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O Papa – Arcano V

por Júlia Gonçalves

Leonardo Boff diz que para entender a experiência da Teologia da Libertação deve-se sentir na pele a angústia do pobre, se indignar com a situação e encontrar nele, Cristo crucificado. Sem essa experiência, de nada vale a teologia. Fica retida aos livros, não transforma o mundo. “Os pobres são os verdadeiros representantes de Cristo” mais do que as doutrinas. A espiritualidade, ainda segundo Boff, é quando conseguimos conectar a cabeça – dona dos dogmas, do catecismo, das teologias e tradições – ao coração – que sente, vibra, toma decisões, sonha. À essa travessia ele chama de espiritualidade. “Espiritualidade é sentir Deus, e não pensar Deus”. O Hierofante é o 5º arcano: o número da ponte, está no meio do caminho. O homem como intermediário entre a divindade e o plano das coisas criadas. Um mediador por excelência, o Hierofante encontra saída para o que parece insolúvel. Não tão sobre a razão e as regras das coisas, mas intuitivamente. É um religioso, um místico, não um político – ou não deveria ser. A razão está nas mãos da Justiça, do Mago, do Eremita até, outros arcanos, outros textos. O Papa é uma carta de união dos polos, união também para os súditos que se ajoelham diante dele esperando por a sua palavra.

Dalai Lama disse que a melhor religião é a que te faz melhor. E o que é fazer-se melhor? “A que te torna mais compassivo, amoroso, solidário e sensível aos seres humanos”, ele disse. O Arcano V liga o telúrico ao cósmico, enquanto o Arcano XV (O Diabo) faz o caminho inverso. Os cincos são as travessias, logo, o momento de maior instabilidade do elemento. Os cincos do tarô, inclusive os arcanos menores, são sempre cartas difíceis, como são as transições. Quando o molusco muda de concha é seu momento de maior vulnerabilidade, está exposto. Quando andamos sobre uma ponte, corremos o risco de cair se ela não for confiável. Diante disso, penso: quais valores pode-se confiar ao Sumo Sacerdote? Muitos colocam esse arcano como representação de valores conservadores e discordo. O Papa não devia falar só do velho, como uma obsessão. É o grande comunicador, traz a espiritualidade cósmica e distribui a palavra para nós que estamos na carne telúrica. Não seria esse o conceito de religião – religar? Diante da nosso Brasil tomado pela bancada evangélica, um catolicismo falido, preconceito religioso contra toda espiritualidade negra e indígena, ainda há espaço para termos fé em quem diz trazer a palavra divina? Espiritualidade não devia ser uma fantasia, mas sim o que traz a transformação interior, profunda, e, através dela, todas as outras.


Papa Inocêncio X, por Francis Bacon – óleo sobre tela, 1965



Papa Inocêncio X, por Diego Velázquez – óleo sobre tela, 1650

Frei Betto falou numa entrevista que hoje muda-se a qualidade da fé como a cobra muda de casca. Defende que a fé seja menos sobre Deus e mais sobre uma experiência espiritual subjetiva, interna. Não se trata de um encaixe a normas sociais, interpretação comum sobre o Arcano V. Ouço o Papa tendo como referência os líderes religiosos que propõem a ideia revolucionária de que Jesus era preso político. O padre Júlio Lancelotti diz: “A gente insiste em buscar Jesus na Igreja, mas ele insiste em ir para debaixo do viaduto”. No entanto, todo arcano tem o que chamam de “sombra”, especialmente se acompanhado de uma carta perigosa ou se resposta a um obstáculo. O falso profeta, o religioso corrupto, o líder de seita, de Rasputin a bispo Macedo, todos nós já vimos as consequências graves de forjar voz santa a quem anseia muito por controle e poder. Não se trata de qualquer poder, é a união da oratória com a espiritualidade. O recado do além que abençoa ou amaldiçoa. Betto, que também foi assistente de direção de Rei da Vela, vê o teatro como outro sacerdócio. O Papa também fala sobre a dedicação integral a um propósito, estar completamente entregue, devoto. O Papa, porém, não é a Igreja, lembremos.


Carta Le Pape – Tarot de Marselha

Essa imagem da Igreja como a que separa ao invés de ser ponte começa quando a fé platônica entra na teologia e conceitua o ideal como distante do real. O paraíso está lá, aqui é só uma cópia profana e mal feita. Santo Agostinho separa o corpo do espírito e a partir daí começa a negação do primeiro e a criminalização da carne. Dentro dessa lacuna, cresceram as igrejas evangélicas, não só por ocupar o vazio da assistência do Estado nas áreas marginalizadas, mas também por ocupar a lacuna da fé católica que constrói suas catedrais longe das favelas, prega um Deus europeu, formal, distante e que fala latim. Agora, através do novo Papa, os católicos progressistas enxergam um movimento que costura essa ferida para unir novamente os excluídos através da palavra divina. A fé tenta voltar como arma de questionamento da desordem e alguns nomes voltam a aparecer através de um ativismo cristão pela igualdade e pela justiça. Agora, andando contra o materialismo da igreja de Bento XVI que embaçava a visão das sutilezas.


Enterro do Conde de Orgaz, de El Greco – óleo sobre tela, 1587

O Arcano V é a intuição filosófica, “inteligência triunfal”, une a esfera Hochma (transmissor do divino) a Chesed (mago que já se tornou mestre) na Árvore da Cabala. É a raiz de uma nova ideia, recém formulada na mente, através de um princípio abstrato. A lei moral, não a lei escrita. Na sua cruz de sete pontas se organizam os 7 pecados capitais: orgulho (Sol), preguiça (Lua), inveja (Mercúrio), cólera (Marte), luxúria (Vênus), gula (Júpiter) e avareza (Saturno). Importante para entendermos o Hierofante é perceber que por maior que seja nossa devoção, a fé do outro também tem que ter espaço. Essa é a liberdade-título da Teologia da Libertação, movimento latino-americano que, dentre muitos movimentos revolucionários, defende uma igreja ecumênica. Wirth diz que os fiéis que se ajoelham diante do pontífice na carta exemplificam duas categorias: os que compreendem (personagem com a mão apontando o céu) e o rebanho cego que obedece por medo de castigo divino (personagem que aponta o chão). Quando se acata uma ordem sem questioná-la traímos o Hierofante. Acredito que o bom Sumo Sacerdote precisa ser rebelde, não poderia jamais ser uma ovelha – muito menos gado.

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