa energia nova que Sally transpirava — em seus ímpetos socialistas, no desaviso com que movia seu corpo e em sua adoração pela intensidade da poesia romântica — parece ter sido o primeiro contato de Clarissa com algum senso de paixão. “Ela era louca”, lembra Clarissa, “completamente louca.” Mas Clarissa pressentira, naquele mesmo verão, que sua amizade não tinha futuro.


E havia Peter, Peter Walsh, o antigo namorado que familiarizou Clarissa com a palavra “sentimental” e que, no mesmo verão em Bourton, intuindo que ela o trocaria pelo distinto Richard Dalloway, a interpelou, aos prantos, apaixonado, diante de uma fonte. Rejeitado, Peter — que fora expulso de Oxford por conta de suas inclinações socialistas — segue em viagem para a Índia.


Se há no romance qualquer incidência de uma noção de destino, ela se limita com aquele configurado nos versos de R. M. Rilke:


Eis o que se chama destino: estar de frente,

Nada mais que isso, estar sempre de frente.

(trad. José Paulo Paes.)


Pois no exato dia em que Clarissa Dalloway dará uma festa, Peter Walsh retorna a Londres e a surpreende com uma visita. A Clarissa, que cerzia seu vestido de baile, Peter confessa estar apaixonado — não por ela, mas por uma indiana casada. Mais uma vez, a figura de Walsh irrompe como lembrete de uma existência que não se esquiva da vulnerabilidade que o desejo pressupõe. Mais uma vez, Peter chora. E esse anúncio soa como uma espécie de atualização de sua declaração frustrada a Clarissa — agora ele se declara novamente, mas declara algo a ela, em vez de se declarar para ela. Pergunta se ela é feliz — a interpela novamente — mas algo os interrompe.


De volta às ruas de Londres, Peter se ressente da frigidez e do convencionalismo de Clarissa. Seu pensamento volteia, avança e recua no tempo, e ele parece caminhar pela cidade com uma completa imprudência. E capitula: “Não! Não!”; “Ela não está velha. Tampouco estou velho, exclamou, caminhando rumo a Whitehall, como se lá se estendesse, vindo em sua direção, pujante, interminável, seu próprio futuro”. Eis, então, uma imagem do destino. “Havia anos que não se sentia tão jovem.”


Passo, agora, a um outro movimento passional que, no romance de Woolf, ocupa um papel tão heterodoxo quanto medular: a paixão de Septimus. Como esbocei na parte anterior deste texto, Septimus, personagem que, apesar de não possuir qualquer vínculo social direto com Clarissa, disputa com ela o protagonismo da narrativa. Trata-se de um veterano de guerra que, traumatizado pela morte violenta de seu amigo Evans — por quem aparentemente nutria uma paixão — habita o limiar da razão e da comunicabilidade.


Mas não é dessa paixão homoerótica que quero tratar, ainda que ela seja, na engenharia difícil da narrativa, uma espécie de dispositivo. Registro aqui o que me pareceu mais espantoso na passagem de Septimus pelo romance: a obstinação de seu delírio, dicção e postura. Um dos sintomas centrais de sua loucura é uma convicção definitiva: não restam dúvidas, para Septimus, de que, da guerra e da perda, ele herdou uma missão irrevogável:


“(...) estava sozinho, convocado antes de toda a massa humana para ouvir a verdade, para apreender o significado que, agora, por fim, após toda árdua labuta da civilização — gregos, romanos, Shakespeare, Darwin e por fim ele mesmo —, seria plenamente revelado a... ‘a quem?’, indagou em voz alta, ‘ao Primeiro-Ministro’, replicaram as vozes que sussurravam sobre sua cabeça.”


E a descrição de seu delírio segue:


“O segredo supremo deveria ser revelado ao gabinete ministerial; primeiro, que as árvores estavam vivas; em seguida, que não há crime nenhum; depois, o amor, o amor, o amor universal (...).”


São muitos os traços religiosos do discurso alucinado de Septimus, bem como da sua certeza de ter sido eleito para a transmissão de uma mensagem transformadora e inalcançável aos outros. O delírio messiânico do sobrevivente de guerra contrasta radicalmente com a o ceticismo inabalável de Clarissa, vinculado a uma linhagem de pensamento tipicamente inglesa. Ela se ressente das inclinações cristãs de sua filha Elizabeth. O narrador se aproxima das preocupações de Clarissa:


“Alguma vez tentara ela converter alguém? Não queria ela que todos fossem apenas o que fossem? (...) mas o amor, o amor e a religião iriam destruir isso, fosse o que fosse, a privacidade da alma.”


Aqui se delineia uma distinção clara entre as índoles de Clarissa e Septimus. Enquanto a primeira expressa resistências àquilo que há de universalizante na disposição religiosa, pregando o senso de individualidade e realidade (as coisas como elas são), o segundo reivindica sua vocação redentora, acreditando ser o mensageiro da verdade que salvará a humanidade de suas mazelas.


