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Uma nota sobre a poesia de Bráulio Bessa

por Rodrigo Lobo Damasceno (colunista convidado)




Bráulio Bessa. Fonte: Folha de São Paulo



A mais recente reelaboração da ideia de Nordeste, calcada no elogio do "popular" por parte da indústria e de quem comanda a indústria (ou seja, por parte de quem está distante das formas "populares" de vida e expressão), se revela principalmente na música da região, mas tem também ramificações na poesia, sobretudo na figura de Bráulio Bessa - o que indica que não é essa uma ramificação qualquer, visto o seu amplo alcance via Rede Globo.


Em sua poesia há o "bom policial" (descrito como um dos "Heróis da vida real", no poema que leva esse título: "É um bom policial/ arriscando a própria vida/ pra que a sociedade/ esteja bem protegida"); há também a naturalização da ideia de que "ficar rico" é possível e não é "vergonha", reduzindo toda a complexa questão do trabalho a um discurso moral baseado na “vitória” de quem enriquece e na “inveja” de quem padece ("Que eu não sinta inveja/ da riqueza de ninguém./ E se um dia eu enricar/ que eu não esqueça também/ que, grã-fino ou da ralé,/a gente é o que é,/ e não aquilo que tem" é o que se lê em "Honestidade"; já em "Valores", há o seguinte: "Trabalhar, vencer na vida/ é uma estrada comprida…/ E ser rico não é feio./ Feio mesmo é esquecer/ do que Deus deu pra você/ pra desejar o alheio."); há também a reiteração de uma identidade nordestina forjada numa vida um tanto idílica do interior (conversas de vizinhos nas calçadas, cegos pedindo esmolas [?], namoros inocentes na pracinha e a ausência de "medo de assalto" marcam "Coração nordestino" - e todo esse imaginário, aliás, foi quase que completamente dizimado pelo cinema da região das últimas duas décadas, mas a poesia parece ter passado ao largo das salas e dos torrents); há, ainda, a versão rimada do vago - e sempre tendendo ao moralismo - discurso contra a "corrupção", que deu a tônica do debate público brasileiro nos últimos anos (”Fiz uma conta, ligeiro:/ se juntar todo o dinheiro/ dessa tal corrupção,/ mata a fome em todo canto/ e ainda sobra outro tanto/ pra saúde e educação”).





Sua obra, não por acaso, foi eleita pela Globo como a poesia que transforma, e é um bom exemplo de como ideologia dominante e arte popular podem se juntar e sedimentar uma ideia de arte como paliativo, decoração ou meio para adequação ao "real" (e readequação do "sonho" ou da "imaginação" a partir disso, desse suposto "real" - eis aí a "transformação"). Seus versos, ditos num programa matinal da maior rede de TV do país, servem também para apaziguar a diferença regional nordestina, recentemente atiçada pelo desvio eleitoral dos últimos anos (ali, nas salas de casa, via Rede Globo, o nordestino aparece apenas pra ilustrar as manhãs brasileiras com rimas e mensagens positivas).


Na tradição do cordel, à qual Bessa se filia, sempre alijada do campo "literário", não faltam exemplos de poetas cujo trato com a linguagem foi sobretudo inventivo: jogos de palavra, uso original de trocadilhos, aliterações levadas ao limite da língua, enigmas, ironia, exploração distinta do verso escrito por conta da possibilidade dele ser também expresso oralmente (andamentos acelerados alterando acentuação de palavras e versos - ou seja: uma intrincada e dialética relação entre a expressão oral e a escrita), atualização do vocabulário poético regional via gíria e neologismo etc. Nada disso aparece na poesia de Bessa, que parece mais confirmar uma suposta "simplicidade" expressiva e formal (e portanto mental) do Nordeste, tornando a sua diferença palatável para o país por meio da reprodução de um estereótipo rural ou interiorano completamente idealizado, que passa longe das novas e complexas formas de sociabilidade da região.


Há que se dizer, no entanto, que não se trata de menosprezar o "simples", que pode ser cultivado, e nem de diminuir a obra de Bessa como não sendo "poesia". É óbvio que é poesia - e é por isso, aliás, que merece ser lida criticamente, a sério, sem ser menosprezada por ser popular e sem ser louvada apenas por isso. Como leitor e crítico, vejo uma trilha de interesse e de invenção na qual se empenham diversos jovens poetas nordestinos (já escrevi sobre alguns deles, como Ederval Fernandes, Maria Dolores Rodriguez, Allan Jonnes e Philippe Wollney – mas há outros, labutando sem sol ou salário), enfrentando criativa e criticamente as movimentações amplas e profundas da reorganização cultural e poética entre as classes que compõem, constroem e tentam destruir a região. Em suas obras, questões históricas e raciais e tensões entre campo e cidade ou modernidade e atraso, bem como o enfrentamento direto da divisão de classes organizada pela força policial promovem a formulação de uma linguagem nova, fortemente marcada por um modo radical de habitar e pensar as cidades nordestinas tais como elas vão se fazendo e se revelando nesse começo de século.


Nenhum deles, obviamente, está na Globo – certamente não serão televisionados.




De Sergipe, Allan Jonnes:




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