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Pitiú de Cobra & Saltação

por Aldones Nino



I -


Tempestades de areia são fenômenos meteorológicos comuns em regiões áridas e semi-áridas, mas que no atual contexto global, marcado pelas urgências climáticas, emergem como realidade em ambientes nunca imaginados. Curiosamente seu processo se inicia com o vento que sopra a areia que começa a vibrar e movimentar-se através do processo de saltação, que quebra sólidos em partículas cada vez menores, até possibilitar a suspensão da matéria.

Manauara Clandestina é natural de Manaus, Amazonas, afro-indígena e seu trabalho dialoga com novas perspectivas sobre a vida travesti, questionando as condições de existência que as permeiam a partir de processos de transição de fronteiras. Ela vêm investigando os processos migratórios e as possibilidades de circulação a partir da vivência travesti como caminho central para criação de estratégias de guerra, tendo entre estas a migração como um aparato ancestral de continuidade de vida. Nesse sentido, suas memórias vão adquirindo rigidez, como um pequeno sólido que alcança os céus a partir da quebra, tendo nas ondas migratórias, e em tudo que surge a partir delas, a constituição de seu campo de experimentação.


A fotografia surge como prática de afirmação de subjetividades que não se deixam capturar pelas determinações a priori, que marcam a existência de mulheres racializadas em contextos globais. Em O repouso do chuchu (2018), o cotidiano de cuidado sobrepõe a precariedade e a violência existente nas grandes cidades, já que o que antecedeu o registro fotográfico foi um atentado transfóbico sofrido pela artista. Tomadas sob sangue insurgente, as terras sob as quais se construíram as cidades que hoje colapsam, há como herança um pacto colonial forjado à revelia de grande parte da população. Em Sem título (2018), as estruturas de subjugação são evocadas para o desmantelamento da opacidade dos trabalhadores que subjazem a paisagem das cidades. As entranhas revelam a continuidades entre imagens, rastros do projeto outrora colonial e atualmente contemporâneo, sustentado sob existências ignoradas pelos atuais sistemas de representação política, como em As entranhas do meu lar (2019) e Heranças (2021).

IMAGENS:



O repouso do chuchu (2018)



Sem título (2018)




As entranhas do meu lar (2019)




Heranças (2021)



Os regimes de marcação temporal também se inserem na pesquisa de Manauara, a partir da articulação de dípticos que marcam o início e o final do cronograma útil semanal. Em Segunda-feira (2020), temos o galo que anuncia o começo do agora, acompanhado da estilista não binária Dil Vaskes, um corpo encruzilhada na segunda de Exú, que a partir da tecnologia de upcycling e do acolhimento espiritual, propõe novos inícios para as mulheres que a circundam. Já em Sexta-Feira (2018), temos o retrato de suas ancestrais do presente, Terra e Mica, na companhia de Aretha, fixada ao provar um figurino no dia consagrado para Oxalá moço.

IMAGENS:




Segunda-feira (2020)




Sexta-Feira (2018)


Manauara propõe um caminho possível ao gênero do retrato, pois enquanto agenciadora de novas imagens, seu corpo, mais do que ser retratado, traz a imagem de si e das suas como estratégia política de retomada dos modos de inscrição travesti na história. Em Epitácio Pessoa 122, Apartamento 31 (2018) e Estação Moinho (2019), o cuidado de si surge mais uma vez como urgência frente ao risco. Sendo assim, Manauara Clandestina, tem em seu sobrenome uma marca de sua trajetória, onde sua circulação pelos espaços transitados constituem seu repertório de análise das relações políticas, econômicas e afetivas que a atravessam. Próxima da maneira como o escritor José Tonus, entende a clandestinidade, que em sua visão, implicaria em “um deslocamento voluntário (ou involuntário) do sujeito em direção de um espaço que o abriga temporária ou definitivamente e com o qual estabelece relações de inclusão e exclusão, de vizinhança e distanciamento, de proximidade e de lateralidade”.

