Edgar Allan Poe e a infinita dignidade

Atualizado: Set 14

por Italo Diblasi


No aforismo 223 do Humano, demasiado humano, Nietzsche afirmou que “talvez nunca se tenha visto a arte com tanta alma e profundidade como agora, quando o sortilégio da morte parece brincar à sua porta”, e que “não devemos atormentar um poeta com uma sutil exegese, mas alegrar-nos com a incerteza de seu horizonte, como se o caminho para vários pensamentos ainda estivesse aberto”. Trinta anos antes da publicação deste livro, morria, em Baltimore, depois de meses (para não falar dos anos…) perambulando entre cidades da costa leste dos EUA, escrevendo em sótãos, tavernas e jardins, assolado pelo álcool, o ópio, a morfina, a perda da companheira Virginia para a tuberculose, e a constante falta de recursos financeiros, Edgar Allan Poe, que havia dedicado seu último manuscrito “aos que sentem, mais do que pensam; aos sonhadores e aqueles que confiam nos sonhos como as únicas realidades”.

Quis escrever sobre Poe menos por achar que havia algo de realmente novo a dizer sobre ele (tanto já foi dito, e tão bem) e mais por sentir que havia algo, ainda, que não ficou suficientemente ressaltado, sobretudo no que diz respeito ao Poeta Poe e sua postura diante de uma vida plenamente desventurada, essa vida mulamba que em alguma medida é a de todos nós. Chamei esta lacuna de “a infinita dignidade”, mas poderia muito bem ter chamado de “a coragem absoluta”.


Edgar Allan Poe, que havia dedicado seu último manuscrito “aos que sentem, mais do que pensam; aos sonhadores e aqueles que confiam nos sonhos como as únicas realidades”.

Jorge Luis Borges, como não poderia deixar de ser, escreveu sobre a vida de Poe (a quem definiu, precisamente, como “aquele em quem o sonho se exacerbou em pesadelo”) o seguinte: “Poe foi um homem infeliz, ao que se sabe. Morreu aos 40 anos, entregue ao vício do alcoolismo, à melancolia e à neurose; basta-nos saber que Poe foi um homem muito infeliz e predestinado à desgraça”. Afora o fatalismo típico de Borges e sua inclinação quase incoerente à fé nos desígnios do destino, a síntese da vida de Poe não carece de verdade. Aqui vão alguns dados.

Aos três anos de idade já era órfão de pai e mãe. Adotado quase que por pena, perde a segunda mãe no início da vida adulta e é deserdado pelo pai adotivo. Perde o primeiro amor para a tuberculose (como tornaria a perder Virginia, no fim da vida) e tem o segundo sabotado pelo pai da moça. A escrita começa a aparecer no meio destes infortúnios. Escreve os primeiros poemas entre os 14 e os 15 anos, e o tema destas perdas aparecerá em quase toda a sua obra, sobretudo a poética. No poema Alone, um de seus mais fortes, diz: “tudo o que amei, amei sozinho”, e a própria temática de O Corvo, seu poema mais célebre, se constrói sobre a perda do amor.

A paixão pela leitura, como não poderia deixar de ser, também desperta neste período. Nutre-se da literatura, do Quixote a Byron, a quem, segundo seu principal biógrafo, amava com deslumbramento. Passa os dias da primeira juventude trancado entre livros, o que desagradava o pai, ou perambulando nas docas da cidade, observando o fluxo de navios e homens do mar. Nada se pode concluir a respeito da qualidade de sua solidão, mas sabemos que se tratava de uma condição quase absoluta neste período da vida. É certo que frequentou colégios e, ávido por saber, aprende latim e um pouco de grego. Lê os poetas clássicos da antiguidade e a literatura medieval. Vai à Universidade, onde estuda línguas, mais uma vez contrariando o pai, que queria uma carreira mais nobre. É deste período a aproximação vertiginosa com o álcool e o jogo. Deixa dívidas estratosféricas nas tavernas universitárias, e protagoniza os primeiros episódios de embriaguez destrutiva. É forçado a sair da Universidade e rompe relações com o pai.


