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Uma entrevista com Herbert de Paz

Atualizado: 1 de jun.

por Flávio Morgado




Memória Ancestral III, Herbert de Paz, 2022



Artista salvadorenho radicado no Rio de Janeiro desde 2013, Herbert de Paz desponta como um dos pintores mais promissores de sua geração. Dono de uma paleta vibrante, há em suas telas uma reinvidicação da potência da pintura em seus aspectos tanto técnico quanto político.


Herbert endossa uma geração de pintores dispostos a pensar o decolonial, a história revisada, varrida a contrapelo. Uma pintura que se impõe como registro e como medida de um gesto de releitura.



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FM - Herbert, como foi o processo de vinda para o Brasil, de que maneira esse deslocamento marca o seu trabalho?



HP - Eu sou da geração pós guerra, nasci no ano da assinatura dos Acordos de Paz e depois da guerra civil El Salvador continuou sendo dos territórios mais violentos com a maior taxa de assassinatos do continente, eu cresci nesse lugar ultra-violento, lembro de ter sido assaltado mais de 7 vezes com arma entre meus 17 e 20 anos, enfim, isso é o que mais acontece por lá todos os dias quando você se desloca a pé e no transporte público. Essa realidade afeta todas as possibilidades de desenvolvimento das pessoas. Não é a toa que somos um país de migradores, e somos dependentes economicamente dos Estados Unidos, que é onde as pessoas geralmente migram de maneira ilegal, vê as caravanas de migradores que saíram pelo território em 2018. Quando eu tinha 19 anos eu senti a vontade de sair do país porque estava totalmente inconformado com a minha perspectiva de desenvolvimento lá e fui pesquisar lugares nos quais eu poderia estudar de graça e na época soube de um programa de intercâmbio do governo brasileiro que existe há décadas. Eu tinha estudado arquitetura e depois entrei num curso de design que abandonei depois de dois anos. Na época fui trabalhar no telemarketing para juntar dinheiro e fazer curso de português com o plano de concorrer a uma dessas vagas de estudo e foi assim que consegui vir estudar na UERJ no curso de Artes Visuais em 2013. Eu tinha 21 anos e não tinha noção nenhuma do que seria fazer esse movimento. Meus primeiros anos morei de favor em casa de um amigo em Laranjeiras e isso me facilitou muitas coisas. Eu comecei uma vida do zero aqui, sem conhecer ninguém e trabalhei desde o início. Meu primeiro emprego aqui foi num restaurante a quilo perto da Praça da Cruz Vermelha, no início era só para panfletar e entregar quentinhas, quando vi tava limpando mesa, lavando louça e fritando pastel, trabalhava das 9 as 15 e ganhava $20…depois disso trabalhei como recepcionista de um hostel em Copacabana por 6 meses, logo consegui uma recepção no Vidigal e foi assim que consegui deixar de morar de favor e fui morar em Vila Isabel com uma amiga. Depois disso comecei com as mediações em exposições e foi no MAM onde trabalhei por mais tempo em diferentes momentos entre 2014 e 2019, eu criei uma relação muito íntima com o MAM e o acervo, acho que isso influenciou muito meus interesses na pesquisa.


Para mim é importante falar sobre isso porque é minha experiência como imigrante e jovem estudante de arte, eu sou mais um dos milhões de salvadorenhos que decidem migrar só que ao invés de eu ir pro norte, como a maioria, eu vim pro sul em busca de oportunidades de desenvolvimento, porque mesmo sem conhecer nada do Brasil, eu achei que aqui eu poderia me expandir muito mais do que se eu tentasse ir para os Estados Unidos. Hoje em dia eu tenho mais clara algumas questões da minha trajetória, eu fui ter essa reflexão de imigração recentemente.


Acho que esse deslocamento me fez refletir sobre o que compartilhamos enquanto povos colonizados e olhar para o passado para procurar respostas aos estragos culturais gerados pela colonização, o racismo e a desigualdade. Eu gosto de pensar nossos territórios além das fronteiras geográficas e sociopolíticas e focar nas semelhanças que vêm pelas histórias de resistência. Eu me identifico muito com as palavras da Lélia Gonzalez quando ela fala da Améfrica, ou seja, pensar nossos territórios pelas semelhanças culturais do encontro entre os povos originários do continente Americano e originários da África.




