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O som de Luxúria, romance de Raven Leilani

Atualizado: 3 de fev.

Luxúria é um romance que está o tempo todo mexendo com vários dos sentidos do leitor – e apesar de isso parecer meio óbvio por causa do título, não é apenas em relação ao sexo que o livro de Raven Leilani nos atiça ao longo da leitura. Inclusive porque uma das principais características de sua história é abordar o sexo de uma forma muito próxima ao real, com tesão, com amor e sem, com insegurança, com desconforto, com a influência do recorte de classe, gênero e raça. Mas por que eu estou escrevendo sobre um romance numa coluna de música? Porque entre tensão racial constante, cheiros horríveis da cidade de Nova York, metrôs cheios, um intestino que não funciona, bebida alcóolica caindo em estômago vazio, terebintina, baratas e ratos, a narrativa é toda permeada por sons, seja em forma de música ou de ruídos ambientes, que colorem as cenas e nos ajudam a imaginar a personagem principal, seus caminhos e sua compreensão de mundo.


Edie é uma mulher negra de 23 anos que trabalha em uma editora e mora num apartamento precário que divide com uma roommate em um bairro violento de Nova York. Na empresa, ela transou com diversos dos funcionários, desde o técnico até o diretor do departamento de arte – seção onde gostaria de trabalhar, mas é sempre encorajada a desistir por dizerem que ela não é boa o suficiente. Ganhando o necessário apenas para sobreviver e sem gostar de sua função, ela inicia pelo computador da editora um relacionamento virtual com Eric, um cara branco, com o dobro de sua idade e que vive um casamento aberto. E é com eles fazendo sexo virtual numa sala coletiva de trabalho que o livro começa, cena que dá as cartas sobre o estilo narrativo da autora: rápido, direto e sem armadilhas morais.


Enquanto o relacionamento de Edie e Eric avança – não sem eles terem passado 52 dias sem transar e terem feito, juntos, teste de DST –, a personagem vai contando episódios passados de sua vida e deixando chaves de entendimento sobre como é a vida da mulher negra na sociedade capitalista que não são exatamente didáticas, mas que complementam perfeitamente os acontecimentos. Sua mãe era ex prostituta, viciada em drogas, se casou com um pastor nada santo e se matou. Ela escutava hinos religiosos como “Amazing Grace” e tinha uma coleção de discos. A infância de Edie foi marcada pelo VHS do filme das Spice Girls, pelas boy bands, lanches industrializados e o impeachment de Bill Clinton. Ou seja, ela é uma millennial – e nenhum dos outros personagens do livro, os brancos e mais ricos que ela, deixam esse fato passar ileso, sempre o caracterizando de forma depreciativa.


Edie perdeu a virgindade com um cara chamado Clay, um metaleiro vendedor da loja de armas do shopping no qual ela também era funcionária. Ele morava em um trailer e em sua loja tocava uma coletânea de death metal sueco. O peso da música é contrastado por Edie às suas sensações em interações com Clay que incluíam momentos tensos e excitantes em um universo de armas e facas. Ela acaba engravidando dele enquanto cursa o ensino médio e, quando narra seu pós-aborto, é quando a disco music aparece como algo importante – não só em sua vida, mas para o livro como um todo. Edie “herdou” uma coleção de discos da mãe, que ela ainda não tinha mexido depois de ter se tornado órfã, mas enquanto se recupera encontra o disco “Four Seasons of Love”, de Donna Summer, e se apega a ele.

Quase sempre que um rádio é ligado na trama, aparece alguma reflexão da personagem, como na passagem: “Ela liga o ar quente e sintoniza o rádio no Top 40, e a programação é sempre a mesma, capitalismo verborrágico de baixa frequência, comerciais de escritórios de contabilidade e sofás e promos de shows de despedida da velha guarda do R&B e do quiet storm, mas, quando se trata de música em si, eu não conheço nada”. Os rádios dos carros de Eric e de Rebecca, respectivamente o cara com quem Edie tem um caso e sua esposa, são fundamentais na costura sonora do enredo de Luxúria.


No dia em que Edie e Eric se encontram pela primeira vez pessoalmente, enquanto ele a leva em casa, toca “Could Heaven Ever Be Like This”, de Idris Muhammad, que é contextualizada pela personagem para o leitor: “lançada em 1977, quando Eric tinha três anos”. Eles cantam juntos no carro e ele a questiona sobre como ela conhece uma música tão antiga. Ela imagina diversas respostas que soariam cool, mas o fato é que ela chegou nessa faixa por causa de samples ouvidos em outras duas músicas. Ela não diz quais, mas sim que ficou entre 2003 e 2006 procurando descobrir o nome da música, e ela só pode estar falando 1) do Jamiroquai e 2) talvez de Drake, mas consultando o Who Sampled, vemos que o rapper sampleou a faixa em 2007 e Jamie XX em 2015. Ainda nesse meio tempo, enquanto toca Muhammad, o fluxo de consciência da personagem fala novamente no disco de novo Donna Summer, especificando que foi a primeira faixa do álbum, “Spring Affair”, que a fez sobreviver em 2004, provavelmente o ano do aborto. Por fim, para responder à pergunta de Eric, ela simplesmente diz “Eu adoro música disco”. Surge aí o primeiro elo de afinidades entre o casal.


