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Por uma ética cósmica

por Maria Bogado





antes que resseque, da série seus raios são tentáculos, 2022

lápis de cor e giz pastel seco sobre papel

30 x 42 cm cada




Conheci Arorá viajando. Cheguei em Salvador direto na casa das amigas Anis e Sumé e instalei minhas coisas, cuidadosamente, no quarto onde ela dormia. Quando o casal já tinha ido se deitar e estava sozinha no terraço sob o céu cheio de estrelas, Arorá acordou e se apresentou assim: despertando ainda de noite. Era 2021 e por mais que viajássemos, estávamos condenadas, ainda, a um certo grau de confinamento. E foi nessas bordas que começamos nossas conversas: criando saídas nos terraços, nas salas, diante de um projetor, ao som das pequenas caixinhas que ressoavam os filmes e as músicas de outros tempos. Cantamos e dançamos cercadas pelas paredes: marcadas, como todos nesse país, pela morte. E aguardando, como muitos nesse país, encontros de vida.


Nessa noite cheia de vento, conversamos muito sobre cinema. Luz em movimento. Antes de Arorá chegar, em looping, estava ouvindo Araçá Azul (1972), canção de sonho e segredo. Achei engraçada a proximidade entre esses nomes: Araçá e Arorá. Coincidências, achados. A letra de Caetano diz “Araçá Azul é sonho segredo, não é segredo”. E talvez já estivesse aí, nesse verso ofertado pelo acaso, uma chave paradoxal para compreender seu trabalho, que só viria a conhecer mais tarde: é e não é segredo.


Foi também o acaso que me mostrou um dos seus trabalhos que me parece ser um dos centros conceituais mais pulsantes de sua poética. Estávamos na minha casa, ouvindo Itamar Assumpção, que, aliás, não lembro ter sido escolha minha ou dela. Lampejo de montagem, de novo, involuntária. A voz grave de Itamar fala de uma boca que dá água na boca e “vontade de sugar, bem devagar, gota por gota, Beija-flor beijando a flor, com borboleta”. E, logo adiante, confessa que dá uma vontade de ir para “qualquer lugar, pra aquela gruta”. Mais uma vez, um encontro que leva a outro lugar, qualquer lugar. E foi de repente que um espelho, que estava na sala, caiu no chão derrubado pelo vento. Quebrou em uns quatro pedaços grandes. Ainda meio afoita, vi Arorá recolhendo os cacos e os dispondo nos cantos da sala totalmente invadida pela luz de manhã alta. Ela se movia com a serenidade de quem faz cálculos precisos. Um dos pedaços de espelho, segurava em suas mãos, se esgueirando na parede, quase na ponta dos pés para encontrar o melhor ângulo para posicionar um vértice. Segurando o mais alto possível, apontava esse espelho para um dos outros dois que ficavam no chão, um diante do outro, formando uma reta. Foi quando ela disse: “é isso, a caverninha”. Olhei e vi a luz do sol traçando um caminho na sala, constituindo uma forma geométrica aberta. Um pouco como quem pula amarelinha, brinquei de entrar e sair disso que ela chama caverna solar. A caverna é algo que se pode carregar consigo e armar quando necessário, sempre variável de acordo com as circunstâncias. Quando lembrei deste acontecimento por ocasião da feitura deste texto, Arorá compartilhou comigo esses desenhos abaixo, que registrei em casa com celular e ajudam a remontar esse traçado da caverna. É como se a porta por onde entrava o sol fosse posicionada na borda superior do papel.












Generosidade imensa é pegar um espelho e apontar não para si, mas para um outro espelho, que reflete, ainda, outro espelho. Essa torção para fora constrói um espaço-tempo que pode ser compartilhado: habitado pelo outro, habitado com o outro. A dimensão temporal constitutiva desse espaço merece atenção. A caverna solar está sujeita ao trajeto da luz, que é o seu percurso pelo tempo. O deslocamento das retas que dispõe nos oferece experimentar um pouco da curva que o planeta chamado Terra faz em torno de si mesmo. Sua cartografia se move um pouco como o ponteiro de um relógio solar. É esse giro, que faz a noite virar dia e vice e versa, o responsável por deslocar as linhas da caverna. É real. E o real, lembremos, é algo que escapa à lógica da propriedade, não pertence a ninguém. O real, irrepresentável, se dá nesse espaço entre, no movimento das passagens, entradas e saídas.