A invenção da América, Herbert de Paz, 2021




FM - Existe uma assinatura pictórica nas suas telas: a paleta vibrante, os temas, uma poética claramente identificável. Como você pensa essa identidade do trabalho, não só no sentido de querer saber as suas referências, mas como articula essas referências na intenção de uma autonomia da própria criatividade, algo sempre caro a qualquer artista?



HP - Minha prática se dá através da colagem e da pintura e nas possibilidades plásticas que estes veículos me proporcionam para trazer e compartilhar narrativas do passado e do presente. Me interessa muito visitar a História para trabalhar com questões do imaginário e destacar fatos e personagens que não tiveram suas histórias devidamente valorizadas. Na colagem, me interessei por aprender pela História do Brasil e refletir sobre o protagonismo dos povos originários e dos povos africanos cujas culturas foram ofuscadas pelo "anseio civilizatório" imposto pelos europeus no nosso continente. Eu visito o passado a través de uma prática arqueológica sobre estas imagens, entendendo que elas foram feitas para servir aos regimes colonialistas que nunca deram espaço para a auto-representação, ou seja, nós aprendemos uma História que favorece um determinado grupo minoritário que detêm o poder, os colonizadores e seus descendentes (ver a serie Iconogafia das Sombras). Neste processo, surge a minha prática de pintura como um desdobramento das colagens. Em um primeiro momento me interessei por pintar a partir de registros arqueológicos da arquitetura mesoamericana, propriamente a dos Mayas, que ocuparam o território que vai do sul do México até o ocidente de El Salvador. Com o tempo fui aprimorando o meu interesse pelo tema e investiguei uma dimensão mais mística da cosmovisão ancestral deles (ver pinturas O Guardião do Sonho, O sonho, Lua Cheia). Eu quero retratar esse resultado do encontro dos povos originários e os povos africanos que aqui chegaram e instauraram um legado de luta e resistência pela dignidade nos nossos territórios (ver pinturas Memória Ancestral, Encontro, Resposta, Levante em Saint-Domingue). Em trabalhos recentes tenho refletido muito sobre a celebração pela dança como forma de resistência e a riqueza cultural que os povos indígenas e africanos (ver pinturas Triunfo dos Cucumbis/Festa de Santa Rosália, e Dança dos Historiantes). Eu não saberia explicar as escolhas cromáticas mas gosto de explorar as possibilidades que a pintura me oferece.




Dança dos Historiantes, Herbert de Paz, 2021



FM - No texto de apresentação de "Ibirapema", individual sua na Galeria A Gentil Carioca, Aldones Nino escreve que seu trabalho "entende a linguagem pictórica como um dos eixos possíveis de prefiguração do mundo, afirmando propostas estéticas em oposição às imagens orientadas por métodos interpretativos e fundados a partir de espectros traumáticos e violentos.". E com frequência, a sua pesquisa é orientada pela reinterpretação do passado colonial, colendo imagens de livros didáticos, revistas científicas, documentos oficiais...como é esse método? As escolhas, o momento que o trabalho começa, qual a urgência desse trato, dessa revisão, com o passado?



HP - Eu me interesso pelas imagens do passado e como elas serviram para sermos ensinados a imaginar ele. Entendendo que esse passado é inventado, então existem outras alternativas para imaginarmos o passado, outras prefigurações… ou seriam pós-figurações? Estas imagens antigas foram feitas para alimentar o imaginário colonial e de dominação e para registrar cotidiano, então elas tem essa dimensão de arquivos. Sou movido pela ideia de uma arqueologia de imagens, como se fosse desenterrando mesmo. É nesse lugar que eu me encontrei com a pintura, re-imaginando o passado por meio do estudo destes arquivos, pensando em outras configurações. Para mim é urgente que essa informação seja consumida porque que acredito que tendo essa noção histórica amplificada, podemos também prefigurar o futuro. Quanto mais conseguimos modificar as ideias do passado, abrimos brechas para imaginar o futuro menos colonizado.




