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Rádio Batuta publica fonogramas raros de Chico Buarque

por Pérola Mathias (texto originalmente publicado no medium Poro Aberto)





Projeto é fruto da pesquisa e seleção do jornalista Renato Vieira e Jennifer de Paula.



A Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, acaba de lançar uma playlist com 17 gravações raras de Chico Buarque que estão fora da discografia oficial do cantor. A seleção inclui versões das primeiras composições da década de 1960, como “A Banda”, “Tem mais samba” e “Carolina”; um jingle de natal encomendado a Chico por uma imobiliária e gravado em disco apenas para os clientes; além de versões ao vivo de um show na Nicarágua; a versão original de “Tanto Mar” e outras.


https://radiobatuta.ims.com.br/playlists/chico-buarque-raridades-analogicas


A pesquisa e criação do projeto é do jornalista Renato Vieira, que tem se dedicado em trazer à tona memórias inéditas da nossa música popular. Ele lançou em 2021 o podcast “O produtor da Tropicália”, série de 9 episódios em que o jornalista conversa com Manoel Barenbein. Também em 2021, Vieira revelou a descoberta de sete músicas inéditas de Belchior no Arquivo Nacional, cujas letras haviam sido mandadas pelo compositor para a Divisão de Censura de Diversões Públicas durante a ditadura, entre 1971 e 1979. Para o projeto com as raridades fonográficas de Chico Buarque, o pesquisador contou com a parceria de Jennifer de Paula na pesquisa do repertório e na digitalização dos áudios.


Renato Vieira já sabia de antemão da existência faixas de Chico Buarque gravadas para compactos e projetos especiais que não são conhecidas. Segundo o jornalista, “há, inclusive, uma história bastante conhecida: o compacto de “Apesar de Você” (de 1970) já tinha vendido 100 mil cópias, com “Desalento” no lado B, quando a Ditadura percebeu que a música era um protesto. Os compactos que estavam nas lojas foram recolhidos e o disco sumiu de circulação. Eu já conhecia a Jennifer de Paula, que me ajudou nessa curadoria e digitalizou os áudios, e ela tinha alguns compactos do Chico com músicas conhecidas, mas as versões eram totalmente diferentes das dos álbuns, coisas que eu desconhecia.”


A playlist está organizada em ordem cronológica e começa com uma versão de “A Banda” para compacto duplo lançado em 1966, mesmo ano em que a música se torna sucesso no Festival de Música Popular da TV Record, concorrendo com “Disparada”, e sai como faixa de abertura do primeiro disco do compositor, produzido por Manoel Barenbein. Na versão disponibilizada agora, ouvimos a marcha de Chico de fato acompanhada de uma banda completa — que contrasta com o instrumental reduzido da versão do disco.


Ainda em 1966 foi lançado um compacto duplo com duas das músicas que Chico Buarque estava apresentando no show “Meu refrão” na boate Àrpege, no Rio de Janeiro: de um lado, a faixa que dava nome ao espetáculo, em versão samba jazz, mais rápida do que a que conhecemos; de outro, “Noite dos Mascarados”, que, escreve Vieira para o texto explicativo no site da Rádio Batuta, foi composta para substituir a primeira música censurada de Chico, “Tamandaré”. Em ambas as versões o cantor é acompanhado da atriz e cantora Odete Lara e do grupo MPB-4.


Em 1967, foi a vez do lançamento do compacto simples “Roda Vida”, cujo lado B trazia “Até pensei”, uma primeira versão para a gravação que viria a se tornar definitiva no álbum Chico Buarque de Hollanda Volume 3. No mesmo ano, saiu também o compacto “Carolina”, no qual foi incluída uma nova versão para “Tem mais samba” — música seminal para delinear o estilo cunhado nos primeiros anos de carreira.




LP Chico



“Carolina” também consta na playlist, mas não a do compacto citado. É a penúltima música do compilado, uma versão gravada em 1987 para o projeto Há sempre um nome de mulher. Ela é apresentada como um choro, com ritmo marcado pelo pandeiro, somando-se ainda um arranjo orquestral que, como revela Renato Vieira, foi feito pelo maestro Orlando Silveira e teve assistência de produção do compositor Maurício Tapajós.


“Tão bom que foi o natal” é, certamente, a música mais inusitada da seleção. É difícil imaginar Chico Buarque compondo um jingle publicitário, mas o fato é que a música é uma marchinha de refrão simples, que repete os versos “tão bom, tão bom, tão bom / tão bom que foi o natal / ai, quem me dera fosse / o ano inteiro igual”, com estrofes que começam com uma visão pueril da data e chegam a reflexões mais profundas, seguindo o andamento alegre da melodia. Por fim, relata o fim da noite do Papai Noel, que não parece tão feliz quanto a das crianças que completam suas coleções de brinquedos e doces: “Papai Noel volta só / Papai Noel volta a pé / Papai Noel sem trenó / pra casa sem chaminé”.


Da parceria de Chico Buarque com Tom Jobim, talvez “Sabiá”, apresentada em 1968 no III Festival Internacional da Canção, tenha sido a música que ganhou maior projeção naquela década. Mas, antes do evento televisivo, os dois dividiram o palco para executar a música “Bom Tempo” em show para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Chico na voz e Tom no piano, além do grupo vocal 004. O show foi gravado em disco e lançado pelo próprio museu em 1968.


Da leva de músicas que foram censuradas pelo regime militar, temos aqui a primeira versão de “Apesar de você”, em que a cuíca é a grande protagonista do arranjo, e a gravação com letra original de “Tanto Mar”, de 1974, que só foi lançada em Portugal, e começa da seguinte forma: “Sei que estás em festa, pá / fico contente / enquanto estou ausente / guarda um cravo para mim / eu queria estar na festa, pá / com a tua gente / e colher pessoalmente / uma flor no teu jardim”. A letra tem diversas outras diferenças com relação à que conhecemos, do disco de 1978.


O que mais chama atenção no compilado de raridades de Chico Buarque, no entanto, foram as faixas que misturam a referência de Chico Buarque ao samba e à marcha de carnaval carioca a outros ritmos. “Quadrilha”, parceria com Francis Hime, foi composta e gravada para filme de Alex Viany. Se em 1979 Chico havia desembarcado em Cuba com diversos artistas e compositores para comemorar o aniversário da revolução, em 1983 participa da gravação ao vivo de “Abril em Managuá”, evento ocorrido na Nicarágua pela paz na América Central, ao lado de Fagner. Eles fazem parceria em “Não existe pecado ao sul do Equador”, que aparece em versão frevo e faz dobradinha com “Batuquê de praia”, que já era parte do repertório do cearense. A sessão é para carnavalesco nenhum do Brasil botar defeito.








Da seleção feita por Renato Vieira e Jennifer de Paula, podemos ouvir ainda “O que será”, “Desalento”, “Jorge Maravilha” e “Desalento”. A pesquisa e os áudios trazidos a público são de extremo valor não apenas para os demais pesquisadores, mas para todos os amantes da música brasileira.

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