O Carro - Arcano VII

Atualizado: Set 14

por Júlia Gonçalves




Chariot, de Alberto Giacometti. Bronze pintado, 1950, 1,45 m x 66 cm x 66 cm



Uma das cartas mais ricas simbolicamente e mais misteriosas, eu diria. Foge da simbologia óbvia. O carro é guiado por duas esfinges no Tarot de Rider Waite, por dois cavalos no Tarot de Marselha. Sempre dois animais iguais conduzem a carruagem, mas de cores opostas. Os bichos levam, mas quem guia é o homem. Os cavalos de Marselha vestem no pescoço o símbolo alquímico do ouro. Isso nos traz uma dica importante sobre o significado das letras s e m escritas no centro da carta: sulphur e mercurius, ou em bom português: enxofre e mercúrio, os dois principais elementos da alquimia. Mercúrio é o princípio feminino, volátil, passivo, leve. Enxofre é masculino, estável, ativo, pesado, come os metais. Combinar os dois resulta no “coito da Rainha e do Rei”. São 7 também as etapas do processo alquímico: calcinação, sublimação, solução, fermentação, separação, coagulação e união. Sabemos que a transmutação, fim da alquimia, na verdade é espiritual, o argumento da química era só um disfarce pra se proteger da Igreja Católica. O ouro alquímico é metafórico. O Carro segue adiante na estrada da transformação, não pede licença. Teve os cinco primeiros arcanos pra digerir, no sexto escolhe um caminho e no sétimo caminha na direção escolhida, mirando o "ouro não-vulgar”, como chamavam os alquimistas chineses.  



Arcano VII - O CARRO, Tarot de Marselha



Movimento, dinamismo, determinação, foco, mobilidade, são todos conceitos que cabem a uma estrutura que carrega um nobre na força de dois animais — cavalos de força? — a um objetivo premeditado. O Carro não escolhe mais, não pensa muito. É a carta de Câncer, aquosa e cardinal, emoções que têm direção, não se está perdido, segue-se o coração. O piloto carrega luas nos ombros, astro que rege a carta. O Carro é uma correnteza, conduz a água incansável e, se preciso, cava buracos maiores para que passe. Abra o caminho pro Carro! Ele é o dono da rua, quem o conduz tem pressa e precisa domar duas bestas opostas equilibrando-as. Coragem, força e percepção são exigidas aqui, um ensaio para responsabilidade que espera no arcano VIII. No entanto, se o motorista d’O Carro não reconhecer a coroa que carrega na própria cabeça, voltará ao posto de mero mortal inerte e confuso do arcano anterior. Assumir as rédeas e segurar firme o touro pelo chifre é indispensável no encontro dessa carta. É a força que move quem perdeu alguém durante a pandemia e precisa continuar. Quem faliu, quem abriu um novo negócio, quem se recuperou de uma doença que matou 108.536 pessoas só no Brasil até o momento desse texto. Há de se ir em frente pois a notícia é: não há outra opção. É o amadurecimento na marra, o mundo não para diante das nossas dores, nem pra comemorar nossas alegrias. “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”.

O nosso corpo não é muito diferente desse carro do Tarot. Temos essa estrutura grande e complexa que se responsabiliza por, dentre outras funções, nos transportar para onde precisamos estar. O corpo precisa do movimento, sem ele não se manifesta e por consequência não progride. O carro parado é inútil, o corpo idem. Na Cabala, o arcano representa o caminho na Árvore da Vida que liga Geburah (a força de ação, Marte) a Binah (a matrona, o entendimento que direciona a energia). É o equivalente à destilação, separação ou exaltação nos processos alquímicos. É o carro de Apolo entregue ao filho inexperiente Faetone pra que se prove merecedor de um lugar no mundo, filho de um deus e capaz de dirigir o Sol diante de todos — esse, porém, que fracassa. O que lhe falta, como falta a muitos de nós, é a paciência para esperar o tempo das coisas além de nós. Querer colher os frutos antes de descobrir suas limitações e capacidades. Pode ser também o carro celestial trazendo os anjos visto por Ezequiel (I, 4-28). Pode ser ainda o mito de Júpiter e Sémele, em que a mortal pede pra ver o amado em todo seu esplendor divino e ele, que é trovão, mata a coitada tostada numa experiencia ainda assim orgástica. Morre aí o gênio do amor terreno que não suporta a divindade, nas palavras de Moreau, morre “o gênio com os cascos de cabra”.



Gustav Moreau – Jupiter e Sémele, 1894- 1896- Óleo sobre tela, 213 x 118 cm – Musée Gustave Moreau, Paris 



Tem os que defendam que o Carro fale da libido, do desejo. Até concordo, pensando num desejo que já virou ação. É o que nos impulsiona, certo? O medo paralisa, o desejo move. “A vitória é um produto da vontade” disse marechal Ferdinando. A urgência exige que se pense menos, pondere menos, meça menos os pormenores. Aja! O arcano VII é imperativo! A tragédia está feita, é refeita todos os dias, ainda virão outras. “As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios / provam apenas que a vida prossegue” diz o poeta escorpiano. Não pense que a atitude é indiferente, é irracional por completo. Existem 7 arcanos (O Louco, arcano 0, incluso) antes da ação acontecer. Diante dos escombros nos cabe a reconstrução, para isso é preciso arregaçar as mangas, juntar os cacos e aos poucos, com a prudência de quem dirige dois animais irmãos, mirar o alvo e ir, de cara pro medo e pra chuva. Se o desejo é a semente que gera O Carro, a coragem deve ser o seu combustível. “Chegou um tempo que não adianta morrer. / Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida apenas, sem mistificação.” Só cuidado para não atropelar ninguém.

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