Resposta (Morte do Capitão Cook), Herbert de Paz, 2021



FM - Esta edição de maio d'A Palavra Solta é de alguma forma uma homenagem, ou na melhor das hipóteses, uma fagulha à discussão sobre a emancipação social da população negra. Na seção de Política, entrevistei a professora Jamile Borges sobre esse tema, e uma de suas falas que mais me chamou atenção (e acaba dando título à matéria) é em torno do que ela chama de uma "Musealização da dor": "a gente patrimonializou a dor, e não patrimonializou a luta". O que você entende por isso? Em que medida, ao assumir uma bandeira decolonial (esse conceito tão caro hoje ao mercado), é preciso estar atento ao que em nome dessa "musealização da dor" se abstém de uma narrativa de resistência?



HP - O que você chama de bandeira decolonial, não é valorizado exclusivamente pelo mercado, na verdade isso é uma consequência de uma prática política que visa repensar as ideias herdadas pela colonização nos aparatos de cultura. Quando se fala em “musealizar a dor” eu entendo que esse o processo que dá origem aos museus modernos: expor numa vitrine ou parede aquilo que foi de outros povos (os que foram vencidos) mas que agora pertence à intelectualidade branca e colonial de um território que os exibe como trofeus. Pensando na arte contemporânea isso pode ter outras leituras, o que eu acho é que devemos ser extremamente cuidadosos na hora de falar de certas narrativas e ainda mais quando elas não fazem parte do nosso repertório de vivências. É um erro da branquitude querer assumir o protagonismo de algumas pautas e é pior quando isso alimenta o que conhecemos como racismo recreativo.

As imagens do passado são cheias de violência e quando eu mexo com elas eu assumo a responsabilidade de não reproduzir certas imagens de abuso (que existem a montões) porque acho que é mais importante priorizar as narrativas que fortaleçam outro tipo de valores. A origem destas imagens já é tendenciosa, a partir do momento em que elas não são auto-representações, são representações daquilo que foi “o outro” por muito tempo e cada vez mais estamos vendo que esse “outro" deixou de ser viso como um objeto e agora pode se pronunciar depois de centenas de anos de exclusão pela empreitada colonial.


Acho que nas artes visuais existe a presença de mais artistas racializados nos dias de hoje contando sobre suas próprias narrativas e perspectivas de mundo, as instituições e o mercado deram mais abertura pela crescente demanda de quem consome mas devemos estar atentos às ameaças do liberalismo em absorver pautas políticas para fortalecer o capitalismo a través da famosa representatividade.




Corpo de Luz/ Estrela Matheusa, Herbert de Paz, 2021




FM - Há alguns anos, além das colagens e das séries de pintura, você vem pintando retratos da Matheusa, artista trans assassinada no Rio de Janeiro. Além de terem sido muito próximos, e toda importância afetiva dessas telas, como você lê essa lógica da repetição como afirmação de uma imagem? Como começa essa série?



HP - A ideia de pintar Matheusa veio muito antes de eu me dedicar exclusivamente a pintar. Ela era uma amiga da faculdade, compartilhavamos desse epaços académicos, sala de aula, corredores, varandas, bandeijão e também muitas ideias. Naquela época, fomos colegas também no curso de Formação e Deformação do Parque Lage onde foi o último lugar que nos vimos. Matheusa era alguém com quem eu conversava muito sobre o anseio de querer e poder ser artista. Depois do que aconteceu eu sonhava com ela com uma certa frequência e aos poucos fui entendendo essa vontade de retratá-la a partir dos registros que existem dela. A pintura possibilita essa conexão simbólica com a imaginação. Eu gosto de fazer essa homenagem próximo ao aniversário de nascimento dela que é no dia dia 21 de janeiro, é uma maneira de buscar uma proximidade com sua memória. Matheusa foi alguém que marcou nossa geração com sua personalidade e talento, para mim, fazer essa homenagem é levar ela junto na minha jornada e pintá-la é uma coisa que quero continuar fazendo.




