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Desculpa qualquer coisa

por Juliana Thiré de Negreiros




Entrevistada por Lucas Nogueira



Hoje não tem vigor. Tem ansiolítico. Repouso para os comediantes. Retiro para os artistas. Um sonho bonito, amarelo e morno. Dois cartazes lado a lado servindo livros no chão na porta de um shopping: um da igreja universal e outro de uma ocupação de teatro (cacilda becker) achadas no lixo, provavelmente convivendo muito bem. Um corpo de 30 toneladas tirando uma soneca profunda. Inspirando em “ins”, expirando em “ex”. Cantarolando lento no chuveiro. Marcando uma consulta médica com dificuldade. Massageando os músculos das próprias mãos. Ignorando o whatsapp. Molhando a boca com água potável. Fazendo carinho na pedra brilhante. Ingressos à venda para assistir alguém chorando durante uma hora. Barulho de chuva e papelão para o frio. Desistências em sequência. Pedidos de qualquer coisa. Cigarro, moeda, ouvidos, um gole de coca, um pedaço de pastel mole, um pacote de bala. Pelo menos o cigarro pra enganar o resto. O manjericão crescido, bonito, cheiroso, verdinho. Uma ligação de telefone. A vassoura arrastando no chão pela primeira vez. Conversa de poeira para poeira. Cheiro de cera líquida. As canções do Paulinho que ele não mostra por vergonha. A luminária quebrada. O dedo na tela. A professora falando. Os olhos nos olhos. A estante marrom. O pano preto. Pano preto. Pano preto. Pano preto. O verso escrito no fundo do cinzeiro. Meu tio sozinho num sítio interior. Longe do papaizinho. Grávida de trigêmeos, mãe de outros dois casais de gêmeos, na Glória, paz do senhor, abrindo um sorriso. Vá atrás do seu karatê. Esqueça o teatro. Não me pergunte por quê eu ainda estou nisso. Todo mundo que conheço desistiu disso, de alguma forma. Conto nos dedos de uma mão quem não desistiu de forma alguma. Não quero escrever a coluna hoje, Flavinho. Quero comer um mamão docinho e visitar a minha avó. Se eu te contar que esse mês fiquei tonta com Laila Garin fazendo um texto da Clarice Lispector num teatro gigante, que o som estava estridente, que não dava pra ouvir nenhuma frase inteira e mesmo assim foi a coisa mais bonita que vi nos últimos tempos. E que, na semana seguinte, estávamos gravando juntas num cemitério, o câmera fazendo parkour pelos túmulos. Que eu descobri que ter a cabeça toda mordida no sexo é bem excitante. Que estrearemos uma peça daqui duas semanas sem fazer a menor ideia do que vamos apresentar, você viria? Se for muito ruim, você estará comigo? Coragem meu amor, o nome. Estreia 13 de maio. Av. Henrique Valadares 141, 301 - Centro, Rio de Janeiro. Precisamos de fusíveis, banquetas, cabos XLR, braçadeiras de metal de uma polegada. Uma lista longa. Ontem montei a apresentação de teatro de algumas crianças. O tema é “mudança”. Elas ficam mudando de casaco, de cabelo, de sapato, de postura, de posição, de jeito de andar, de figura, esculpindo, esboçando diferentes personagens ali na hora, pesquisando diante dos olhos. No fundo, uma música misteriosa. Atrás do INCA uma floresta crescendo. Podia virar um parque, uma praça, uma horta comunitária, um teatro. Colocamos uma cortina nova, de veludo, no desterro. Veio curta. Eu tenho tentado honrar meus compromissos da maneira que dá. Agora é o interfone que tá ruim. Eu já acho graça de tudo que tem dado errado. De alguma forma, vida é erro. Coloquei 10 anjos no meio do meu trauma e já sinto raiva de todos eles - foi o que eu disse pra minha professora. Anjos. São anjos meus parceiros de vida. Nunca me senti tão feliz com a chegada de uma estreia. Ninguém mais aguenta ensaiar esse trabalho. Queremos mais saúde. Uhul!!!! Yeah!!!!! Saúde!!!!


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