Emily Brontë e a vida como experiência radical

Atualizado: Set 14

de Italo Diblasi



Emily Brontë por Patrick Branwell Brontë © National Portrait Gallery, Londres



Há algum tempo fui acometido pela ideia um pouco reducionista de agrupar, ou melhor, distinguir certas trajetórias humanas em dois grupos pautados pelos modelos de dois tipos de estrelas: as Anãs Brancas e as Gigantes Vermelhas, astros que cada qual à sua maneira deslizam pelo universo equilibrando, no tempo, massa e dissipação, rumo a um inevitável fim. É claro que se trata de um exercício lúdico e, de certa forma, irresponsável, já que a vida seria (e é) muito mais complexa do que isso. Ainda assim, há algo nesta brincadeira que parece ilustrar um ponto preciso se desejamos pensar a vida dos seres humanos em termos de intensidade.


Em linhas gerais, as Anãs Brancas e as Gigantes Vermelhas são duas fases pelas quais as estrelas podem passar em seu processo de existir. O ponto que distingue estas fases é a massa inicial destes corpos, e a velocidade com a qual é queimada a energia ali concentrada. As Anãs Brancas apresentam um longo processo de dissipação de massa no espaço antes de seu colapso final. Estima-se que 98% das estrelas existentes evoluam até esta fase. Aquelas que não o fazem, permanecem Gigantes Vermelhas, devoram a si próprias num processo consecutivo de “queima desequilibrada” que expande a massa a tal ponto que é impossível manter o núcleo. A vida destas estrelas se torna um terrível espetáculo análogo a um incêndio: uma nebulosa.


Imagino que seja possível entender aonde quero chegar com isto, e se for possível levar a brincadeira adiante, gostaria de pensar brevemente o caso de uma Gigante Vermelha que habitou a terra e que conhecemos pelo nome Emily Brontë, cuja obra, curta e decisiva, nos apresenta uma visão assombrosa da vida e do amor. Ou melhor: do binômio eros/tânatos.


Durou trinta anos a sua vida, de 1818 a 1848. Por um desses acasos bonitos, nasceu no mesmo verão em que Byron, Percy e Mary Shelley se refugiaram juntos na Villa Diodati para escrever; e morreu no ano da Primavera dos Povos. Foi a quinta de seis crianças da família Brontë. Das seis, duas morreriam ainda na infância, e três se tornaram escritoras, Emily entre elas. Das três irmãs escritoras é aquela de quem menos se tem informações, sendo considerada reclusa e introspectiva. A propósito disso, sua irmã Charlotte escreveu que evitava a conversa, as discussões, e que observava muito, tornando-se uma espécie de colecionadora de costumes, gestos, expressões. Como ocorre a certas sensibilidades, refugia-se na escrita, terreno em que vai demonstrar profundo conhecimento dos dilemas humanos. Se aquilo a que chamamos “alma” tivesse um corpo, Emily seria precisamente uma anatomista.


Dos vinte anos para a frente o corpo frágil começa a dar sinais de dificuldade, e Emily é negligente. Recusa-se a cumprir ordens médicas e tende a se fechar ainda mais. De certa forma, entrega suas chances à sorte. É como se vivesse outra vida dentro de si, conforme um de seus biógrafos relatou. Começa a dar aulas em uma escola mas precisa parar graças à fragilidade que lhe acomete. Escreve durante todo este período e um ano antes de sua morte, em 1847, publica O Morro dos Ventos Uivantes sob o pseudônimo de um homem.


Esta se tornaria sua grande obra, e é sobre ela que nos debruçaremos. Quando morre, um ano depois, deixa também uma coletânea de poemas, que apresenta uma visão passional e fatalista da vida e da natureza.


O cenário de O Morro dos Ventos Uivantes tanto poderia ser aquele do mais belo sonho quanto do pior dos pesadelos. Wuthering Heights, a propriedade que dá nome ao livro, é uma casa grande, típica da aristocracia inglesa, localizada numa área montanhesca do campo, atravessada por ventos fortíssimos que cantam sobre as janelas suas melodias furiosas. A região, frequentada por tempestades, é dotada de extrema beleza natural, com campos vastos e verdes, declives e paisagens por onde os ventos corriam e que certamente povoavam o imaginário romântico de Emily. Tão livres quanto o vento, corriam os cavalos, os animais silvestres e os dois personagens principais da trama durante toda a infância: Catherine e Heathcliff.