Volto a esse gesto fundador da caverna solar. Ela começa quando se gira o espelho para fora, o lado opaco diante de si. A luz – cósmica – é oferecida ao outro. Penso no porquê, de uns anos para cá, para muitos, deixou de ser óbvio que a Terra é redonda. No cotidiano, dispositivos de comunicação fazem o convite (ou ordenamento) incessante ao giro no sentido oposto: virar superfícies que emitem luz própria (em vez de refletir uma luz que vem de fora do planeta) para o rosto de cada usuário. Esse giro, da luz de dentro da tela direto para os olhos, pode estimular em algum grau o esquecimento da relação – comum – que se pode tecer a partir de traços de uma luz compartilhada. O cinema do projetor sol. Ocupados demais com a projeção permanente da luz que possuímos, um tanto senhores do universo, as horas podem passar um tanto indiferentes ao dia ou à noite, ou talvez, instaurando a cada um sua noite ou dia particular.


Seja no caso mais explícito das cavernas solares, seja de modo quase imperceptível – infrafino – as formas visuais de Arorá se apresentam no espaço com a marca inegável dos traços do tempo. Nos rastros de transformação da matéria, nos desenhos que vão se formando com os musgos dos ferros que rega como se fossem plantas em seu quintal, há sempre algo que veio antes – e está de passagem. Seu trabalho parece curioso com uma escuta da história das coisas. Uma história em mutabilidade, não só pela ação humana, mas também pelas multidões de outros seres que corroem ou brotam nas superfícies. Uma história que abarca um não se sabe como e nem exatamente quando, história que estica e esgarça, em suma, o suposto saber que a constitui como indivíduo de 21 anos. Os pêndulos, ao transpor elementos que se encontram em profundezas para o ar, revelam esse desejo de redimensionar pesos e explicitar o movimento das coisas.




sem título I (untitled I), 2019-2021

vergalhão, linha e pérola (rebar, line and pearl)

53 x 15 x 2 cm



sem título VI (untitled VI), 2019-2021

vergalhão, linha e pérola (rebar, line and pearl)

91 x 7 x 10 cm



sem título V (untitled V), 2019-2021

vergalhão, linha e pérola (rebar, line and pearl)

88 x 80 x 9,5 cm




sem título I e II em HEAT, curadoria Victor Gorgulho, Galeria Quadra - Rio de Janeiro, BR, 2022*




É possível pensar que essa dimensão rítmica dos desenhos ou materiais dispostos no espaço por Arorá sejam embaladas pela pedagogia musical de John Cage. O artista norte-americano é conhecido por recusar a composição tradicional de música, na qual se escreve representações de sons em uma partitura, para que sejam reproduzidos em condições ideias, isolados dos ruídos do mundo. Ao compreender que não era possível fixar a representação de um som, passou a se dedicar ao que ele chama de “música real”. O motivo dessa torção é bem simples, ele dizia não escutar música dentro da sua cabeça. A “música real” é aquela que acontece no agora do espaço, abarcando e se indistinguindo de todos os sons do mundo. Essa música está sempre sujeita ao acaso e à relação: das pessoas que respiram, dos carros que passam, dos trovões ao longe. Cage comprova que “fora da cabeça” o mundo é sempre povoado de sons: o silêncio (ausência de movimento das ondas sonoras) não existe. Assim são as topologias sempre móveis de Arorá, sujeitas à ação do tempo. Estar com elas, tem algo de sentir a densidade única dessas durações que moldam cada forma instável, em movimento sempre sutil e quase imperceptível, mesmo quando embalado por séculos ou galáxias. Para quem compõe com o mundo, fora da cabeça, a imobilidade – seja de ondas sonoras, fungos ou feixes de luz – não existe.


