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Dois poemas de Ana Botner




Civilização 102



eu quero viver, ela diria


eu ofereço a você

os freios de emergência


eu ofereço em um buquê

os uivos dos cadáveres

os cânticos seculares

e esconderijos cobertos de pólvora


eu ofereço canções e panfletos

a bagunça e o cheiro de suor no rosto


eu ofereço a nostalgia do primeiro jardim

o paciente zero

o primeiro sopro em seu cabelo


eu não vou durar muito, ela diria


os jovens já não são tão jovens agora

o paraíso não está perto

E eu me enchi de melancolia & vertentes demais


veja: este livro que você está lendo

não vai escovar seu cabelo à noite

ou te beijar para dormir

não vence a luta contra o homem mais fraco desta encruzilhada


ele poderia rasgá-lo

em um segundo, se quisesse


homens e mulheres passaram por mim

como se fosse a última chance

e talvez fosse

os freios já estão sujos e pegajosos

E as mãos - de Shanghai até aqui -

marcaram com a digital todos os cabos de aço


mas eu quero viver, ela diria


as partículas estão se movendo sem parar

e você sempre abrirá seus olhos novamente


eu acho que ela diria


às vezes nos beijamos com os olhos abertos

e eu consigo ver o centro disso


nós estamos nos movendo entre fábricas e máquinas à vapor

que são como os esqueletos

que usamos para erguer essa esfinge


e às vezes o tempo passa

como se estivéssemos presos como gárgulas

após a explosão de um vulcão furioso


mas eu queria viver, ela diria

embora saiba que não dure


eu também quero tocar

a pedra angular

dessa imensa vespa







______________________________








ALGO SOBRE A SINCRONIA


Para Cris




e olhamos pela janela

a cachorra lambendo minhas pernas

enquanto

eu te via de colete vermelho, descalça

a chuva escorrendo pela varanda

e você me dizia algo sobre a sincronia

e o romantismo e como não escapamos dele

já eu respondia com a dialética e as escolhas dos ministérios

os desastres e má estrela

mas você disse que devemos ser otimistas

já eu disse: talvez não

conversamos sobre amigos antigos

como eles estão espalhados agora

fracos mudos

levados à loucura

com uma fome que corre nas veias

nas mãos

lembramos da fome, mas não sentimos falta

este oco

e disse: ninguém aqui vai vagar para baixo

talvez para os lados

você sempre brilha quando falamos do amor

como tentou se proteger e não deu

mas ninguém aqui vai vagar para baixo

eu falo como encontrei minha casa

e você se prepara para uma viagem

e a chuva escorre a cachorra late

mas o brilho nos seus olhos é bonito

gigante




Ana Botner nasceu no Rio de Janeiro em dezembro de 1999. É poeta e graduanda de Ciência Política na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Seu primeiro livro, Andar Barato, foi lançado pela Urutau em 2021.

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