No encontro em que Eric apresenta a Edie as regras de sua esposa para o casamento aberto, alguém toca “Mary had a little lamb” – “em tom menor no violão” –, servindo de trilha para um beijo desajeitado. Mais à frente, Eric a leva a uma festa disco, com direito a holograma de Chaka Khan e Gloria Gaynor, no som da boate toca “That’s the way”, KC and The Sunshine Band, e Edie descreve que se sente “espectral” naquela situação. Vai ficando claro em outras cenas que tanto ela, quanto Eric dedicam atenção às músicas que os rodeia e como elas vão construindo as memórias que passam a existir deles.

Ao mesmo tempo, Edie jamais perde a consciência sobre sua negritude em cada ação sua. Ela sabe quais são as inúmeras formas pelas quais pode morrer. Define sua educação formal em uma boa escola como tendo o “Dobro de Qualidade pela Metade do Mérito”. Diz que se nega a ser a primeira mulher negra de um homem branco. Repara como Eric usa o termo afrodescendente no primeiro encontro. Sabe que não será promovida no trabalho, porque independente de seu comportamento sexual, seu tempo de experiência não valia uma possível promoção. Sabe que ocupa a posição de token. Entende ser uma arte “ser negra, perseverante e inofensiva” - o que esperam dela. E que quando Eric deseja que ela libere seus instintos para ser ela mesma, significa não ser como uma leoa na selva, mas uma leoa no zoológico. Em todos os seus 23 anos, Edie tem consciência de que nunca foi vista como pessoa, mulher, humana. Por isso, quando pinta seus quadros, não consegue fazer seu próprio autorretrato ou se identificar nas cenas que retrata. Vemos em Edie aquilo que Audre Lorde escreveu em “Usos do erótico: o erótico como poder”: a deserotização da vida da mulher como forma de opressão.


Para Lorde, a sociedade relega o erótico ao sexo, mas ele, na verdade, é uma fonte de poder e informação, um recurso profundamente espiritual e feminino. O erótico é uma questão do quão profunda e completamente podemos sentir o que fazemos. A partir do momento em que tomamos consciência da extensão da nossa capacidade de sentir satisfação e completude, isso é um fator de empoderamento.

Ao ser desencorajada desde cedo a se mostrar – Edie tem vergonha de sua risada, por exemplo –, para se proteger tanto do racismo cotidiano, quanto do institucional, sua vida é toda marcada por relações assimétricas de poder. E por uma “deserotização” constante. Por isso ela diz, também, como não é exatamente a pessoa que sabe lidar melhor com festas. E é em uma festa que se dá uma das viradas importantes do livro: a comemoração de 14 anos de casados de Eric e Rebecca. Ali ela vive o impasse de ser a única negra do ambiente além de Akila, filha adotada do casal e pondera como em festas a música é sempre escolhida de forma preguiçosa, com playlists que repetem “Don’t Stop Believin’” e “Push it”, faixas tão inevitáveis quanto “uma colonoscopia de rotina”. Dentro dessa situação que vai se tornando cada vez mais surreal para o leitor, no auge da celebração – em que os convidados não parecem muito animados –, Rebecca canta a capela “In the air tonight”, de Phil Collins, numa cena 100% cringe. E, mais uma vez, a consciência musical da personagem é capaz de pensar em opções que julga melhores, que teria sido ela cantar Beach Boys ou Boyz II Men.


A primeira vez que Edie acompanha Rebecca em seu trabalho – o necrotério de um hospital – é um acontecimento do acaso. Edie havia sido demitida e, prestes a ser despejada, começa a fazer entregas de comida por aplicativo com uma bicicleta alugada, até que recebe o pedido para entregar uma sopa (coisa que ela sempre evitava aceitar porque derramava) e uma serra. Rebecca era a cliente. E a partir daí a conexão entre as duas ganha outra dimensão. Nessa cena, o rádio tem um papel fundamental, novamente. Rebecca pede que Edie o ligue, enquanto ela disseca um corpo. O locutor anuncia Hall and Oates, Edie recebe a ordem de aumentar o volume: “a mesma voz diz um etno-estado branco que deu certo. Essa vai para a Gerta, de Williamsburg. Vem aí “Private Eyes”.” Esse passa a ser o papel de Edie ali, controlar o som, e ela repara como Rebecca a percebe com uma pessoa negra que pode ajudá-la e não como uma pessoa que acabou de vê-la limpando um cadáver. Rebecca canta “Rich Girl”, a rádio falha, Edie testa a AM e cai numa programação cristã.

