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Poema inédito de Ana Luiza Rigueto




sem querer me gabar mas


os meninos faziam fila pra mim

na escola


um a um eles vinham

pegavam minha mão com

força me olhavam

nos olhos

lados opostos da mesa

nos sentávamos


eu sorria pra eles

era um embate desigual

um passatempo prazeroso


os meninos tentavam

um a um eram

vencidos

na queda

de braço

fazia-se uma roda

no entorno

as meninas se interessavam

pouco mas paravam

pra me ver dobrar

meninos


*



há coisas que só um texto pode

por exemplo fazer essa memória correr

fazer essas imagens saírem

da minha cabeça, do tempo, do passado

se mostrarem pra você

por isso não acho que o texto

seja um corpo morto, o texto é produtivo

está tinindo, performando enquanto você

dorme ou morre

o texto está se deslocando


*



agora você conhece uma coisa que antes só eu

graças ao texto

talvez a gente se esbarre no bar

talvez a gente vá ao cinema

ou façamos uma aula você

e eu e você vai lembrar disso

talvez não chegue a mencionar

mas vai olhar pra mim

de fora do texto vai

querer disputar queda de braço

comigo me testar isso vai querer me testar

se a gente mantiver contato

até pode ter vontade de me

dobrar


depois vai esquecer eu também

vou esquecer esse texto

correndo

vencendo os meninos


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