Agora eu era o rei

Atualizado: Set 14

por Julia de Souza




John e as irmãs



Escrevo esse texto sobretudo de forma retroativa. Durante os dez anos da demência do meu pai — com exceção dos últimos dias, em que ele ficou hospitalizado antes de voltar à casa de repouso onde morreu — não fiz qualquer anotação organizada sobre seus sintomas, as situações que eles provocavam, ou minha reação sentimental diante dessa perda lenta e progressiva.

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IDENTIFICAÇÃO


Assistíamos televisão, eu e ele. Algum canal de notícias mostrava imagens recentes do jogador Maradona. Meu pai deu risada, apontou para a tevê e disse: “olha lá, o Barack Obama!” O mesmo aconteceu em duas ocasiões em que o jardineiro — um homem branco, baixo, gordinho e de bigode — trabalhava no quintal. “Olha lá, o Barack Obama.” E ele ria, e eu também ria, embora tentasse dissuadi-lo com delicadeza de seu engano. Creio que sua obsessão com Obama surgiu durante a campanha presidencial e o início do primeiro mandato do presidente americano, período em que os noticiários internacionais, dos quais meu pai era um espectador inveterado, não se cansavam de multiplicar a figura do democrata. Me pergunto o quanto sua fixação por Obama estava ligada, mesmo que inconscientemente, à importância simbólica e ao impacto de os Estados Unidos elegerem seu primeiro presidente negro, ou se era mero efeito derivativo da excessiva veiculação de sua imagem na televisão.



HOSPITAL I


Depois de um infarto, passou por uma grande cirurgia no coração. Quando saiu da UTI e foi para o quarto, apresentou pela primeira vez sinais de desorientação mais grave. Perguntamos se sabia onde estava. “No hospital”. E em que cidade? Não soube dizer se estávamos na Inglaterra ou no Brasil.

Ao acordar numa manhã, contou ter visto uma mulher muito bonita num vestido branco, que veio à noite. Disse que era sua mãe.



LÍNGUA


John começou a perder o português, língua que aprendera à perfeição em seus mais de cinquenta anos vivendo no Brasil. Contava ter chegado aqui aos dezoito anos decidido a se apropriar do idioma, e o fez com tanto afinco que conhecia a fundo nossa gramática e falava sem qualquer sotaque. Muito raramente se confundia com o gênero de algum substantivo. Sempre teve uma ligação vital com o conhecimento — sobretudo das línguas, da história, da ciência. Tinha um temperamento algo iluminista, e nossos jantares em família eram muitas vezes interrompidos por consultas à Encyclopedia Britannica. Em meus anos escolares, me ajudava com as lições de gramática e se debatia para tentar infundir-me algum entendimento da matemática e da física, disciplinas para as quais nunca tive qualquer aptidão.

Antes que o português começasse a se esvair, já acusava certas mudanças em seu vocabulário. Dava mostras de não possuir mais o pudor ou o escrúpulo que sempre lhe foram característicos, e passou, de quando em quando, a usar palavras ou expressões chulas, que antes ele calaria.

Percebemos que estava esquecendo o português quando começou a responder a algumas perguntas em inglês. Durante algum tempo, ele se comunicou alternadamente nas duas línguas, e talvez então ainda não tivéssemos a clareza de que, numa ou noutra, sua sintaxe e vocabulário se empobreciam.

Nessa oscilação entre língua materna e língua adquirida (e predominante em seu ambiente), chegou a fundi-las, criando vocábulos de natureza mista. Forjou, por exemplo, o verbo “peear” — que conjuga o verbo inglês “to pee” (fazer xixi) com a terminação verbal “ar”, do infinitivo português. “Preciso peear”, dizia, quando se levantava da poltrona enquanto assistíamos TV.



FRIO


Quando deixou de conseguir ler com fluência, passava muito tempo folheando revistas e livros de fotografia. Sua imensa coleção da National Geographic americana saiu enfim do fundo do armário. Um dia, depois do jantar, olhávamos juntos uma edição que trazia fotos do Polo Norte. Meu amigo P. tinha vindo jantar, e meu pai parecia querer se exibir de alguma forma. Disse: “eu já fui ao Polo Norte. Não faz tanto frio.” Senti que ele estava convicto dessa informação falsa de sua biografia. Ou talvez estivesse livre das reservas morais que freiam nosso impulso de mentir.

A fantasia de ter ido ao Polo Norte me faz lembrar agora de outra história, que ele sempre contou, sobre seu avô paterno, que sonhava em ver a Aurora Boreal, mas morreu durante a viagem, antes de chegar à Finlândia.

Penso nas viagens que meu pai gostaria de ter feito e não fez. Penso na vontade que ele tinha de voltar a viver na Inglaterra.



