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Você pode não se afetar com isso - tinha era que ver isso de perto

Atualizado: 28 de fev.

por Juliana Thiré de Negreiros



Print de frame do filme "Madame Satã" (2002, Karim Aïnouz)



6 parágrafos soltos, íntima e forçosamente colocados a partir de fontes diversas - um viva à experimentação e à tentativa de dar conta de um afeto urgente


1) Nosso tempo: devia se chamar Krakatoa: um vulcão cuja erupção (1883, entre Sumatra e Java), produziu o som mais alto já ouvido na história, que rompeu tímpanos a dezenas de quilômetros de distância, desencadeou tsunamis gigantes. A força dessa explosão liberou uma energia de 200 megatons (mais de 10 mil vezes a força da bomba atômica de Hiroshima) criando uma onda de pressão que deu a volta 3 vezes no planeta. O pôr-do-sol no mundo inteiro ficou extraordinário. O quadro O Grito retrata esse céu. Foi a primeira notícia de velocidade quase instantânea (telegrafada), que chegou em 4 minutos em várias cidades do mundo: “Explosão gigante. Krakatoa. Vários mortos.” Isso marca nosso entendimento do planeta enquanto entidade interconectada - o que agora é da maior naturalidade. Isso de se ter notícias de guerra e amor no mesmo segundo é coisa que pode sabotar também a experiência no mundo - passamos a não nos afetar com nada ou quase nada.


2) Amusmang: é uma palavra alemã traduzida grosseiramente por “fuga da realidade”, surgida pouco depois da erupção do Krakatoa, com o que é considerado o primeiro cabaré da história. Amusmang é tanto um lugar (casas noturnas de encontros variados e embriaguez) quanto uma atitude, um espírito: um desejo urgente, uma expressão urgente diante da ruína que só cresce, uma “pressa de viver cada minuto como se fosse o último”. Fugir da realidade: distorcê-la pra ver mais perto ao mesmo tempo que distanciado. Dar a volta no planeta e encontrá-lo do outro lado. Cabaré também é tanto um lugar quanto um tipo de expressão. Havia cabaré dentro de campos de concentração nazistas. Não sou eu que vou ficar desenhando que cabaré não é só isso que a indústria da música sertaneja vende.


3) Afeto: (ou paixão) é estado d’alma, agradável ou não. É um “eco em nós daquilo que o corpo faz ou sofre”. Se apresenta “sob a forma de uma descarga maciça ou tonalidade geral”. É manifestação da energia pulsional e libidinal. A noção de afeto pro teatro, pro corpo do ator e do espectador, é uma oportunidade de estudar a ação e a potência de agir. O teatro pode ser a causa de alguns afetos únicos (interessa aqui os que se fazem urgentes) que só este tipo de expressão pode proporcionar. Investir no extremo do afeto é da maior oportunidade para se estar e agir num mundo extremamente desafetado. Ah, e teatro também é tanto um lugar quanto um tipo de expressão (vários).