IMAGENS:



Epitácio Pessoa 122, Apartamento 31 (2018)




Estação Moinho (2019)



Um dos registros mais antigos da ocorrência deste fenômeno foi escrito pelo historiador grego Heródoto. Em 523 a.C., sob o regime de Cambises II, o império persa se preparava para destruir um templo em Siwa, localizado no deserto Saara, na fronteira com a Líbia. Porém, uma tempestade de areia fez desaparecer sob as areias do Egito 50.000 soldados. O que começou com a vibração da poeira sob o vento, foi capaz de proteger um templo da destruição bélica. Como uma onda migratória, a tempestade de areia começa com uma movimentação, deslocamento que pode aumentar exponencialmente, modificando o solo existente. A saltação surge mais uma vez como disparador de reações em cadeia, que vão da quebra até a flutuação, do impacto até a leveza. Se a tempestade de areia é capaz de beneficiar florestas tropicais da América Central e do Sul, com nutrientes minerais do Saara, os trabalhos de Manauara Clandestina aqui reunidos são mais uma ondulação de reação em cadeia, onde sua obra se liberta do peso do chão, almejando a leveza do ar.


II -

Pitiú é o nome que se dá à catinga que o peixe tem.

O que deixa rastros - olfativos - ainda segue invisível?


A exposição Pitiú de Cobra buscou tensionar o modo como historicamente as travestilidades vêm sendo alocadas em nossos contextos sociais, aproximando o passado do presente, e estabelecendo um solo possível para outros futuros. A mostra se organizou a partir dos eixos: Colonização, Sonho, Repouso e Construção, uma ode ao encontro, movimento de afirmação de vida.


Seu processo de criação se dá na relação com suas irmãs, onde o resultado apresentado escapa das risadas, dos segredos e dos sonhos que constroem juntas. Encontros como abrigo desejante de mundos possíveis, livres da supremacia branca, patriarcado, capitalismo e heterossexismo. Um mundo diferente do agora, e “sonhá-lo coletivamente significa que podemos começar a trabalhar para fazê-lo existir”.


Em Sonhos de Ventura (2017), vemos a pastora Ventura Profana a sonhar com a extinção das antigas estruturas onde se assenta o privilégio cis, almejando mananciais de bonança para aquelas anteriormente condenadas. Este díptico coloca em diálogo a abertura de caminhos, onde desejos, imagens, e fantasias, revelam-se como profecias de um tempo vindouro a ser materializado para além do onírico.

IMAGENS:



Sonhos de Ventura (2017)



O que aquilo que passou pode nos dizer em 2021?


Cena 1:


Nos autos de processos inquisitoriais do Brasil colonial, podemos encontrar a acusação do português cristão Matias Moreira, que baseado no Direito Canônico, acusa a travesti, Xica Manicongo nascida no Congo, escravizada, quimbanda, de "fingir ser de diferente estado e condição” onde "o homem que se vestir em traje de mulher pagará 100 cruzados e será degredado para fora do Arcebispado da Bahia arbitrariamente, conforme o escândalo que der e efeitos que resultarem".


Cena 2:


27 de fevereiro de 1987: início da Operação Tarântula da Polícia Civil de São Paulo. Teve em seu primeiro dia, 56 pessoas presas e cerca de 300 travestis e mulheres trans perseguidas na ação. Patricia Vieira Nascimento em entrevista à Folha de S. Paulo recorda: "Colocavam as travestis dentro do camburão e elas se debatiam. O carro ia em alta velocidade. Quando parava, tinha menina de braço quebrado, uma com o salto enfiado na perna da outra. Era horroroso", a operação foi suspensa em 10 de março do mesmo ano.


Cena 3:


17 de janeiro de 2008: Por volta das 22h20, um grupo de 20 travestis entra correndo em um hotel da Rua General Jardim, na Vila Buarque, no Centro, ao ver uma viatura da PM. O departamento da Polícia Judiciária da Capital mobiliza 900 policiais civis e 242 viaturas em uma megaoperação para combater a prostituição nas ruas de São Paulo. Resultando em 1.030 travestis, garotas e garotos de programa sendo revistados. “Uma viatura que levava uma travesti recolheu outra na Rua Dona Veridiana e mais quatro na Rua Major Sertório. As seis foram espremidas no camburão”.


Por que Jup do Bairro afirmou que autocuidado nunca foi skincare? Talvez repousar seja um privilégio das que podem parar, e não para aquelas que a migração é uma estratégia de continuidade. Em O repouso do Chuchu (2018) rituais estéticos mesclam-se com estéticas rituais, onde o repouso se destina para aquelas para quem repousar nunca foi uma possibilidade, seja em razão dos padrões impostos pela cisgeneridade, ou pelas necropolíticas em curso no Brasil. Qual peso está sob as costas daquelas que repousam?



