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A água é uma máquina do tempo, de Aline Motta


seleção de poemas por Flávio Morgado


(Outros) Fundamentos, vídeo e série de fotografias, 2017/2019.

Foto: Aline Motta/Divulgação



No último mês foi lançado o livro "A água é uma máquina do tempo" de Aline Motta, pelo Círculo de Poemas (Luna Parque/Fósforo). Por ser um dos melhores livros que li nos últimos meses, separei aqui alguns de seus poemas e a orelha do livro, escrita pelo poeta Ricardo Aleixo, para que possam conhecer.



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Impactado pelo livro-objeto "Escravos de Jó", de Aline Motta, escrevi em outro contexto que é notável, na obra dessa artista de rara inventividade, "sua vocação para o tensionamento do jogo entre palavra e imagem". Também apontei o que me pareceu ser a grande proeza linguageira da Aline: a instauração de "um delicado e ao mesmo tempo vertiginoso ambiente intermídia que exige, para total fruição do processo de transformação de uma cantiga infantil em contranarrativa sobre o escravismo brasileiro, o pleno envolvimento do olhar e do toque."


Este novo livro da artista-escritora mostra o quanto se requalificou o seu estoque de recursos gráficos-visuais e textuais. A trilha de investigação que ela segue, pessoalíssima, reafirma vínculos com o cinema e a fotografia (e, em certa medida, com a "prosa icônica", modalidade que tem entre nós, como nome de ponta, Valêncio Xavier) para tentar narrar algumas das muitas histórias mal contadas acerca da experiência negra no Brasil escravagista do século XIX.


Num bordejo intersemiótico e trans-histórico, entrecruzam-se imagens e textos de arquivo, visada sociológica, trabalho de luto pela morte da mãe e fragmentos de memória pessoal reimaginada. No afã de dar corpo a esse "tentar narrar" o talvez inenarrável - as lacunas, fendas, dobras, os invisíveis liames, os desvãos da história -, Aline nos oferta uma obra que, em suas palavras, resulta de um processo de criação tão obsessivo e extenuante que pode ser definido como uma espécie de "possessão".


Sorte a nossa que a artista - e dublê de "cavalo" de sabe-se lá quais e quantas vozes - evidencie, a cada novo trabalho, os motivos pelos quais é crescente o número dos/as que consideram sua presença na arte brasileira de agora um acontecimento digno de registro, recepção sensível e admiração. "Vos desejo", como grafou Bispo do Rosário, "uma excelente viagem", Aline Motta.


Ricardo Aleixo




Filha natural, instalação fotográfica, série de fotografias, publicação, vídeo e performance, 2018/2019. Foto: Aline Motta/Divulgação




Deixou um rastro de leite e sangue. Teve sete filhos, entre eles, minha bisavó. Morreu de tuberculose, mas a história que contam é que morreu de susto por causa de bombas na baía de Guanabara durante a Revolta da Armada. Militares contra militares, a República era só mais um golpe. Os vidros trincavam, as xícaras tremiam, a estrutura da casa ficou abalada.










No sobrado viviam várias famílias, era difícil separar os utensílios dos doentes. Não se sabia mais quem havia passado o infortúnio para quem. Explodia mais um tiro de canhão e escoravam as rachaduras com improvisados pedaços de pau dando a impressão de que aquela obra nunca terminaria. No final, Ambrosina já não podia mais com tanto barulho. Era o ano de 1894.




Se o mar tivesse varandas, Aline Motta




Discutir racismo na minha família era como entrar naquela parte do mar em que não dá mais pé. Se fosse chamado pelo nome, o equilíbrio familiar se quebraria, e a corrente os levaria à deriva. Na beira, não precisávamos passar arrebentação. Fazíamos piada daquilo tudo. Até que nada mais tinha graça. Acho que não foi bem assim, você está imaginando coisas. Por que cismou com isso agora?











Era possível que estivesse suja. Suja de tanto brincar naquele estacionamento. Era o lugar que tínhamos para brincar, nos escondíamos atrás das rodas dos carros no pique-esconde depois da escola. Era possível que estivesse descalça. Era possível que o meu pai, que me acompanhava, não se parecesse em nada comigo. Era possível que eu estivesse descabelada. Durante um tempo procurei me ajeitar, nem sempre deu certo. Era possível tanta coisa. Nessa época eu era frequentemente confundida com um menino, tinha manchas nos joelhos e nos cotovelos, e os pelos do braço pareciam mais escuros do que os das outras meninas. Eu, pele suja. Tenho raiva por ter aceitado o dinheiro.





Filha natural (2018-2019), Aline Motta



Trinta anos depois da escrita no diário, poucos dias após o enterro, meu pai encontrou o caderno e me disse: "Não foi a sua mãe que escreveu isso".

Era uma voz que eu também nunca tinha ouvido.

Lá em casa, reclamar era admitir o fracasso,

portanto, uma arena interditada.












Uma mulher negra aguenta tudo, até o dia em que não consegue mais subir escadas. O braço todo furado e minha mãe nunca reclamava, disfarçava seus apuros com perfeição. Finalmente descobriram que a enfermeira que aplicava a quimioterapia estava com catarata e por isso não acertava a veia. Os acessos iam murchando desidratados a cada picada no lugar errado. O braço todo furado e nunca reclamava. Odiava quando chamavam minha mãe de guerreira. Seu corpo não era um campo de batalhas. Para todos os efeitos, a santa no oratório, que visitava os apartamentos do bairro, ficaria sem rezas quando chegasse a vez de dormir em nossa casa.





'Pontes sobre abismos', videoinstalação e série de fotografias, 2017

FOTO ALINE MOTTA/DIVULGAÇÃO



Eu faço do meu corpo um altar

Nele pode um morto dançar




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ALINE MOTTA nasceu em Niterói (RJ), vive e trabalha em São Paulo. É bacharel em Comunicação Social pela UFRJ e pós-graduada em Cinema pela The New School University (NY). Combina diferentes técnicas e práticas artísticas, mesclando fotografia, vídeo, instalação, performance, arte sonora, colagem, impressos e materiais têxteis. Sua investigação busca revelar outras corporalidades, criar sentido, ressignificar memórias e elaborar outras formas de existência. Foi contemplada com o Programa Rumos Itaú Cultural 2015/2016, com a Bolsa ZUM de Fotografia do Instituto Moreira Salles 2018 e com 7º Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça 2019. Recentemente participou de exposições importantes como "Histórias Feministas, artistas depois de 2000" - MASP, “Histórias Afro-Atlânticas” - MASP/Tomie Ohtake, "Cuando cambia el mundo" - Centro Cultural Kirchner, Buenos Aires, Argentina e "Pensar tudo de nuevo" - Les Rencontres de la Photographie, Arles, França. Abriu sua exposição individual "Aline Motta: memória, viagem e água" no MAR/Museu de Arte do Rio em 2020. Em 2021 exibiu seus trabalhos em vídeo no New Museum (NY) no programa "Screen Series". Em 2022 lançou seu primeiro livro "A água é uma máquina do tempo" pelas editoras Fósforo e Luna Parque Edições.









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