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Uma entrevista com Antônia Burke, professora e líder do Programa Raízes

por Flávio Morgado



O ano devia ser 2013. Minha carreira como professor estava bem no início, e como quase todos, o começo se deu pelo preparatório para os vestibulares.


A bem da verdade, dei sorte, ao menos do ponto de vista financeiro, àquela altura, de ter empenhado parte do meu esforço na profissão em um plano de carreira na tal instituição. Não só pela grana em si, mas havia uma certa egrégora de novidade naquela sala dos professores: sempre dinâmica, gente de todo canto da cidade, uma galera que saía da universidade tinindo de tesão pedagógico. Isso explica muito dos anos de bons resultados.


Fiquei ali por alguns anos, posso dizer que, em matéria de disciplina, organização de uma sala de aula e até mesmo o desafio de enfrentar turmas muito adversas ao longo de um mesmo dia, acabou por me dar uma sagacidade boa como professor, mas faltava algo além do orgulho daqueles resultados. Conforme ia tentando me adequar à estrutura, fui passando por todos os segmentos que a escola oferecia (diferente de todas que vim a trabalhar depois, essa instituição não criava hierarquia entre os salários, então dar aula no Fundamental ou no Médio poderia de fato ser um desafio, e não "um rebaixamento"). E é numa dessas aventuras que esbarro com a professora Antônia Burke, primeiro na sala dos professores, depois como diretora. Pude acompanhar parte das mudanças implementadas por ela, sobretudo no que se diz respeito à "humanização do pré-vest": sair da lógica somente ligada à capitalização sob o desempenho, e permitir a porosidade de uma relação que leve em conta o aspecto sócioemocional do estudante.


No fim de 2018, pouco depois do anúncio de venda da instituição para uma holding, percebi que todo esse avanço poderia mudar drasticamente, assim como acabei dando outro rumo à minha carreira, e de outra forma, Antônia também - implementando o que havia começado na instituição anterior como um projeto mais expandido e nacional: o Programa Raízes. Depois de alguns anos de trocas no magistério, é bom contar com a Antônia no front e que ela tope vir trocar essa ideia aqui.



Fonte: Centro de Referência em Estudo Integral




FM - Antônia, prazer te reencontrar no magistério e obrigado por topar dar essa breve entrevista.

Em primeiro lugar, até por se tratar de um assunto que ainda não é unanimidade ou questão pública na educação: como foi e por que houve essa passagem de uma professora de cursos preparatórios (algo que em muitos sentidos, a começar pelo financeiro e passando também por um certo relaxamento das funções pedagógicas fora de sala de aula), que confere algum prestígio ou conforto, para a construção de uma pedagogia SocioEmocional? Algo inclusive que passa distante do que os cursos implicam em ansiedade e perfil de desempenho...




AB - Eu sempre trabalhei em cursos preparatórios justamente porque sentia a necessidade de passar uma visão mais humana do processo. O conforto financeiro também sempre foi um ponto importante, pois sou mãe solo e sabemos o quanto é difícil se sustentar sendo mulher no Brasil. No entanto, eu sempre fiz parte de projetos sociais quando criança - cresci em Santa Teresa e minha mãe trabalhava o dia todo, então nos deixava nesses espaços - então foi um caminho natural que eu permanecesse no voluntariado. O Submarino, primeiro projeto que socioemocional que eu criei, foi distribuído em diversos projetos sociais e ONGs durante anos, então eu sempre estive conectada a esse tema, não apenas porque enxergava essa demanda nas salas de aula em geral, mas porque também entendia o quanto uma educação socioemocional sólida me fez falta em alguns momentos e o quanto me ajudou quando esteve presente

Dessa forma, todo o meu percurso em salas lotadas de pré vestibular sempre procurei aplicar o que sabia e estudava. Tanto é que, em 2016, consegui a oportunidade de aplicar o projeto em todas as séries de todas as unidades da rede de ensino em que trabalhava. Esse trabalho foi o que possibilitou que eu pudesse, hoje, me dedicar exclusivamente à formação socioemocional. Ou seja, não foi uma transição, tudo sempre caminhou junto.



FM - Interessante pensar nesse caminho em conjunto, mas como você vê essa negociação entre a cobrança pelo desempenho, os prazos, tudo que envolve ansiedade do vestibular e uma pedagogia ampla, que realmente de conta desses aspectos socioemocionais? Outra coisa importante, seria entender qual a definição que dá a esse processo e a importância dele nesses espaços...



AB - Acho que é absolutamente possível aplicar conceitos de uma educação socioemocional no pré vestibular, assim como é possível e necessário que essa cultura esteja bem estabelecida nas empresas. É besteira e terrorismo dizer que “se você passou tranquilo pelo ano de vestibular, então não fez direito”, como muitos professores ainda gostam de dizer. Aprender e estudar não podem ser sinônimos ou causadores de tensão, medo ou ansiedade. No entanto, essa é uma escolha de cada instituição, infelizmente. Algumas pessoas já entendem que essa é a melhor opção, mas mudar dá trabalho, então provavelmente vamos demorar mais alguns anos para que essa seja a visão majoritária nesse meio.




Fonte: CENPEC




FM - E agora, de um ponto de vista mais prático mesmo, gostaria de entender algumas atitudes que tornam essa prática um fundamento de uma instituição: quais são os pilares, como isso é apresentado ao corpo docente e, de que forma, guia a condução do processo educacional?



