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Estou fazendo xixi

por Juliana Thiré de Negreiros




"O Homem e sua dor" Antonin Artaud. Giz de cera e lápis de cor sobre papel, abril de 1946 (ARTAUD, 2006)

entregue ao Dr. J. Latrémolière em agradecimento aos eletrochoques




Oi. Por ocasião de ser esta a quinta publicação que faço da coluna de teatro, uma nota: percebo que nos 5 meses deste exercício concebi o texto nas últimas horas antes do lançamento das respectivas edições. As variantes envolvidas na causa desse padrão ainda me parecem muitas - eu teria de recorrer ao excesso de descrição e eu agora não tô podendo com os excessos.


Os desenhos que encontrei do Artaud são todos visualmente excessivos. "O homem e sua dor" foi escolhido por ser o mais breve. O tempo das coisas é misterioso e nunca saberemos em qual desenho ele se demorou mais, etc. Para a minha busca de agora, "O homem e sua dor" é o mais breve.


Eu ainda espero poder começar um texto desse com "Está em cartaz no Teatro do Vidigal…", mas ainda não foi possível.


Pois bem. Fui ao psiquiatra pela primeira vez e já saí com receita de remédio, claro. Esperava o que, Juliana? Ainda assim faço questão de me espantar. O manicômio é também um gás que paira numa camada de tudo.


Estou assim. Estou assado. Não sou a primeira, não serei a última. Acontece que estar é uma coisa avassaladora, única, inédita. Um sinal de que alguma coisa existe e que nela estou. Um espanto. Vida é o que há de inédito espantando uma outra camada de tudo. E esse compromisso só eu posso encarar.


O psiquiatra perguntou o que é que há, e eu desejei estar na consulta ginecológica que tinha feito dois dias antes em que o ginecologista me abriu e viu o que havia, depois pediu exames para continuar vendo.


Se eu pudesse levar o psiquiatra ao meu ateliê, talvez eu pudesse mostrar o que tem havido, através da expressão do meu corpo. Eis uma das grandes ofertas do teatro (das artes em geral, mas a arte do ator é especialmente parecida com um ser humano): dizer o que há com a gente; espantar-se com tamanho ineditismo. Artaud encarou esse compromisso.


Pegar essa coluna foi um dos atos desesperados envolvidos no meu processo de encarar a vida que reage em mim. Não importando o assunto, escrevo para encarar esse compromisso que só eu posso faltar. Se eu falto, não há. Eis um imenso farol sobre teatro: não se enganem com essa história de fazer junto. Cada um precisa desejar o compromisso que vai encarar. Dizendo assim parece coisa endurecida, imagina. O retorno por encarar esse compromisso deve ser aliviado como fazer xixi - breve e genial lapso de existência - experiência na qual, para a maioria das pessoas, a presença do outro só atrapalha! Compreende?


Bem vividos são os bichos quando mijam diante dos outros. Essa é uma das grandes ofertas do teatro. Mostrar o que há; espantar-se com tamanho ineditismo. Fonte de alimento para o coletivo, grande parte do trabalho no teatro é intensamente individual.


Mas o assunto calhou de se fazer Artaud dessa vez, porque uma pessoa muito doce me mandou um texto dizendo que era do Artaud, que queria colocar na minha coluna. Pediu anonimato e eu gosto dessas coisas.


Tentei conferir na internet a procedência do texto, porque fiquei particularmente confusa com ele. Seu conteúdo passou longe de tudo que já li dos inflamados textos do Artaud. Por outro, em cada frase pareceu pulsar uma vontade de desenhar, dançar, gritar, chorar, enfim, dizer outra coisa.


Querido Anônimo, Artaud encarou um compromisso gerador de vida, perceba, não tirando conclusões sobre a morte das coisas, mas espantando-se com a vida que reagia nele. Botava-se para fora para entender o fora! Abrindo caminho, sempre. Buscando o sol, sempre. Falava mal das coisas enquanto mostrava o próprio xixi! Eu não vi o xixi do Artaud nesse texto!


Fui procurar meu livrinho da Coleção Encontros da azougue: Nise da Silveira, organizado por Luiz Carlos Mello, e fiquei em dois pequenos depoimentos: um da Nise, outro do Artaud. Depois voltei ao Artaud-segundo-o-anônimo, e de novo à Nise, e novamente ao Artaud de Nise, e por fim disse pronto. Acabou. Não vou escrever mais nada.


