A Morte - Arcano XIII

Atualizado: Set 14

por Júlia Gonçalves




O cheiro dela paira no ar. O arcano 13 é a Morte, mas também é o arcano sem nome no tarot de Marselha, o primeiro até onde se sabe - as figuras mais antigas encontradas tem cerca de 400 anos. É representado só pelo numero e a imagem do esqueleto ceifador que pisa nos nossos restos com indiferença. O número 13 traz a superstição sombria desde a última ceia que diz que se 13 pessoas sentarem novamente numa mesa é a sentença de morte pra uma delas. A estátua de Filipe da Macedonia foi colocada junto a outras 12 estátuas de deuses dias antes de ser assassinado. O 13 é famoso pela tragédia. Porém lembramos que há 22 arcanos maiores, o 13 está só na metade do caminho. A morte não é o fim, não a toa um dos nomes do Arcano XIII é “Filho das Grandes Transformações”. Oswald Writh diz “O profano deve morrer pra que renasça a vida superior que a iniciação concede”. O caminho na Árvore da Vida que representa esse arcano é Nun, que liga Tifereth (a beleza solar e ordem apolínea) a Neztach (a inteligência oculta e o prazer individual venusiano). Abandona as regras sociais da personalidade e desenvolve a inteligência imaginativa e misteriosa do oculto. 





A morte é a ruptura, ela arranca da ordem e impõe outra. Não morre só o corpo, morre o emprego, morre a carreira, o cabelo, o braço, o romance, o filho, o sonho, a casa. Tudo isso morre e todas essas mortes trazem luto - impossível separar a morte do luto. Quando um casamento acaba não morre Carlos, mas morre o Carlos marido de Sonia. Quando Jéssica é demitida não morre, mas morre ali Jessica funcionária da empresa tal. O arcano sem nome carrega a gadanha (semelhante a foice, mas mais eficiente), pronta pra cortar. Tem quem acredite que a figura do esqueleto ceifador veio originalmente do tarô, mas não se sabe ao certo. A gadanha surge entre o século XII e XIII, a partir daí temos uma dica. Ankou, da mitologia celta, também é um esqueleto e a cabeça gira pra todos os lados: tudo vê. O Memento Mori, expressão em latim muito usada na arte e na literatura do século XVII, põe uma caveira a espreita em tudo pra lembrar que você não tem todo o tempo do mundo, tudo acaba, e no fim somos todos iguais. Democrática a morte, não? Omulu é o orixá da transformação e a ultima grande transformação do corpo é a morte. Omulu também é a terra, que come a sujeira que deixamos quando morremos, transforma em comida pros vermes.



 

São Jerônimo escrevendo, Caravaggio 1605-1606 óleo s/ tela


Tânatos da mitologia greco-romana é uma das personificações da morte mais antigas que se conhece e permeia o pensamento ocidental até hoje. Irmão do Sonho, filho da Noite com a Escuridão, filhos do Caos por sua vez. Nasce 21 de agosto, seu dia favorito pra trabalhar (leonino o Morte). É representado como nuvem ou um homem de cabelos e olhos prateados. Leva os mortos até Caronte, o famoso barqueiro, e é a figura escolhida por Freud pra falar sobre a pulsão de morte, que se opõe a Eros no princípio do prazer, a pulsão de vida. Tânatos dá também o nome da tanatopraxia, o preparo que adia a ação do tempo na decomposição do corpo pra que os familiares e amigos não enxerguem no morto um cadáver. Trágico ver o tempo de forma tão explicita como num corpo que amamos se decompondo. É um costume gentil conosco, que já lidamos com a dor, mas percebe o quanto fugimos da idéia da morte? Somos os primeiros bichos a entender que morremos. Quem lembra da morte todos os dias enlouquece, mas em algum lugar do inconsciente sempre lembramos. Tudo o que fazemos tem uma raiz na falha tentativa de vencer a morte. Arte, literatura, filosofia, as heranças materiais e imateriais, os afetos, os filhos, o sexo, etc. mas a morte tem o coração de ferro e as entranhas de bronze, é calma e gentil como quem não se importa muito, e nisso ela nos vence. Qual o limite da morte pra nós? Quando ela deixa de ser a dor imensa da falta pra se tornar um fetiche? Nós criamos uma casca da indiferença pra morte de quem não enxergamos, naturaliza-se a morte dos que estão longe, ouvimos bradar na mesa de jantar “bandido bom é bandido morto” e seguimos, assistimos a morte nas transmissões de guerras no Oriente como quem assiste um filme, milhares de mortos por Covid e os bares cheios, são os tais “números”. Ao desumanizar a morte o medo se transformara em paixão. Tânatos se encontra com Eros na sua oposição, daí o arquétipo escorpiano/plutoniano que relaciona morte e sexo. 

Já a Morte no tarot de Rider-Waite não carrega a gadanha, mas monta um cavalo e mira um horizonte onde o sol nasce. Nasce e cresce: trigo. Vive e morre: pão. Lembramos que a gadanha é instrumento de lavoura. A metáfora é simples: a vida é um ciclo de plantio e a colheita do grão é a morte. Nanã é orixá de outra morte, a semente. O ultimo momento antes de nascermos e o primeiro momento depois de mortos são regidos pela mesma Yabá. Há esperança na morte porque precisamos, mas ela só existe quando a aceitamos e aceitar é muito diferente de agradecer, é parar de nega-la. A tragédia vive na recusa do fim, dançar numa festa que já acabou e não conseguimos abandonar, festejar na rua como se não existisse uma doença que mudou a forma como nos socializamos. A psicanalise ensina a notar o que ainda fica na gente do resto do objeto que se foi - mas ainda paira sobre nós - abraça-lo e estabelecer novas conexões. Sobreviver é isso e precisamos enxergar - não de cabeça baixa, mas nomeando os assassinos - que o mundo que conhecíamos está morto. Agora nasce uma geração sob o trauma da pandemia. O nosso mundo de antes está morto e precisamos enterra-lo.






E como elaborar o luto? Nós temos memória grande de um mundo que não achava que a morte viria num aperto de mão e isso nos faz diferentes dos que não vão se lembrar do que era o mundo antes desse trauma coletivo. Dentre todos os lutos que vivi a dor só amansou quando notei que as pessoas e lugares que me deixaram ainda vivem em faces minhas que gosto - ou aprendi a gostar. Meu primeiro namorado me ensinou a ver a música com outros olhos, meu ultimo me ensinou de novo. Minha avó era medium e rezadeira e desde a sua morte tudo que cerca as ervas, os ritos e o espírito ganhou outro peso pra mim. Quando parei de trabalhar em escola, carreguei o olhar de respeito que aprendi a ter sobre os pequenos. Continuar o caminho quando se sente a ruptura de si só é possível quando assumimos que agora somos de volta o Eu, e não Eu neta de fulana ou Eu que namora fulano ou Eu que trabalha em tal lugar. Somos o nosso Eu além de tudo isso, fomos muitos Eus, seremos muitos ainda. Negar a morte é falho, reconhecer a morte é forte. Ganhamos inclusive na perda quando nos autorizamos a ser o que amávamos no que se foi. Amar todas as etapas inclusive a perda delas foi onde encontrei um pouco de cura. Soa contraditório amar o outro inclusive em sua partida. É dificílimo de fato, doloroso demais, diria que o maior dos desafios que pude enxergar até então esse de amar até a falta. A vida nunca foi sobre facilidades, sabemos. Essa é só a metade do caminho. 

102 visualizações