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Psicanálise na rua: ou os vivos querem falar

por Thiago Oliveira Vieira





Em 14 de Outubro deste ano, a atriz Denise Fraga divulgou nas suas redes sociais uma carta que a encontrou via o Sumaúma, jornalismo realizado por Eliane Brum e sua trupe na Amazônia. Na leitura, a atriz diz emprestar a sua voz, mesmo sabendo todas as diferenças que ocorrem entre autora e leitora, para ressoar mais e mais a voz de Natalha Teófilo, 33 anos, feminista quilombola, líder camponesa e refugiada no próprio país - Amapu, Pará.

Ao ser atingido por essa fala, pensei: Natalha está morta. Não cabe a mim ser vidente, nem leitor de futuro, mas estávamos entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais. O bolsonarismo já tinha posto sua família no lugar que eles achavam devidos. Fora de casa, na rua, escondidos. Natalha tenta crê em Lula, Natalha crê em Bolsonaro.


A sua carta muito me causou e me trouxe poucas elocubrações, é crua. Ela está morta tanto quanto Primo Levi. Uma experiência me levou à outra. Uma escrita me levou à outra. Lembrei de Primo Levi e sua literatura de testemunho, “é isto um homem?”, em que ele narra os dias no campo de concentração e os desdobramentos da iminência de morte.


Estas literaturas rotineiramente circulam pelos espaços de ensino e trocas psicanalíticas, o testemunho impele ao que viveu falar, para dar conta do vivido, e convoca o leitor no campo do registro, declaro ter visto e ouvido. Isto muitas vezes é pouco, é quase nada. Outras vezes, é o necessário. Não porque o leitor dá vida ao que escreve, mas sim porque ecoa suas próprias palavras a ponto dele poder ser ouvido, se escutar. “Não faço planos de morte, só de vida”, “precisamos acreditar que nossas vidas são preciosas”, diz Natalha.


A diferença entre a pele da atriz e a pele da quilombola está posta desde o início do vídeo. A diferença entre a pele da leitora e a pele da autora estão postas em todas as suas implicações “são os brancos que ocupam determinados lugares neste país”, isto também quer dizer, lugares de vida e lugares de morte. Estas aspas, esta fala não é uma situação em último caso, é o ponto de muitas partidas.


Me recorro a estes dizeres; à Denise; à Eliane; à Natalha, seu esposo e 4 filhos para falar sobre psicanálise na rua porque essa iminência me afetou. Busco ao mínimo ser retórico e enodar assuntos que pouco tem em comum, tento seriamente situar a escuta onde ela precisa estar. O corpo do analista não pode ser desafetado. Qual é o lugar da psicanálise? Qual é o lugar do psicanalista?



Agosto de 2019. Correio Brasiliense


Essas perguntas me tomam desde o início da formação, mas confesso que elas ganharam mais impacto e virulência no nosso atual momento, nossos marcos civilizatórios estão suspensos e em xeque. Uns querem o direito de existir a mais do que outros; outros querem o direito de existir e de diferentes formas. Onde se situa o limite à fala fascista? Como se movimentar para escutar à quem nem o Estado permite a fala?


O psicanalista argentino, Antonio Lancetti, exilado político no Brasil desde 1979, escutador afinco na luta antimanicomial e no enfrentamento à dependência de crack e outras drogas, sintomas que escoam nas ruas, nos diz que “devemos ir onde não somos chamados”. Mas nessa mesma fala, ele diz como isso soa incompreensível aos ouvidos lacanianos, que só vão aonde tem demanda.


Mas quando historicamente que essa postura dos psicanalistas deixou de ser entendida como uma das posturas possíveis - a mais ortodoxa, por sinal - e passou a ser a regra? Quando o trabalho em consultório se transformou no maior vetor das nossas formações se nem Freud pensava assim e nem o contexto brasileiro se encaixa nesse modelo?

Digo que nem Freud pensava assim, pois na Conferência de Budapeste, há mais de cem anos (1918) ele já apontava as diretrizes que via para o campo psicanalítico:


É possível prever que a consciência da sociedade irá se despertar, e fará com que se lembre de que o pobre deve ter tanto direito à assistência para sua mente quanto dispõe do auxílio médico; de que as neuroses ameaçam a saúde pública não menos do que a tuberculose, e tampouco podem ser deixadas aos cuidados impotentes de membros individuais da comunidade. Então serão criadas instituições e clínicas ambulatoriais, aos quais serão designados analistas preparados. De forma que homens que de outra forma cederiam à bebida, mulheres que sucumbiriam sob o peso das suas privações, crianças para as quais não há escolha, a não ser se converterem em selvagens ou em neuróticos, possam se tornar capazes por meio da análise e de trabalho eficiente. Tais tratamentos serão gratuitos. Pode ser que passe um longo tempo antes que o Estado chegue a compreender como são urgentes esses deveres. [...] Tais instituições, provavelmente, iniciar-se-ão graças à caridade privada. Mais cedo ou mais tarde, contudo, chegaremos a isso.