Alegoria das Américas III, colagem sobre alumínio, 2022




FM - Há um esvaziamento cultural no país, proposital e orquestrado por um anti-intelectualismo bolsonarista, por pelo menos quatro anos. Isso gera um impacto imediato na absorção social do artista, e por outro, até por uma questão de sobrevivência, acaba por o colocar em uma posição vulnerável frente ao mercado. Como pensar essa articulação? Em resumo, como ser um artista no Brasil hoje?



HP - Eu me dedico exclusivamente à minha prática artística há dois anos, ou seja, eu me mantenho da venda e circulação dele há pouco tempo. A pandemia trouxe uma geração de artistas que entraram no circuito nesse movimento anormal, eu não sei explicar o motivo, mas entendo que houve um movimento do público que consome (e que compra) para consolidar estes nomes. Nesse sentido, a minha experiência tem sido a penas comercial, eu ainda não participei de nenhuma instituição cultural com algum projeto, então não posso dizer que o desmonte de aparatos culturais da atual política tenha afetado o desenvolvimento da minha prática. Uma maneira de se manter ativo nos dias de hoje é através da rede social e eu aproveito muito essa ferramenta.


Acho que existem inúmeras formas de ser um artista hoje em dia, uma delas é produzir coisas que façam sentido para você e que possam ser compartilhadas, se você puder viver disso ainda melhor. Não acho que por exercer outros trabalhos no meio disso você vai deixar de ser artista. Os artistas são comunicadores que refletem sobre seu tempo, então, é importante sim pensar em estratégias de circulação em instituições que facilitem o acesso ao público e não só pensar que o mercado é o máximo legitimador, ou como se só por participar dele houvesse uma certa relevância. Obviamente é importante você se manter do seu trabalho e até você não ser representado por uma galeria você vai experienciar os altos e baixos que qualquer outro trabalhador autônomo passa, a galeria te dá um suporte de produção e venda. O artista é um trabalhador e por mais glamour e conforto que o circuito te ofereça, isso não quer dizer que você é isento de vender sua força de trabalho. Além disso, para mim é importante compartilhar esses conhecimentos. Quando eu comecei a viver da venda do meu trabalho senti a vontade de me organizar eu movimento com o qual me identificasse, e como eu tinha trabalhado muito com arte educação nos últimos anos procurei a Lanchonete Lanchonete que frequento desde 2020. A Lanchonete Lanchonete, um projeto de arte e educação idealizado pela Thelma Villas Boas que opera na região portuária do Rio e que trabalha principalmente com as crianças em situação de vulnerabilidade, esse ano conseguimos montar um ateliê de desenho e pintura e eu dou oficinas lá e isso é algo muito importante para mim enquanto cidadão, o projeto atua na região há 7 anos e começou como um projeto artístico onde era a Saracura, um espaço autônomo de arte que não existe mais.


Ser artista no Brasil hoje em dia é você criar alternativas de sobrevivência à essa configuração capitalista, racista, reacionária e fascista para conseguir compartilhar suas ideias. E ainda acho que você tem que se divertir nesse processo… você tem que se divertir com você mesmo na hora de fazer, na hora de circular e de dar seu nome. Sou totalmente contra à ideia de que o artista tem que ser um fudido que sofre pelas contradições do sistema, é importante você ficar atento e manter suas convicções, afinal você tem que ter jogo de cintura para se promover e esse movimento legitimo tem que ser feito com todo seu amor pela coisa.






HERBERT DE PAZ é Natural de El Salvador e radicado no Brasil desde 2013. É Bacharel em Artes Visuais pela UERJ (2018) e é Mestrando no curso de História da Arte na mesma; estudou no Parque Lage, nas turmas de Fundamentação (2013-2014), Formação e Deformação (2019). Colabora como Educador Popular no coletivo Lanchonete Lanchonete. Cria pinturas e colagens a partir de imagens de arquivos para questionar as narrativas hegemônicas da história da colonização das Américas. Teve sua primeira Individual de pinturas –Ibirapema– na galeria A Gentil Carioca no Rio de Janeiro (2021).

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