As humilhações as quais Edie vai passando são apresentadas com alguma reflexão, mas sempre de uma forma meio passiva. Ficamos revoltados com tudo, mas a forma com que ela narra nos faz sempre virar o mais depressa possível a páginae ir para o próximo acontecimento. É lancinante, por exemplo, quando ela diz que se sai bem nas entrevistas de emprego porque: “As expectativas que as pessoas têm a meu respeito nesses cenários são tão baixas que seria impossível não as superar”. Sem casa e sem dinheiro, ela é convida por Rebecca para ficar uns dias na casa da família enquanto Eric está viajando a trabalho. Claro, ela além de estar sem teto, pode fazer um favor – ou trabalho – imenso a Rebecca: decifrar e cuidar da filha negra e adotada do casal que tem 12 anos, Akila. Já na casa, Edie ainda faz algumas entregas de bicicleta, pegando mais um “extra” humilhante ao chegar na casa de um médico famoso: amassar tomates e ovos com os pés, enquanto a figura um tanto excêntrica (ironia) escuta música clássica, Arvo Pärt.


Já a personagem Akila vive um universo Geração Z que inclui KPop, Ska japonês, videogame e fanfics. Com o passar do tempo, Edie se torna uma espécie de babá, irmã mais velha e diarista da casa. É numa situação envolvendo Akila que Edie ameaça usar uma única vez a palavra Racismo no livro. Segundo ela, a palavra se tornou quase comum demais, “já que com um certo grupo de Gente Branca de Bem essa acusação acaba ofuscando o próprio ato”. E mesmo que sua interlocutora Rebecca fosse ouvir e se atentar à palavra, tem consciência de que, quando pronunciada por um negro, é vista pelo branco como drama. O fato de o racismo ser uma prática cotidiana, normalizada, é descrito por Edie como uma lenta morte psíquica, que ao fim e ao cabo a faz duvidar de si mesma. Esse momento de maior revolta de Edie, que não chega a pronunciar a palavra, se dá quando Akila é humilhada pelo professor particular, que a compara a um macaco.

Se Eric é um grande fã de disco music, Rebecca vai levar Edie a um show em que não fica claro se é de metal ou hardcore, mas conta com os elementos: coturno, roda de pogo, lama, peito de fora e todo mundo de preto. “Ela diz que nem tudo Quer Dizer Alguma Coisa e que na verdade tem muita coisa que não quer dizer nada, e que teoricamente essa é a graça da música que prioriza a força física. E por força física ela quer dizer peso. Ela quer dizer velocidade”. É uma das cenas em que mais temos a impressão de que Rebecca é uma mulher solitária e dura. O contraste entre a disco music e o metal tensiona as personalidades conflitantes do casamento que se formou. Não é a primeira vez que Edie critica as figuras do rock ao longo do livro, mas quanto ao show que foi com Rebecca, reforça num lindo solilóquio: “[...] e não posso dizer que odiei, e, embora a música seja ruim – ruim como um desvio de septo, como refluxo, como um talismã mágico de pata de macaco -, é preciso sofrer para alcançar o prazer, que nesse caso é pegar um homem pelas orelhas e jogá-lo no chão [...]”.


Se Edie e Eric se conectam pela música, a música é também um dos elementos que Edie utiliza para se perceber sempre oposta a Rebecca. Como quando, ao ouvirem rádio juntas, Edie nota que Rebecca não faz nenhuma expressão de que conhecia uma música que sempre tocava enquanto estavam juntas no necrotério, o que é percebido com um certo desgosto em relação à outra. Já com Akila, o afeto se cria mesmo em torno da questão racial e da proximidade de gerações. Mas no aniversário da garota, é central na narração de Edie da questão sonora, que consiste numa disputa por conquistar o DJ. Além da festa da criança, havia uma outra com velhos bêbados no mesmo espaço, uma pista de patinação. O resultado foi uma trilha com “Paul Anka e Nat King Cole entre as músicas das Spice Girls e do Drake [...] E, como era de se esperar, toca música disco. Os grandes sucessos – “YMCA”, “Bad Girls” e “Ain’t No Stoppin’ Us Now” [...] músicas que servem mais para você projetar sua memória no vinil do que escutar de fato, músicas de uma alegria tão fascista que quando “That’s the Way” toca eu não consigo não olhar para Eric [...]”. Aqui, ela queria que Eric associasse a música disco a ela, o que não acontece.


A ideia da alegria fascista das músicas que foram tocadas à exaustão nas rádios e nas festas de todas as faixas etárias se desfaz quando Edie visita Eric no porão de sua casa, onde ele condiciona um toca-discos e sua coleção – a maior que ela diz já ter visto. O desenrolar da trama está quase no fim. Eles ouvem sucessivos álbuns enquanto bebem gim quente quando Edie faz uma observação curiosa: está tocando um disco brasileiro que “exagera no theremin”. Para quem gosta de música brasileira, brota uma graça no canto da boca e me pergunto: seria Mutantes? Bem, parece mais factível do que Pato Fu.


Para quem não consegue dissociar a música de todas suas atividades cotidianas e situações, banais ou extraordinárias, “Luxúria” é um deleite e Edie uma personagem extraordinária. A trama de Leilani é cheia de camadas, a questão racial e de gênero é, sem dúvida, predominante, mas é um deleite poder ler um livro que tem uma trilha sonora tão detalhada.

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