Sem dinheiro e com pouca perspectiva, foge da casa paterna. Viaja a outras cidades tentando se estabelecer. Fixa-se em Boston. Busca apoio em parentes distantes, o que se revela pouco efetivo, e vive de pequenos trabalhos. A escrita, por outro lado, prolifera. Escreve poemas, que começa a reunir numa primeira tentativa de livro. O desespero e a inclinação ao álcool também crescem com o tempo, o que se dará por toda sua breve vida. Com a total falta de horizonte material, chega a entrar para o exército, onde ocupa cargo burocrático, buscando alguma estabilidade. A remuneração é baixa, mas suas necessidades também. Resumem-se a poucas roupas, livros e o suficiente para comer e beber. Refugia-se do mundo para lutar consigo mesmo e seguir escrevendo. Publica o primeiro livro, Tamerlane e outros poemas, e muda-se para Baltimore, abandonando o exército.


Ilustração: Beatriz Cajé


Nos anos que se seguem tenta, mais de uma vez, abster-se da bebida e de outras drogas, como o ópio e o láudano. A relação com estas substâncias permanece uma batalha até o fim, com períodos alternados de radicalidade e descanso. Busca trabalho e, eventualmente, consegue. Torna-se redator de algumas revistas, e depois crítico literário. A princípio estas atividades não lhe garantem um conforto financeiro, e chega a viver calculando um gasto diário de 33 centavos de dólar. Além da poesia, começa a escrever contos, que não raramente são bem recebidos e publicados em jornais. Cria, a partir daqui, o gênero policial, que se tornaria extremamente popular nas décadas seguintes, como o é até hoje.


A década final de sua vida é marcada pela radicalidade. Por um lado, começa a ganhar notoriedade, sobretudo com os contos e os textos críticos, mas também com poemas, em especial O Corvo. Por outro, quanto mais é reconhecido, mais busca um afastamento acentuado dos círculos sociais, das sociedades literárias, que outrora almejara, e mais se repetem as cenas protagonizadas pela embriaguez: passa noites rodando a cidade, falando sozinho, dorme na rua e desdenha do prestígio. Curiosamente, estabelece uma amizade com Charles Dickens, que tem início na admiração mútua da escrita e se torna uma troca profícua a respeito da vida e seus labirintos.


O desfecho fatal de sua vida breve é amplamente conhecido e triste. Quero ressaltar, ao invés, aquilo que a torna, me parece, excepcional. Em primeiro lugar, uma vida de escrita e leitura (ou seria o contrário?). Uma vida vivida com paixão. A despeito da radicalidade que dá o tom de seus últimos anos, encaminha vorazmente aquilo que se tornaria sua obra, incluindo as coletâneas de contos, alguns poemas – não muitos, mas significativos – e meia dúzia de ensaios. Além disso, a maneira como suas paixões mais verdadeiras se tornaram o diapasão de sua existência, guiando-a, torna-o uma espécie de arquétipo de poeta, que poucos anos após sua morte viria a reverberar com força na Europa, sobretudo na França de Baudelaire e Mallarmé.


Foi, sem dúvida alguma, um corpo indócil. Uma existência que não se deixou capturar pelas lógicas estruturais da sociedade em que estava inserida. Em nenhum momento se resigna. Não se deixa aburguesar, mesmo quando o reconhecimento bate à porta. Ao invés, radicaliza a aversão aos salões literários da puritana América de seu tempo. E aqui, fundamentalmente, aquilo que me parece a característica mais bonita de sua vida, que se resume na seguinte tese: o romantismo de Poe, sua postura diante da vida, afronta verticalmente a estrutura social burguesa norte-americana da primeira metade do século XIX. Não me parece exagero afirmar que se tratava de um poeta romântico anticapitalista. O terror, tão marcante em sua obra, não deixa de refletir o pensamento da época, a combinação capitalista-puritana que reproduziu tantos fantasmas na sociedade e na literatura dos EUA. “América, porque suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?”, questiona Ginsberg, mais de um século depois, na esteira desta mesma questão.


Edgar Allan Poe foi o corvo entre as águias. Opôs-se severamente ao produtivismo ético americano. Perseguiu a beleza mesmo dentro do pesadelo. Viveu a partir do que acreditava, e seu legado é estrondoso. Há um gesto em Poe que é poético, estético, mesmo em seu aspecto mais decadente. Acredito que seja este gesto aquilo que é propriamente histórico, que faz transcender a existência individual, situando-o numa estranha espécie de eternidade, e é este gesto o que quero saudar.

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