AB - Para começar, toda a comunidade escolar precisa entender a importância desse processo, ou ao menos ser apresentada a ele. Isso porque não adianta muito ter um tempo de socioemocional por semana e ainda ter professores que dizem "ninguém passa na minha matéria" ou que fazem pouco caso de questões de saúde mental. E não são apenas os professores que precisam dessa capacitação: o pessoal da cantina, da recepção, da portaria...todos que compõem uma escola precisam saber como acolher, a quem encaminhar casos mais difíceis e como proceder diante de emergências. Quanto ao aspecto pedagógico, eu sempre trabalhei com base em três pilares: desenvolvimento emocional, que são as dinâmicas e atividades que trabalham as os aspectos subjetivos dos estudantes (empatia, autoestima...).


Tudo isso é conduzido pelo propositor. Chamo o facilitador dessa forma porque acredito que é impossível ensinar subjetividades, isso é papo pra vender socioemocional. Como eu, com a minha história, minha personalidade, minhas experiências, vou ensinar 30 pessoas, ao mesmo tempo, a lidarem com a raiva por exemplo? Impossível. O que eu preciso fazer é oferecer os recursos necessários para que cada um, à sua maneira, respeitando as suas próprias subjetividades, encontre a melhor forma de lidar com a própria raiva. Dá mais trabalho? Claro, mas não é pra dar mesmo, estamos lidando com cérebros e vidas em formação, não dá pra escolher o caminho mais fácil. Por isso, o propositor apenas propõe, ele não ensina: seja uma dinâmica, um debate ou um novo método de estudo, ele está ali para facilitar, não para impor o que ele acredita ou pensa

O foco é 100% no estudante, ele é incentivado (e nunca forçado) o tempo todo a falar, participar, dizer o que pensa. Eu acredito em um protagonismo intelectual e subjetivo verdadeiro e isso não é fácil de alcançar.







FM - A pandemia trouxe mais problemas ou possibilidades de repensar a escola?



AB - Eu acho que a pandemia não "trouxe" nenhum desses problemas, como muitos educadores costumam dizer. A pandemia escancarou vários problemas que têm se arrastado nas últimas décadas no que diz respeito à escola, à depressão, às crises de ansiedade, às fobias, tensões e angústias, ao bullying...tudo isso sempre esteve presente na escola. O problema é que a gente já não deveria, há muito tempo, ter a mesma escola de 150 anos atrás


O negócio é que hoje a gente tem mais informação e todos esses problemas ficaram incontroláveis depois da pandemia: toda hora sou procurada por professores e gestores que já não sabem mais o que fazer ou como lidar com a saúde mental de crianças e adolescentes nesse período de volta ao presencial, que ainda é muito recente.


Quando treino alguns professores, tem sempre algum deles que diz, com toda razão, "mas eu não sou psicólogo". Sim, é verdade....mas somos educadores. Logo, sempre estivemos suscetíveis a gatilhos emocionais. Uma vez, quando eu comecei a dar aula de Literatura, uma aluna teve um gatilho de um abuso sexual durante a leitura de um texto, no meio da minha aula. Talvez a grande diferença, agora, seja o fato de que estamos caminhando para que os educadores tenham mais recursos para acolher e que os alunos tenham mais recursos para expor o que sentem, pensam e querem.




Fonte: Valor Econômico, O Globo



FM - E como não pensar também no perigoso processo de "neutralização" do conceito. Digo isso, tomando até um partido pessoal, porque trabalhamos e nos conhecemos em uma instituição que vendia em alguma medida essa "humanização da escola" (o que ser um plus já diz muito sobre a nossa falência), mas que no fundo acabou servindo como capitalização. Não durou três meses após a compra das ações, e a postura pedagógica, que chegou a ser vendida como exemplo no mercado, ruiu. Ou seja, o que deveria ser uma prática, acaba sendo capturado por um discurso de mercado mesmo. Como lidar com essa negociação?



AB - Acho que o desejo de mudança depende muito mais de quem está em sala de aula do que dos gestores e grandes grupos que hoje compram as escolas. Tem muita gente boa trabalhando, acreditando que é possível construir uma educação mais humana, menos cruel do que tem sido. No entanto, ainda tem muito caminho pela frente. Claro que ainda há responsáveis e educadores que não enxergam o valor de uma educação socioemocional sólida e até mesmo aqueles que têm resistência porque não querem deixar de exercer o poder hierárquico a que estão acostumados. Mas a verdade é que essa é uma necessidade urgente. E os estudantes sabem disso, esse é um ponto importante. Eles se informam sobre saúde mental, sobre autoconhecimento, racismo, traumas…muitos já não aceitam o que antes era oferecido.


Viemos de gerações que tiveram pouco ou nenhum acesso ao socioemocional, que passaram a vida escutando que isso era menor, bobo…por isso que eu costumo dizer que não me considero especialista em socioemocional; e sim uma ativista do socioemocional. Nós, como educadores, ainda temos muito o que aprender, estudar, rever...

E isso leva tempo. Mas acredito, de verdade, que dentro de alguns anos vai ficar claro que a educação socioemocional não pode mais ser um plus nas escolas, uma coisa bonitinha que vende bem; vai ser algo obrigatório, essencial, vai ser impossível imaginar uma escola que não trabalhe as subjetividades.

Essa é minha luta hoje e acho que também é a de muitas pessoas, ainda que as resistências sempre apareçam.






Antônia Burke é professora de Redação há 15 anos e possui formação em psicanálise. Foi diretora do Colégio AZ até 2020 e lá desenvolveu o Projeto Submarino, que foi aplicado por 3 anos em todas as escolas da rede e no Instituto Reação, ONG do judoca Flávio Canto.

Atualmente, escreve colunas para o jornal O Globo e desenvolve o Programa Raízes, do grupo Raiz Educação.


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