4) Teatros: eis algumas palavras-chaves bagunçadas para se ter noção dos inúmeros teatros existentes no mundo: autoteatro, (teatro) comunitário, contemporâneo, performativo, performático, dramático, pós-dramático, sinestésico, de ator, estético, falado, mudo, híbrido, imersivo, intercultural, de intervenção, mainstream, moderno, multiculural, neodramático, clássico, político, poético, épico, cômico-popular, jesuítico, pós-colonial, pós-moderno, de proximidade, experimental, cosmopolita, criado em um lugar específico, de empresa, do mundo, do murro, do real, bunraku, multilíngue, para turistas, sincrético, de tradição, de vanguarda, visceral, comédia (alta e baixa), de máscaras, antimáscara, aristotélico, auto sacramental, de boulevard, burguês, de massa, de cerimônia, comédia-ballet, comédia antiga, nova, burlesca, de caráter, de costumes, de gaveta, de ideias, de intriga, de salão, de situação, em série, heroica, lacrimosa, ligeira, negra, pastoral, satírica, sentimental, séria, dell’arte, erudita, tragédia, tragédia doméstica, teatro didático, drama, drama burguês, drama histórico, litúrgico, etnodrama, experimental, happening, de humores, de improviso, de intermédio, de agit-prop, materialista, melodramático, metateatro, mistério, nô, mimodrama, multimídia, ópera, opereta, paródia, de participação, do invisível, de problema, de tese, pantomima, radiofônico, sainete, sotie, tragédia heróica, trágico, tragicômico, antropológico, autobiográfico, de bolso, de câmara, do absurdo, kabuki, íntimo, total, vaudeville, musical, comercial, musicado, de revista, revista carnavalesca, revista de ano, monólogo, burleta, entremês, bugaku, stand-up comedy, de operações, expressionista, impressionista, simbolista, realista, naturalista, construtivista, de propaganda, satírico, ligeiro, do oprimido, de bonecos, de mamulengo, de fantoches, de marionetes, de objetos, com objetos, de rua, na rua, de sombras, de closet (no Vidigal, da Glauce Guima, beijo Glauce), de beco, de igreja, (teatro)-instalação, -documentário, -ritual, -dança, -circo, -filme, café-, -cabaré… Ufa. Disso tudo que leva mais de uma vida, tem me interessado os teatros íntimos, próximos, assustadoramente íntimos, do tamanho de uma neopentecostal de fundo de loja, porque me interessa o cabaré. A chamada “zona íntima” é uma boa lente pra estudar o cabaré - que é também ao mesmo tempo um lugar e um tipo de expressão teatral. O tal primeiro da história tinha 50m² e no Rio de Janeiro, os chopes berrantes - cabarés da mesma época - tinham 30 ou 40m²; o teatro de closet da Glauce no Vidigal tem 10m² ou menos, rs - é uma onda). Que afeto específico (extremo e urgente) pode produzir um teatro feito tão perto?


5) Proxêmica: é o estudo do espaço de proximidade ou distância entre indivíduos, nomeadamente do ponto de vista comportamental, cultural ou social, pra fins diversos, comumente usado pra projetar ambientes. Serve pra calcular, por exemplo, o tamanho de um elevador ou de um auditório. Um esboço em 4 tipos: distância pública (palestras, auditórios): 360 a 750cm entre as pessoas; distância social (parques, corredores de shopping): 120 a 360 cm; distância pessoal (restaurantes etc): 45 a 120 cm; distância íntima (afeto, conforto ou luta): contato físico direto e na fase afastada fica entre 15 a 45 cm). Sei muito pouco disso, mas é fascinante. Mesmo sem importar o espaço, pensar a zona íntima pro teatro como produtor de um afeto extremo e único (interessante se for urgente) é uma pista pra gente que busca como agir agora. É o caso do carnaval ou dos grandes protestos de rua, que mesmo em enormes avenidas, fazem os corpos mais juntos e mais perto que nunca. Afeto, conforto e luta. Desejos urgentes, expressões urgentes, afetados extremamente, pra dar a volta - uma não basta - 3 vezes no planeta inteiro. Penso que foi isso que o Krakatoa gritou pro mundo. Quanto mais íntimo, mais manifesto.


6) Parágrafo extra para amusmang: um projétil, um coração, uma mistura, um mistério, uma pergunta saborosa e angustiada. Sonsa, que fica em cima do muro, lá em cima investigando as profundezas do muro. Manifesto pro mundo inteiro numa carta íntima, pessoal. Brilho e pó de toda morte, extremamente. Exigência latente do gesto seguinte. Um convite, um requinte, um cúmulo, um acúmulo, uma pretensão, diante da ruína, de não aceitar menos que a fúria na sua mais elegante e inteligente qualidade. Urgência e vaidade do corpo impedido, que fica maior - dá pra ver mais chão, dá pra ver mais céu, mais horizonte - esse fronte, malícia, delícia, refúgio, sobra, insistência: muita manobra e muita demência. Selvagem catacumba, alívio comediante, espelho curvo, cão vadio, um vício, um anjo azul. O buraco da lacraia e o chope berrante. Um farol que não promete salvar ninguém, veja bem, porque é também uma miragem: hipnótica, que de tão trágica precisa ser tão erótica. Que busca a graça no fundo dos olhos do horror, e pra isso muitas vezes é preciso uma cachaça.


Se entrar dinheiro na conta da revista, eu compartilho no próximo texto os procedimentos de criação cênica que temos feito na Terror Barato Cia, no Desterro e nos estudos em cabaré que envolvem tudo isso. R$5,00 no pix: revistaapalavrasolta@gmail.com

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