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Roland Barthes e Arte Contemporânea: variações sobre a escrita

Atualizado: 22 de out. de 2021

com Marcelo Reis de Mello





ROLAND BARTHES E ARTE CONTEMPORÂNEA: VARIAÇÕES SOBRE A ESCRITA



Ao longo de cinco semanas, iremos confrontar o pensamento de Roland Barthes (1915-1980) e os trabalhos de artistas contemporânexs, de diferentes lugares e práticas, que investem no limiar entre o pictórico, o gráfico e o escritural: J. B. Murray (Sandersville, 1908-1988), Mira Schendel (Zurique, 1919 – São Paulo, 1988); Mirtha Dermisache (Buenos Aires, 1940-2012); Doris Salcedo (Bogotá, 1958); Leïla Danziger (Rio de Janeiro, 1962), Nina Papaconstantinou (Atenas, 1968) e Bianca Madruga (Rio de Janeiro, 1984). Com base principalmente em seu livro Variações sobre a escrita e no mais conhecido O prazer do texto, mas também em ensaios reunidos no volume O óbvio e o Obtuso, veremos que certa noção de escrita de Barthes (“uma escrita não tem necessidade de ser ‘legível’ para ser plenamente uma escrita”) contribui à leitura de parte da produção artística do nosso tempo, em que os signos não são articulados, necessariamente, para a produção de um “significado”. É assim que iremos nos aproximar um pouco do universo das escritas ilegíveis, escritas assêmicas ou escritas insignificantes, que se apresentam a nós pela impressão (Schendel, Madruga), pela cursividade (Murray, Dermisache), pela fissura (Salcedo), pela rasura (Danziger) e pela cópia (Papaconstantinou).


5 terças-feiras: 09, 16, 23, 30 de novembro + 07 de dezembro.


Investimento: 200 reais


Mínimo de 07 alunos


Idade mínima: 18 anos


Software utilizado: Zoom


Materiais necessários: computador ou celular e acesso à internet.


Aula 01 – Escrever o apagamento: Barthes e Leïla Danziger Neste primeiro momento, vamos ler e conversar um pouco sobre o que seria a “essência da escrita” para Roland Barthes, considerando as diferenças entre a publicação de O grau zero da escrita (1953) e Variações sobre a escrita (1972). Em seguida, à luz das variações, iremos ver e debater sobre os trabalhos da artista brasileira Leïla Danziger, com ênfase nas séries que envolvem o apagamento (“escrita de resíduos e ruídos”) de jornais impressos. A partir da repetição do gesto da artista-escritora, o objeto é despojado de suas funções convencionais, não informando muita coisa além da forma-jornal.


Aula 02 – Prazer da cópia ou o inferno da escrita: Barthes e Nina Papaconstantinou Para Barthes, “o prazer da pura cópia só acontece ao fim de uma longa iniciação: é uma sabedoria suprema (...)”. Na segunda semana, daremos atenção à artista ateniense Nina Papaconstantinou, que explora de diferentes formas a escrita enquanto cópia, pela qual o texto se torna textura. Principalmente nas séries Bookcase, Between the Lines, In Other Words, e em trabalhos como Dante Paradiso e Dante Inferno, o esforço do corpo parece coincidir com a sugestão de Barthes, em O Prazer do Texto, de que a teoria do texto é uma hifologia (hyphos = o tecido e a teia da aranha). Por isso é que “o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido nesse tecido - nessa textura - o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.”


Aula 03 – Escrever sem palavras: Barthes, Mirtha Dermisache e J. B. Murray Em Variações (...), Barthes afirma que “as escritas ilegíveis dizem-nos (e apenas isto) que há signos, mas nenhum sentido.” Isso tem a ver com a identificação da escrita com o ductus e a cursividade – uma pulsão rítmica – um modo mais ou menos livre de “correr”. Em carta de Barthes à argentina Mirtha Dermisache (em 1971), o escritor francês afirma identificar-se com seus cadernos de grafismos ao levarem “para os seus leitores não a mensagem, nem mesmo as formas contingentes da expressão, mas a ideia, a essência da escrita.” Esses grafismos se inserem dentro de uma anti-genealogia de escritas assêmicas (ou insignificantes), que, sem prejuízo às singularidades, compreende também o enigmático trabalho de J. B. Murray, um trabalhador rural não alfabetizado de Sandersville, interior dos Estados Unidos, cuja escrita divinatória (“spirit script”) remete a práticas rituais do oeste africano.


Aula 04 – Desejo de silêncio (Preferiria não): Barthes, Mira Schendel e Bianca Madruga A escrição não coincide com a busca pelo silêncio absoluto (= morte), que seria apenas a contraface perfeita da tagarelice. Obrigar a dizer e obrigar a calar são ambas expressões daquele que tortura a linguagem, tomando-a como puro corpo significante. Ao contrário, tanto nos objetos gráficos de Mira Shendel como nas impressões em carbono de Bianca Madruga, propõe-se um silêncio ruidoso: perversões sutis do “ter de dizer” ou “ter de calar”. No entanto, como negar-se à significação, sem cair na eloquência de um Não definitivo – significativo? Como dar uma resposta suspensiva à impostação de uma pergunta (isto que nos exige sempre um conteúdo, um sentido, uma finalidade)? A partir de Schendel e Madruga, pensamos tanto na resposta-performance do mestre Zen, relatada por Barthes, como na delicadeza (brandura) de Bartleby: “Preferiria não”. Escreve Barthes: “Minha perspectiva é a do desejo, não da lei: não o silêncio que seria preciso atingir, mas apenas o desejo de silêncio.” Aula 05 – A escrita pela fenda: Barthes e Doris Salcedo Barthes afirma, em Variações (...), que a escrita é uma tmese, ou seja, que ela “não é outra coisa senão uma fenda”. Em suma, “trata-se de dividir, de sulcar, de descontinuar uma matéria plana, folha, pele, lâmina de argila, parede.” Por essa fenda, em nosso último encontro iremos ver e falar um pouco do trabalho da colombiana Doris Salcedo, enfatizando uma “escritura-escultura” que ela apresentou em 2007 no Turbine Hall do Tate Modern, em Londres, sob o título de Shibboleth. Palavra que está presente nas Escrituras Hebraicas, sendo retomada por Paul Celan, em poema homômino, e depois por Jacques Derrida, que escreveu e apresentou um ensaio com o mesmo nome, em homenagem a Celan. Passaremos pelas ressonâncias históricas da palavra Shibboleth, entendendo por que Doris Salcedo produziu uma rachadura de 167 metros de comprimento por 50 centímetros de largura, que vai da entrada à ponta contrária de uma das galerias mais prestigiosas da Europa.



Marcelo Reis de Mello é poeta, crítico e professor de literatura. Doutor em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense, com a tese "Poesia, escrita insignificante: balbucio, desastre, apagamento". Atualmente é coordenador efetivo da área da literatura da Coart UERJ. Publicou, entre outros, os livros Elefantes dentro de um sussurro (Cozinha Experimental, 2017) e José mergulha para sempre na piscina azul (Garupa, 2020).

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