O drama todo se desenrola quando, numa viagem a Liverpool, o pai de Catherine e Hindley encontra um menino perdido e o traz para casa, para Wuthering Heights, onde decide criá-lo como a um filho, e por quem tem um carinho quase inexplicável, que desperta ciúmes em vários habitantes da casa, sobretudo em Hindley, mas não em Catherine, que demonstra interesse genuíno por aquela alteridade. Este menino é Heathcliff, que é logo identificado como uma criança cigana, graças as suas características físicas. Ao longo do livro ele é também colocado como um demônio que foi trazido ao seio de Wuthering Heights para causar a destruição da família, fato que diz muito sobre a escrita e o imaginário de Emily, assombrado por figuras arquetípicas das narrativas “sobrenaturais”. Entretanto, é preciso afirmar desde já que este elemento ocupa um espaço muito mais simbólico do que literal em sua obra.


Catherine e Heathcliff desenvolvem, ao longo de toda a infância e juventude, uma relação poderosa de cumplicidade que logo se revelará um amor clássico, eros propriamente dito. Nesta que é, certamente, a parte mais bonita do livro, Emily narra a formação deste amor, que cresce livremente, sem interferências externas, como uma aventura que se desenrola em todo o cenário campestre das montanhas, entre chuvas e cavalos, e na qual as subjetividades de ambos vão se formando juntas, inseparáveis. Desde aqui, Emily opõe a natureza desta relação à maneira pela qual a formação dos sujeitos se dava na Inglaterra daquele período, a Inglaterra Vitoriana, operada por códigos sociais estritos, cheio de interditos, sobretudo no que diz respeito à criação de meninos e meninas, homens e mulheres. Sob o olhar condescendente do pai da família, que é um “chefe” atípico, a relação de Catherine e Heathcliff se dá sob o signo do selvagem, alheia às amarras sociais que ditavam o modo de vida aristocrático. Se for possível falar nestes termos, Emily narra, neste momento, a fundação de duas almas livres, que compartilham tal condição como um segredo. Um segredo sempre prestes a se perder (não seria exatamente isto o amor?). Não à toa, é justamente este fato que virá engendrar todo o drama da história, o momento decisivo em que – no processo de passagem da infância/juventude à vida adulta – as normais sociais atravessam violentamente a relação dos dois. É nesta simples e decisiva cisão que a escrita radical de Emily Brontë se funda.


Com a morte do pai, o irmão de Catherine assume a chefia da casa e Heathcliff logo passa da condição de filho a de empregado. É constantemente humilhado a partir de então, e vemos Hindley fazer valer seu ressentimento com relação ao “bastardo” e sua irmã, que vai sendo pouco a pouco afastada de Heathcliff. Neste momento, a violenta carga institucional começa a operar sobre os dois: moral, religião, casamento, classe. É claro que tais proibições funcionam, a princípio, como combustível da relação: o corte que se opera alimenta ainda mais o encontro, visto que faz emergir a falta, e os dois passam a se procurar escondidos. A cena mais simbólica a este respeito talvez seja aquela em que ambos são flagrados trancados dentro de um armário. É também aqui que Catherine começa a manifestar suas violentas febres, acessos de raiva e fragilidade do corpo, que começa a definhar, como se antecipasse o destino de sua própria criadora.


O golpe de misericórdia se dá quando as normas vencem a relação através do casamento arranjado para Catherine com um vizinho de posses, casamento que Catherine aceita – o que acende um debate sobre escolha, arbítrio: até que ponto foi livre para decidir? Cansado das sucessivas humilhações e irado por aquilo que considera uma traição de Catherine, Heathcliff vai embora de Wuthering Heights, punindo Catherine com sua ausência, dilacerando-a, privando a personagem de tudo aquilo que haviam construído: o amor, fato que acelera ainda mais seu processo de definhamento físico-emocional.


Quando muitos anos depois Heathcliff retorna a Wuthering Heights, ele o faz sob o signo da vingança, marcando a passagem de um possível herói da história ao anti-herói clássico. Aqui, não seria exagero afirmar que Heathcliff é construído como um contra-odisseu, cujo retorno não aponta para a redenção do lar, mas à destruição de tudo aquilo que forçou seu périplo. O Heathcliff que retorna é um cavalheiro que fez fortuna e galgou posição social, respeito. É claro que tudo isso resguarda uma hipocrisia – que interessa a Emily discutir – pois no cerne do personagem encontra-se o verme esfarrapado, o desdém pelos códigos da sociedade que lhe tirou tudo o que tinha, e o amor por Catherine, que longe de morrer, se nutriu ainda mais em toda ausência.