Diante da plasticidade do mundo, Septimus oscila entre o maravilhamento, a alucinação e o pavor:


“(...) as folhas estavam vivas; as árvores estavam vivas. E as folhas, atadas por milhões de filamentos a seu corpo, o impeliam para cima e para baixo; (...) Uma criança chorou. Logo em seguida ressoou ao longe uma buzina. Tudo isso indicava o surgimento de uma nova religião —”


Septimus luta contra o afogamento da loucura, contra o mar que, em sua visões, está sempre a um passo dele. Por outro lado, reconhece na realidade o maior perigo:


“(...) as coisas reais eram excitantes demais. Era preciso tomar cuidado. Não queria enlouquecer.”


Clarissa, por sua vez, nutre uma confiança férrea na realidade material do mundo. A consideração da morte — que compartilha com seu desconhecido Septimus — ocorre a Clarissa como uma espécie de confirmação da continuidade daquele mesmo cenário que ela percorre enquanto cogita a finitude: “Fazia alguma diferença então, perguntou-se, caminhando em direção à Bond Street, fazia diferença se ela inevitavelmente iria deixar de existir por completo; mesmo com sua ausência, tudo isto vai continuar”


***


O signo da loucura, que paira sobre Septimus e fora associado por Clarissa à amiga Sally (de quem se afastara, como previsto), se limita com o destempero da paixão. Um dos médicos de Septimus, Sir William, defende que a saúde “tem a ver com a proporção. (...) uma arte difícil — o senso de proporção.”


É desse defeito da proporção que Clarissa parece querer se prevenir. As badaladas do Big Ben, que organizam o dia de Clarissa, são, nesse sentido, emblemáticas: há uma consolação, por mais banal, na justeza com que o relógio retalha o dia em fatias exatamente idênticas.


A paixão que Clarissa nutre pela vida é uma paixão de manutenção. A despeito de sua inclinação especulativa, de seu faro aguçado para a beleza e as vibrações da vida e seu desejo de resplandescências, Mrs. Dalloway, “como uma faca afiada”, tenta regular os excessos do mundo e as possibilidades de deformação que ameaçam o que ele tem de evidente. Clarissa quer afastar a morte de sua festa. E se outrora, numa noite em Bourton, ela experimentara o presente de um “sentimento religioso”, hoje sua paixão é a de quem vê o mundo desde a altura.


Já a paixão de Septimus é uma paixão de conversão, de transcendência. Se Septimus recusa à heterotopia de ser internado numa casa de repouso, como recomendam seus médicos, também não são as “coisas reais” e suas “explicações científicas” que o convencem da permanência na vida comum. “Agora vamos nos matar”, diz ele a sua esposa Rezia, à beira do rio.


A forma insidiosa como o narrador se desloca entre os pontos de vista de Clarissa e Septimus (passando também pelas experiências sensíveis de Peter e, brevemente, de Elizabeth) propõe um senso de simultaneidade e coexistência entre as duas personagens. Ambos cogitam a morte, ambos associam sua intuição a imagens aquáticas. Para ele, o afogamento; para ela, as fontes, ou uma “ligeira expectativa, igual à que pode tomar conta de um mergulhador antes de saltar, enquanto lá embaixo o mar escurece e clareia, e as ondas ameaçam quebrar, mas apenas se dividem suavemente na superfície (...)”. Lembremos, aqui, da faca de Clarissa, capaz de amansar até mesmo as ondas.


A primeira página do romance, no entanto, já anuncia o tino de Clarissa para a os acontecimentos trágicos: numa passagem que também incorpora o movimentos das ondas, ela justapõe a memória de uma manhã em Bourton à “farra” da manhã atual: sentira ela então (ou sente hoje?) que “algo terrível estava prestes a acontecer.” Não é fortuita a coexistência, num mesmo parágrafo, de expressões tão díspares como “farra” e “algo terrível”; o leitor que chegar às últimas páginas do romance saberá que a festa de Clarissa será assombrada pela notícia da morte.


***


Mas é Peter Walsh, mais que Clarissa, quem parece amar a vida — e aqui a vida se refere também à possibilidade de experiência coletiva, de trânsito e de uma franqueza que não é tão cética quanto à de Clarissa e tampouco, como em Septimus, comprometida com uma realidade inalcançável.


Em suas andanças pela cidade, é Peter quem consegue firmar um pacto mais vigoroso entre uma vida possível e uma vida desejada: “À sua maneira, Londres era afinal uma esplêndida realização; a temporada; a civilização (...)”.


Peter reconhece, nos passantes anônimos, “excelentes companheiros, a quem era possível confiar a própria vida, parceiros na arte de viver, que iriam assegurar nossa travessia.”


Também no que diz respeito à disparidade entre o senso de milagre e a sobriedade científica, Peter é capaz de estabelecer pontes: “Talvez ateu por convicção, ele é surpreendido por momentos de exaltação extrema.” E é Peter quem tenta conciliar fragilidade e vigor, ainda que isso implique numa existência algo deslocada, a de um “viajante solitário” que “poderia agora mesmo se dissolver em lágrimas.” O mesmo viajante segue, no entanto, rumo à festa de Clarissa, aquela presença inelutável em sua vida. Peter parece querer estar de frente. Antes de partir da festa, vê Clarissa, que finalmente se aproxima dele, depois de perambular pelos salões em busca de algum sucesso. E Peter fica, insiste, pois ali estava ela, e porque ainda há algo, alguma chama desprotegida, entre o mar e as alturas.


***

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