Vale a pena marcar, contudo, que se o cósmico é a abertura relacional com o todo do universo, aqui, ela é forjada e desejada a partir de um ponto muito específico: o quintal. Nas palavras da artista:


“No movimento de perceber algo solar dentro da casa, me deparei com um pequeno quintal nos fundos de onde moro. No processo de retirada do cimento aplicado sobre a terra, encontro diversas matérias, como ladrilhos, tijolos, pedras, ossos, objetos da casa, e ferros, pequenos e grandes vergalhões. Começo a me relacionar com eles e entendê-los como estruturas individuais que, mesmo rígidas, podem abrigar aquilo que é fruto da invasão - a pérola. Por serem objetos que se fazem na relação com o outro, a pérola pode se deslocar de posição conforme o público, o espaço e a gravidade interagem com o trabalho.

na estrutura do pêndulo / a pérola desliza / y no seu caminhar / star a calmaria. nas coisas que encontro pelo quintal, consigo uma prova concreta de que no aqui se mora a possibilidade do outro lugar”



O essencial de seu trabalho se dá no ato do desvio que revela o caráter cinético já latente ( e infinito) de cada matéria. Processo de revelação, talvez. O jogo entre o sonho e o segredo. O sonho quando se materializa em ferro, pérola, papel ou vídeo se mostra tão sólido e tão límpido que não se pode mais dizer que seja segredo. Quando o espelho se vira para fora, o sonho se exterioriza: vira superfície de reflexo e propagação de luz, traços de um novo quintal que se ergue sobre o quintal atual.


A canção diz ainda que Araçá Azul é “brinquedo” e acho que é essa a palavra oportuna para definir o trabalho de Arorá. É mais perto do nascimento, ou da aurora, que se encontra quem goste de brinquedos: as crianças. Caetano terminava a música quase orando “com fé em deus, eu não vou morrer tão cedo”. Talvez os brinquedos de Arorá, produzidos com o rigor e a complexidade de uma engenharia embalada pelas leis da física, nos seus desvios da luz solar, sejam essas máquinas de inverter a rota do tempo. Em vez de nos levar à morte, o tempo pode, também, nos levar ao nascimento.



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* Fotografias extraídas do site da artista. Disponíveis em https://cargocollective.com/arora/os-pendulos


** Esse texto é uma primeira aproximação dessa noção de ética cósmica, que tenho percebido não só no trabalho de Arorá, mas em práticas cotidianas e também na produção de diversas artistas próximas. Ao longo da escrita, não pude deixar de lembrar muito da exposição de Tadáskía, realizada na Galeria Sé no começo deste ano, que é intitulada justo “noite dia”. Pretendo seguir desdobrando o que poderia ser essa ética cósmica em textos futuros, a partir da análise de trabalhos de outras e outros artistas.






Maria Bogado defende tese de doutorado A PRODUÇÃO DO COMUM E A EMERGÊNCIA DE GESTOS POLÍTICOS NO CINEMA BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO, pela UFRJ em 2022. Atua como crítica de cinema com publicações em catálogos, como o da Mostra de Tiradentes, e revistas Zagaia e Cinética. Fazemos da memória nossas roupas (2020), exibido no Cine Esquema Novo, Semana de Cinema e Pivô Arte e Pesquisa, é seu primeiro filme. Realizou pesquisa sobre epistemologias feministas, com publicações no livro Explosão Feminista (Companhia das Letras, 2018) e co-organização do dossiê da Revista Eco-Pós (2020) dedicado ao tema. Como professora de cinema, já lecionou no curso Cinemas do real (em parceria com Anita Leandro na UFRJ), Cinema Brasileiro Anos 2010 (Revista Cinética), Práticas da crítica: a imagem como um outro (em parceria com Juliano Gomes no SESC). Foi uma das curadoras do evento experimental de música e poesia Subcena entre 2018 e 2019 no Audio Rebel (RJ).


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