BOLSO DA CAMISA


No bolso de sua camisa — para ele uma camisa sem bolso era algo inútil — J. levava sempre uma caneta-lapiseira, um lenço de pano e um pequeno pente.

Sua memória, sobretudo para nomes de pessoas, nunca foi muito boa. Lembro de em algumas ocasiões encontrarmos por acaso algum conhecido seu, e ele me perguntar, aflito, “como se chama mesmo esse aí?”, e até mesmo de se desviar de pessoas comentando comigo “não quero que me veja, sei que eu conheço mas não faço ideia de onde e nem do seu nome.”

Talvez por isso tenha sido difícil identificar o início da doença. Meu pai sempre foi velho, até mesmo para minha mãe: quando se conheceram, ela tinha 25 e ele 55.

Quando ele percebeu que sua memória estava falhando mais do que de costume, incluiu no bolso, entre os objetos de sempre, um pedaço de papel, pequeno mas comprido, com informações manuscritas: números de telefone, endereços, datas importantes, senhas. Tomamos isso como um movimento natural, afinal ele estava mesmo envelhecendo, era normal que a memória piorasse e muito saudável que ele se prevenisse com as anotações. (Sempre se negou a ter um telefone celular. Não por inaptidão à tecnologia, muito pelo contrário — era assíduo consumidor dos dispositivos fotográficos mais recentes e usava a internet com muita facilidade — mas porque, segundo ele, o aparelho tolheria sua liberdade.)



RITMO


O contato com o mundo se transforma radicalmente à medida que a linguagem oral e escrita minguam. Os gestos ganham importância, as expressões do rosto se amplificam e tendem às caretas.

Pouco a pouco, J. ia perdendo o interesse pelos noticiários — não conseguia mais absorver a verborragia, a rapidez e o excesso de informações da mídia.

Mas sua relação com a música não apenas se mantinha, como se tornava mais intensa. Passava muito tempo assistindo dvds musicais — concertos, documentários, shows, óperas — e seus pés invariavelmente marcavam o ritmo com muita precisão. Às vezes fechava os olhos, balançava a cabeça e parecia esquecer das coisas do mundo e se lançar numa fruição plena do presente contínuo da música.



VELOCIDADE


Sonho que ele dirige o automóvel na estrada em alta velocidade, como costumava fazer. Era um motorista habilidoso e se gabava disso. Nas viagens em família para a praia, quando nos dividíamos em dois carros, eu sempre escolhia ir com ele, e me segurava no banco num misto de gozo e pavor com a corrida.

Quando foi proibido de dirigir — era preciso esconder as chaves do carro — sentiu grande revolta. Passava muito tempo esbravejando, aos berros, dentro do carro que volta e meia ficava aberto dentro da garagem.



MEMÓRIA


Quando se aposentou da universidade, começou uma nova empreitada: construir uma árvore genealógica de sua família — nascido na Inglaterra, sua família materna era inglesa, mas a de seu pai anglo-portuguesa, e daí o meu nome tão brasileiro.

Passava dias inteiros na frente do computador, consultando sites de pesquisa genealógica e se correspondendo com parentes próximos ou distantes em busca de pistas que o levavam para um tempo cada vez mais distante. Viajou a Portugal para encontrar parentes e especialistas com a intenção de trocar informações sobre suas linhagens. Desenvolveu um método de registro no Excell que permitia a expansão infinita dos ramos da árvore: uma espécie de topografia dos múltiplos caminhos que levam a um passado sem fim.

Em certo momento, talvez sentindo que a busca se esgarçava — chegou a comentar que sua árvore chegara a Carlos Magno —, passou à pesquisa iconográfica. Ilustrava o mapa com imagens dos supostos antepassados encontradas na internet: Rainha Fredegunda, Dom Afonso III, Duquesa da Borgonha. Imprimia as imagens na impressora de casa e mandava enquadrá-las em molduras ornamentadas, como se quisesse realçar o caráter passadista daqueles pequenos quadros. O resultado foi quase uma centena de quadrinhos que ele pregava inadvertidamente por toda a casa. Um dia entrei no meu quarto e lá estava Branca de Castela, vestindo um manto violeta. A luta por fabricar sua filiação com a realeza europeia talvez denunciasse não só as tendências aristocráticas que manteve, discretamente, por toda a vida, mas também uma tentativa desesperada de expressar a amplitude e a riqueza de sua própria trajetória — assim como são ricas todas as existências vividas com desejo e persistência.

Em seu esforço delirante, ao encher a casa com imagens do passado, meu pai confiava à solidez das paredes uma memória que, inventada ou não, intuía estar prestes a perder.


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