Tanto essa postura freudiana, retomada pelo livro primoroso da professora Elizabeth Danto, as clínicas públicas de Freud, quanto o contexto brasileiro pouco se alinham com a ortodoxia habitual que nos vestimos. Nossas universidades públicas fazem parte de grande escopo de formação dos analistas, não só as instituições psicanalíticas, isso confere mais oxigenação e diversidade nas formações. Diversos serviços públicos de saúde mental no brasil contam com psicanalistas em seus corpos psicológicos. Os ensinos e as transmissões em psicanálise ganharam novos vetores interessantíssimos no Brasil, nos últimos anos: Youtube, Instagram, Podcasts.


Então porque mesmo assim, trabalhos de psicanálise na rua que acontecem país à dentro: em São Paulo, Rio de Janeiro, Cuiabá, Campinas, Brasília são vistos, muitas vezes, como filantropia (eis aqui um pecado psicanalítico) e sendo realizado por analistas culpados e que misturam política e clínica? Sendo que podiam serem lidos como a psicanálise seguindo seu caminho e ocupando os devidos lugares, os cantos da cidade. Os centros e as margens do tecido social.



Agosto de 2019. Correio Brasiliense



Particularmente, não conheço nenhum analista que fale abertamente ser a favor da desigualdade social. Mas quando posturas de escutas inventivas são lidas como filantrópicas, e nisso contém um erro; quando há um apagamento, ou pelo menos falta do acento devido à essa indicação freudiana; quando analistas que fazem o movimento de ganhar a rua são lidos como um sintoma, “não lidam bem com a diferença, querem salvar o mundo”. Nisso, não é possível dizer que esses tipos de leitura estão em dissonância com o nosso social e que as formações ortodoxas não estão levando em conta a própria desigualdade que atesta ver? Esse tá ruim, mas tá bom não é o próprio conceito de gozo?!


Penso que ao longo desses anos de psicanálise, muita fala se perdeu e diversas posturas de ensino se modificaram. Nenhum analista precisa dar conta da desigualdade e ter a obrigação de encarar os sintomas brasileiros. Mas é muito estranho que em uma teoria em que tanto se diz em singularidade e que existe uma gama de letras pouco se escreveu, ao longo dos anos, sobre como a extensa maioria dos analisandos em consultório são de uma mesma classe social, habitantes dos mesmos espaços geográficos e sem variação de tonalidade. Cinquenta tons de branco.


É óbvio que a classe média, classe média alta sofre. É obvio que as pessoas de pele branca e das zonas mais abastadas também. Mas até que ponto é possível desdobrar a citação de Freud “um analista só vai com uma análise até onde ele foi com a sua própria análise”? Os desdobramentos edípicos dessa frase são simples de ler. Mas sabemos escutar os efeitos intrínsecos do racismo? Temos escuta para outra classe social que não a nossa? Estas perguntas são necessárias, pois o próprio corpo analítico é socialmente muito parecido, visto que o acesso ao lugar de analista é também muito dispendioso.


Quando a psicanálise vai à rua é um outro desejo clínico querendo respirar. Legítimo. E de ventilação não só aos analistas que se metem nessa empreitada, mas a própria teoria que se interroga e se recria a cada escuta que se faz. Não é só o atendimento em consultórios e empreitadas sistêmicas e rigorosas na rua que estão em jogo, mas sim o lugar da escuta no nosso tecido social, o estilo de formação e os possíveis lugares – públicos e privados – de ocupação de novos analistas e a instrumentalização política de um saber à mão de qualquer um que queira. Porque não pensar também na importante circulação de mais um instrumento contra os discursos fascistas?


Em um país literal, temos que ser metafóricos. Psicanálise na rua é Streaming, Maria Homem no Youtube, mesa de bar, Christian Dunker no falando nisso, conversa política entre amigos e Safatle. Tudo que faça esse saber circular de forma afetiva e rigorosa aos estudos é primordial à um letramento auditivo. Mas em um país literal, não é possível ser metafórico, as ruas estão cheias, o Estado capitalista se constitui nessas disparidades. Por que não cavar pequenos furos descendo para escutar às ruas?


Em psicanálise aprendi a caminhar por perguntas. Algumas que fiz, não tenho respostas. Em outras, tenho as minhas. Mas mesmo assim as faço porque são questões pertinentes não só a mim, mas à uma gama de pessoas. A diferença entre a pele de quem fala e a de quem escuta também aprendi a reconhecer em análise, é impossível sentir a dor do outro. Autor e leitor vivem mundos diferentes, mas é possível a ponte, é possível a escuta. Será que só existe uma Natalha gritando que está viva ou existem mais? Se uma pluralidade de pessoas não chega aos consultórios significa que elas não estão demandando ouvido?


Por isso, desejo profundamente que transformemos o incompreensível em estrangeiro e que a psicanálise passe por uma asfalbetização (aglutinação de palavras ao estilo lacaniano: que nos alfabetizemos de rua e que isso traga todas as riquezas e borramentos teóricos possíveis). E que todos os ouvidos possam te escutar, querida: a arte, o jornalismo, o Estado e que os analistas não se apartem disso. Nossa aposta sempre será o desejo que a escuta opere algo.

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