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Quatro poemas inéditos de Fabiano Calixto






O linchamento de Mary Turner


Sábado, 18 de maio de 1918,

Valdosta, Geórgia,

Estados Unidos da América.

A jovem afro-americana

Mary Turner, 19 anos,

grávida de oito meses,

recém-viúva,

denuncia o brutal assassinato

de seu marido

por milícias supremacistas brancas.


Domingo, 19 de maio de 1918,

Mary Turner é violentamente sequestrada

de dentro de sua casa

por mais de uma centena de pessoas brancas.

Com mãos e pés amarrados,

é pendurada de cabeça para baixo

numa árvore com troncos robustos.

É embebida em gasolina e óleo diesel.

Ateiam fogo ao seu corpo.

Mary Turner, viva e em chamas,

estertora de dor e desespero.


Do meio da multidão,

um homem branco

avança com um facão

e abre o ventre de Mary Turner.

Caído da barriga aberta,

o recém-nascido berra.

Vísceras se misturam à terra.

Um outro homem branco

salta do meio da turba

ergue sua bota

e violentamente esmaga

a cabeça do bebê.


Alguns segundos

de silêncio de morte

e os brancos sacam suas armas,

miram os corpos

da mãe e do filho,

e abrem fogo.


O sol apodrece em silêncio

sobre as magnólias sulistas.

Sangue nas folhas e raízes.

A multidão, satisfeita, ri.



_________________



Reza brava

Para Rakim


na miserável terra de ninguém

thinkin’ of a master plan

sorvo o ouro do algum alívio

de estar livre, atento, forte e vivo

tateio o travo, o trevo, a treva [o trívio]

bebo a manhã que se abre como hibisco

e, decerto, ouço aquele que mediu o deserto

aquele que extraiu ao coração da rua

a fera palavra potável que flutua

palavras polidas com plaina

rimas afiadas no torno mecânico

vidente vulcânico, rei dos poetas

exu driblador, inventor epifânico

preza peso, destreza, potência

perícia, peripécia, dignidade

na névoa-nada, o que vale

Aquele-Que-Sabe


Rakim [carne de pescoço]

encarna a crua arte de rua

olha olho no olho no rosto do osso

faz, sagaz, a assaz rima veloz

a fera fúria que flutua e apraz

foz onde pássaros de jazz

plantam as plantas dos pés

cantam e cedem à sede

no crivo do impossível

no vivo do inviável

a rima requer um rim

e Rakim é o fim

estopim do Queens

[nada de meia-palavra

nem papo-capim, papo-alfafa

bala de festim ou coisa assim]

febre do raro, poeta-sabre

veneno de cobra-coral

Nada é melhor, já dizia Kurtis Blow


Rakim,

pleno domínio material

flow sanguíneo, concreto

atina, espadachim insurgente

a morte não terá domínio

jaz doente – ao cindir sempre

just when things seemed the same

and the whole scene is lame

ruge o rei à cena sem lei

proletário paradigmático

na ripa, aplica o inexplicável

estouro estirpe estalo estilo

doma a mágica carbonária

direto do irreal real lodoso

pelas brechas de sol do barraco

contra a corrente reacionária

da extrema-direita canalha

[Pai, afasta da gente esta taça

de vinho tinto de horror e desgraça]


no mar vermelho de sangue

que corre pelas ruas, becos, vielas

perifas, palafitas, mangues, favelas

régua das tragédias sem trégua

da ilusória turmalina do aqui

a fé entoa rajada de metralhadora

sobre o abismado abismo

[sem mimo ou mímico,

estamos à própria sorte]

medo, morte, abalo sísmico

a vida-inteira-trincheira

por isso a labuta bruta,

a muda de luta diária

no colorido jardim da cuca

pétala da flor do novo

todo poder ao povo!


aérea ária ao raiar do sol

seu poema-arsenal,

rajada de hk, antimonturo,

protege da morte o futuro

cria ontem a rima de sol

que soou em flow hoje

sina de ouro de mina

posse de palavras minadas

límpida água vocabular

farinha de macaxeira

oxigênio direto no pulmão

ar ar ar ar ar ar ar

alimento substancioso

fruta gogoia que refresca bem

thinkin’ of a master plan

o corre, a treta, a guerra de troia

treco e atrito, balanço de trem

movimentos movimentam


Rakim, il miglior fabbro

coração exilado de ostra

arrima saúde e espetáculo

fogo de pira, rara joia

cânfora na aurora

pérola na boca da memória

o brabo bardo que criva

de furiosa rima viva

[recém-saída da saliva]

a realidade besta-fera

do bestial sistema antivida

dessa eterna miséria


assim, God mc

contramorte rima e respira

contramorte brisa a brisa luta

sua poesia, um Oriente

ao oriente do Oriente,

arma antiasfixia, guia

ginga gíria ganja alegria

craque da era do boom bap

poeta do xeque-mate

alta precisão motz el son

inventor que colore o sol

cria um som e outro sol

outro som em outro tom

com a ten são de outro sol

outro sol mais outro som

e outro som e mais um sol

aspira expira conspira

incêndio de mil sóis

acende a rima e a pira




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Abre o amanhã, camarada


Abre a manhã, camarada, com tuas mãos,

tuas próprias mãos, calejadas e sanguíneas.

Abre a manhã como a uma fruta madura

cuja doce polpa repartida alimentará a todos.

Na labuta, prepara a luta, acende o sol

que derrama luz sobre o dia material,

de café, manteiga e pão, de suor e susto,

de trabalho proletário nas fábricas do mundo.


Abre a manhã, camarada, como à janela

da casa, como ao coração antigo do bairro

– este bairro que canta o fim do Estado burguês

em cada uma de suas casas, ruas e vielas.

Como a palavra impossível (de proteína pura)

cuja substância determina sua consciência

– palavra de fogo e força que fala pela nossa classe,

palavra certeira, tiro na cabeça do zumbi.


Abre a manhã, camarada, futuro do presente,

que ilumina o muro onde garotos pixaram:

Trabalhar todos, trabalhar menos,

produzir o necessário, redistribuir tudo.

Abre o amanhã, camarada, na batalha renovada,

deixa o chorão chorar, traz azeite na peneira.

Defende o inevitável amanhã contra o horror,

como o jovem chinês que, ao lado do seu fuzil,

lê Lênin sob a sombra de uma cerejeira em flor.




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Três quadras líricas


Palavra de operário, feita na forja,

antiprolixa, não faz curva, não afrouxa.

No turno a turno no torno, do aço

fabrica o inconsútil voo do pássaro.


Palavra de bom cultivo, civil e cítrica,

semeia a noite frugal na noite física.

No coração do assentamento é cozida

a palavra-alimento que nos cultiva a vida.


Palavra guerreira de Ogum, abalo sísmico,

que guarda e resgata os filhos do abismo.

Palavra pujante de poesia, flor no monturo,

lirismo futuro que a quem nada tem dá tudo.




Fotografia: Natália Agra



FABIANO CALIXTO nasceu em Garanhuns (PE), em 1973. É poeta, editor e professor. Vive na cidade de São Paulo com sua companheira, a poeta Natália Agra, com quem dirige a editora Corsário-Satã. Doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (usp). Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Música possível (CosacNaify/ 7Letras, 2006), Sanguínea (Editora 34, 2007), A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013), Equatorial (Tinta-da-China, 2014), Nominata morfina (Corsário-Satã, 2014) e Fliperama (Corsário-Satã, 2020). Seu novo livro, um auto de natal, será lançado no fim de 2022.






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