Catherine, da mesma forma, desempenhou o papel que lhe era esperado, como mulher e esposa, mas guardou dentro de si a chama daquele pequeno paraíso perdido. Quando o reencontro se dá, o corpo de Catherine subitamente ganha vida novamente (sua saúde se debilitava cada vez mais e vertiginosamente), o que força, inclusive, a aceitação do marido quanto ao reencontro dos dois. Heathcliff poderia manter Catherine viva, impedindo sua derrocada iminente. Aqui, o casamento, esta instituição tão poderosa naquela sociedade, se dobra ao amor genuíno de Catherine e Heathcliff, ao menos por um momento. Mas a tragédia já está montada, a cisão do campo social sobre este amor foi imposta, e a vingança de Heathcliff não aceitaria menos que tudo. Agora rico, transformado no tipo de homem que seria necessário ser para tê-la, quer a fuga de Catherine, o retorno ao amor original dos dois. Heathcliff quer restaurar o paraíso perdido, o único retorno que verdadeiramente lhe interessa. Quer que Catherine abandone o lar, aquele lar impuro, imposto. Neste processo, tortura todos ao seu redor e a si mesmo. O amor como doença, sua estreita relação com a morte, é o que Emily Brontë nos apresenta aqui.


Catherine se vê confusa, dividida entre a mulher que se tornou e a amante que era, tem o corpo no mundo e o coração em Heathcliff, e não consegue decidir. “He is more myself than I am”, chega a dizer para a serva, quando confessa que o ama, que sempre o amou, e que suas almas são a mesma. Lamenta-se, se enfurece, vive de febre e ressentimento – vê sua vida atravessada por forças que lhe são impostas: é uma mulher inglesa do século XIX, a mulher que Emily Brontë também foi. Deseja acima de tudo o retorno a uma Wuthering Heights que se perdeu, deseja restaurar um estado de liberdade no qual o amor fez ninho, mas já não pode.


Wuthering Heights se torna, então, palco de desolação. Tudo começa a se destruir (até a casa!), todos os personagens se perdem, a vingança de Heathcliff consome a todos. Emily desenha a punição completa da família, o retorno implacável do amor selvagem que foi tolhido e passa a dilacerar aquele microcosmo do campo social. É o eros terrível em Emily Brontë. O desejo de Heathcliff e Catherine faz a passagem extenuante do menos que tudo ao menos que nada, completando a tragédia: o corpo de Catherine não resiste e morre. O de Heathcliff permanece, mas sua alma está morta, e ele passa a habitar a escuridão, envenenado e assolado por fantasmas. Wuthering Heights se torna uma ruína viva: nada fica de pé.


É esta a vida como experiência radical que Emily nos apresenta, a afirmação do amor como valor constitutivo central, que não admite ser interpolado pelo socius e tem na morte sua apoteose. Em plena Inglaterra Vitoriana, Emily Brontë é a escritora que vem pensar a liberdade frente aos códigos sociais, a liberdade extrema, construída sobre o mais férreo dos sentimentos: eros.


Certa vez ouvi uma poeta falar que a vida é breve, e o amor mais breve ainda. Não é que a constatação não faça sentido (aliás, o sentido é aterrador), mas pensei imediatamente no Morro dos Ventos Uivantes, em que Emily Brontë dobra essa afirmação contra si própria, de maneira que a brevidade (do amor, sobretudo) não é apenas insuportável, mas impossível. O limite se desenha na morte de Catherine, que definha por amor, recusando a vida, desistindo dela. A fraqueza do seu corpo é o signo que vem afirmar essa desistência de uma vida em que o amor não pode se efetivar. Daí a dobra, a vida se efetua breve, vai de encontro à brevidade, conservando o amor: seu pathos. Brontë, em sua radicalidade, constrói isso na figura do fantasma de Cathy, que volta para assombrar o amado, sua maneira de amá-lo, enfim. Não é à toa que Bataille considera essa história, em A literatura e o mal, a mais radical história de amor da literatura ocidental. Em Emily Brontë o amor é maior que a vida...

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