O repouso do Chuchu (2018)



Manauara se contrapõe à determinabilidade que busca marcar a existência de travestis e/ou mulheres trans negras, africanas e brasileiras, operando violências físicas e simbólicas desde tempos imemoriais. Estas cenas, articulam a metodologia utilizada por Denise Ferreira da Silva, onde implicações temporais constroem “uma figuração da atravessabilidade, quer dizer, de sua capacidade de atravessar, criar uma brecha no tempo linear”. Propondo assim prática artística como um “locus generativo para o engajamento em uma reflexão radical sobre as modalidades de subjugação racial (simbólica) e colonial (jurídica) que operam com plena força no presente global”.


No díptico Colônia (2017 - 2018), temos registros de anos distintos, que se completam na ênfase imagética da oratória euro-cristã, uma das sólidas bases da dominação patriarcal. Nesse sentido, a colonização deixa de ser, simplesmente, uma das formas como a espécie humana se espalhou pelo mundo, aludindo também à implementação de mecanismos jurídicos e disciplinares. Demônios e processos de catequização extrapolam a antiga história do Brasil, respingando na história recente, onde fantasmas coloniais tentam definir a ocupação de lugares sociais e políticos.



Colônia (2017 - 2018)



Desenvolvendo sua série, Por Enquanto 35, Manauara atravessou capitais como São Paulo, Londres, Barcelona, Rio de Janeiro e Salvador, considerando este um projeto contínuo, que reivindica a técnica do retrato como gênero artístico/tecnológico de inscrição de registros históricos. Metaforizando o apagamento da memória travesti nas grandes cidades ao eleger a polaroid - dotada de sua evanescência - como suporte.




Por Enquanto 35 (2019-2021)



O vídeo Building (5 '37''), foi um desdobramento de sua residência na Delfina Foundation, onde Manauara profetiza a chegada de um novo tempo, um futuro onde as travestis gozem de segurança e amor. Através de um deslocamento temporal, a montagem sobrepõe passado e presente a partir de investigação biográfica, subvertendo o tradicional modo como as parentalidades são invisibilizadas das histórias das travestis e mulheres trans. Fato resultante da normatividade que molda as concepções de arranjos familiares, historicamente pautados pela heterossexualidade monogâmica e reprodutiva.




Building (5 '37'')



Próximo ao Centro Histórico de São Paulo, Delirium se localiza na área onde a cidade foi fundada, em 25 de janeiro de 1554, pelos padres jesuítas Antônio de Vieira, José Anchieta e Manoel da Nóbrega. A área onde encontra-se a praça Rotary, possui uma história oficial iniciada com a venda da chácara do General José Arouche de Toledo Rendon (1756 — 1834) que havia transformado as terras de plantação de chá, em uma área de exercícios militares. Posteriormente vendida pelos herdeiros de Antônio Pinto do Rego Freitas (1835 — 1886) para a empresa Obras do Brasil, propriedade do senador Rodolfo Miranda (1882 — 1954) e do engenheiro Manuel Buarque de Macedo (1837 — 1881). Apagamento e manutenção. Estes nomes nos interessam aqui acompanhados por datas que evidenciam claros marcadores históricos e sociais. O que permite nomes atuarem no presente como critério de localização? Carregados ainda em ruas e outros marcos da capital?



Cena 4:


18 de junho de 2021 (Ontem/Hoje/Amanhã): Pitiú de cobra, reúne obras onde a reiteração de imagens de dor, metamorfoseiam-se em poéticas do sonho. Inscrições que extrapolam qualquer determinação histórica. Como anunciado por Ventura Profana, a chave foi arrebatada das mãos do senhor, e travestis engenhosas aprendem a voar. E ainda que submersas…... respiram, em superabundância!!!


A artista foi contemplada em 2020 com uma residência na Delfina Foundation (Londres, Inglaterra) por meio de um open call voltado para artistas da Região Norte do Brasil, lançada pelo Instituto Inclusartiz, que continuou a apoiar sua pesquisa de processos de migração. Durante sua estadia no Piramidón - Centre d'Art Contemporani (Barcelona, Espanha), a artista dirigiu a criação da instalação Vapor (2021), uma proposição coletiva que invoca a transformação, de um corpo que não aparece à vista, como uma velha pele de cobra. Rastros de uma travessia desejante de vida, ou como sintetiza Ney Matogrosso em Cobra Manaus (1983): “é o desejo da vida sibilante”.


Pitiú de cobra é uma mostra de possibilidades de auto representação a partir das metodologias de inscrição de vivências dissidentes e narrativas outras nas artes. Manauara segue costurando travessias e passagens, que indicam algo que está presente, ainda que não visto, anunciando a profecia que se cumpre.


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