Minha coluna será hoje uma exposição de 3 textos. Curadoria e grifos meus. Eles diante uns dos outros como estavam diante de mim, eu no meio deles diante de vocês. Tudo isso com seu poder enorme. Se estamos juntos buscando alguma coisa nesse exercício, não finja que é minha a sua busca. Espante-se você mesmo com o que precisa fazer aqui.





Antonin Artaud, 192?

[apócrifo]


Para se começar a pensar o que vai acontecer com o teatro – porque para a matéria se trata sempre de atos, à revelia do desejo dos projetos –, agora que enfim respiramos com menos máscaras, que a epidemia se enfraqueceu e os teatros da cidade quase todos reabriram, seria preciso reconhecer que a situação de calamidade em que a nossa arte se encontra também se explica pelo fato de que a gripe que nos arrebatou não tenha alcançado o vigor da peste.


Fiéis seguidores da Ciência, nunca nos esquecemos de que lidávamos com um vírus, de que havia uma cartilha de cuidados básicos de prevenção, de que os contágios aconteciam em situações reconhecíveis e que eles podiam ser medidos em números e controlados a depender do nível desses cuidados e dessas situações. Ainda que tivéssemos passado meses, que já quase esquecemos, sem saber mais que algumas hipóteses sobre a doença, concedemos nenhum ou quase nenhum espaço para o seu mistério, e aquela porção de mistério que mesmo assim conseguiu nos dominar foi imediatamente atacada sob a triste rubrica da saúde mental: neurose, depressão, ataque de pânico, sociofobias. Dessa forma, a sociedade afastou um perigo maior que a estatística das mortes, que não se mede em óbitos e que um dia, também quase esquecido, prometeu transformá-la para além de qualquer cálculo.


Por isso, é necessário também reconhecer que, a despeito de todos os ataques do presidente e de seus estúpidos lacaios, a Ciência venceu. A Ciência vence desde muito antes do primeiro mínimo devaneio de poder do nosso presidente assassinável. A negação do nosso líder institucional esteve e está em covardemente se esquivar de enfrentar o mistério que é a morte, que nos impele ao encontro uns dos outros com uma força inexaurível, e não em abraçá-la. A Ciência, se enfrenta o mistério, é apenas para minar qualquer chance de que sobreviva; para nos tornar, enfim, criaturas autossuficientes e, portanto, descartáveis. O que mais há de comum entre reacionários e cientistas é que ambos professam a nossa segurança e a nossa imunidade.


O teatro, por sua parte, não tem absolutamente a ver com a imunidade. Ao teatro, como ao amor e à vida, é fundamental aquilo que o discurso científico chama de obscurantismo e que todas as noites impede o presidente de dormir. É o que também poderia ter feito a peste, impulso de matéria enlouquecida, invisível e insondável, que insistimos em identificar com o Mal, ainda que fosse capaz de transtornar todas as nossas misérias. O teatro é o lugar onde a vida reage, porque ali não há mais nada além da exposição à morte, do risco de vida. O teatro mostra que existem coisas mais importantes do que morrer dormindo.


Como a Ciência venceu, e dessa vez sobretudo, e sobraram poucos que se importam com a angústia do mistério e muitos que apenas desejam o alívio de tudo que possa ser formulado e repetido, como uma boa piada, como uma piada inteligente, ao artista de teatro, a nós, que não somos bonitos, que não valemos dinheiro, que não queremos sair do país, não resta mais que reafirmar em atos e de um modo obstinado o mistério, o horror, o espanto, o impossível, o milagre. Ou então, se perguntar o que ainda estamos vivendo neste país ao qual insistimos pertencer e cujo nome, dito em voz alta, já nos enrubesce. Caso contrário, podemos saber que as portas das grandes emissoras, das grandes produtoras nacionais e internacionais e de toda publicidade, com a eterna notícia de novos auspiciosos investimentos e as promessas vãs da guerrilha cultural, estarão abertas para os testes infindáveis e para o grande funeral de parentes hipócritas do que um dia se ousou chamar teatro. Pois é a própria vida o que se perde quando se diz que é preciso viver também.


Artaud: um homem em busca de seu mito (Nise da Silveira) Publicada originalmente no livro Artaud, a nostalgia do mais, Númen, 1989


Há muitos anos, folheando ao acaso, numa livraria, antigas revistas de arte, encontrei numa delas (Cahiers d'Art, 1951) comentário sobre a pintura do surrealista Victor Brauner, com a citação destas palavras de Antonin Artaud: "O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos." Pareceu-me que Artaud se referia a certos acontecimentos terríveis que podem ocorrer na profundeza da psique, avassalando o ser inteiro. Descarrilhamentos e metamorfoses do corpo; perda dos limites da própria personalidade; estreitamentos angustiantes ou ampliações espantosas do espaço; caos, vazio; e muitas mais condições subjetivamente vividas que a pintura dos internados de Engenho de Dentro tornavam visíveis.


Decerto aquelas imagens revelavam perigosos estados do ser. Foi assim que a expressão de Artaud ficou sendo de uso corrente entre os pesquisadores do Museu de Imagens do Inconsciente do Rio de Janeiro. A psiquiatria descritiva não dispõe de definição tão exata para transmitir toda a dramaticidade dessas estranhas vivências. Limita-se a fazer a enumeração de sintomas "básicos" ou "acessórios" da esquizofrenia, como um rol de fenômenos mais ou menos indiferentes. A partir da trilha traçada por Bleuler, seguiu a psiquiatria interpretativa com adendos mais recentes e confusos de diversas escolas psicanalíticas, não bastante profundos para alcançar o âmago do ser. Ao contrário, Artaud conhece por experiência própria essas vivências e consegue exprimi-las com uma claridade incrível, levando-nos a concluir que tais sintomas não compõe uma doença, uma entidade nosográfica definida, mas se manifestam como estados múltiplos de desmembramento do ser. Impossível rotular Artaud.

Em carta a Jacques Rivière, datada de junho de 1923, ele se refere a "uma terrível doença do espírito. Meu pensamento me abandona (...) Palavras, formas de frases, direções internas do pensamento, reações simples do espírito, eu vivo na constante busca de meu ser intelectual". Mas escrevendo a Jean Palham, em outubro de 1945, mostra que atingiu conhecimento maior de si mesmo. Agora ele sabe que não sofre "de uma doença do cérebro ou do espírito, mas de um desmembramento interno do ser." Creio que antes de Artaud nunca alguém conseguiu, por meio de palavra, exprimir com tanta força essas dilacerantes vivências. Pela imagem, sim, que é a direta forma de expressão dos processos inconscientes profundos, muitos o fizeram, e fazem todos os dias, usando lápis e pincéis. Pela palavra, não. Pois a linguagem verbal é por excelência o instrumento do pensamento lógico, das elaborações do raciocínio. E essas experiências, às quais Artaud dá forma por meio de palavras, passam-se a mil léguas da esfera racional. [...]


Uma coisa é o observador, situado do lado de fora, registrar elementos que emergem aqui e acolá, originários de uma trama em desdobramento na escuridão do inconsciente. Outra coisa, completamente diferente, será vivenciar essa própria trama. Densa objetividade para quem as experimenta, essas estranhas vivências internas apresentam-se àqueles que estão do outro lado do muro como inconsistentes fantasias. Difícil como fosse, Artaud insistia, tinha necessidade premente de comunicação. "Eu desejaria fazer um Livro que perturbe os homens, que seja uma porta aberta e que os conduza aonde eles jamais haveriam consentido ir, uma porta simplesmente contígua com a realidade." Mas ninguém aceitava seu convite, ou, antes, preferia negar a existência de qualquer espécie de porta dando abertura para outras formas de realidade em planos desconhecidos. [...]


E ainda muitíssimos mais distantes de Artaud mantinham-se os psiquiatras dos hospitais onde esteve internado durante longos anos. Incompreensão daqueles de quem era natural que esperasse ajuda, foi atroz para Artaud. Seu revide está gravado na irrespondível carta aos médicos-chefes dos asilos de loucos. É um documento veemente, concentrado e de extraordinária dignidade. Nenhum técnico aí encontrará a mais leve fissura do pensamento. [...] Esta carta soa como o zunir de um chicote de fios de aço. Seja por omissão ou ação, nenhum de nós, psiquiatras, merecerá escapar com a face ilesa.




Carta aos médicos-chefes dos manicômios

Publicada originalmente no livro Escritos de Antonin Artaud, tradução de Cláudio Willer, LP&M, 1983


Senhores,

As leis e costumes vos concedem o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e terrível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredito. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras?


Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto nos rebelamos contra o direito concedido a homens - limitados ou não - de sacramentar com o encarceramento perpétuo suas investigações no domínio do espírito. E que encarceramento! Sabe-se - não se sabe o suficiente - que os hospícios, longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma mão-de-obra gratuita e cômoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra.


Não levantaremos aqui a questão das internações arbitrárias para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra sequência de ideias e atos humanos. A repressão dos atos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem.


Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e de todos os atos que dela decorrem. Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando tentarem conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm superioridade da força.


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