O macho está nu

Atualizado: Set 14

por Thiago de Oliveira Vieira



Foto oficial dos ministros do Superior Tribunal de Justiça, 2020



Em mais um dia de isolamento, o deputado Jean Wyllys convida para a Live Caros Amigos, em sua conta do instagram, o presidente Lula. Durante uma hora de Eros, entre pautas políticas e afetos, as convergências e divergências politicamente embasadas se desenrolam. Concomitante e a partir disso, a minha memória evoca Marielle e se impõe como questão: diante da dignidade dessas representações e os destinos que os imputaram, o que é que está em cena?

Quando exilamos Jean, impugnamos Lula e executamos Marielle não estaríamos ainda falando sobre o macho? Seria uma extrapolação discursiva pensar assim, ou o avesso dessa live não é exatamente esse? Os atos exemplificados foram e continuam sendo efetuados e sustentados pelo macho que nos representa: o patriarca autoritário brasileiro; a figura e o corpo em que se estruturam um sistema sintomático de pensamentos da terra brasilis. Esse ainda se faz o assunto em questão, visto que o nosso conhecido mimado, branco, hétero, o famigerado pai de família cis, reafirma a noção de macho mais uma vez em nosso contexto político e em nossos corações.

Nisto, que escancara em olhos nus o público e o privado em que vivemos, sinto mais um atravessamento levar meus pensamentos para Freud, em Totem e Tabu. Nesse texto, o inventor da psicanálise cria um mito pré-social em que a estrutura central do seu argumento é a função da lei no processo civilizatório. No decorrer dessa importante contribuição, que é conhecido entre os psicanalistas como um dos seus célebres textos sociais, o pai da psicanálise faz um paralelo entre o que ocorre na vida psíquica do neurótico, o que ainda hoje se entende como o sujeito normal, e a necessidade das interdições para a formação do tecido social, da cultura.

Trazendo essa ideia para as nossas interrogações e para o nosso modelo de sociedade patriarcal, é sabido que quem tem o papel de criar as leis e operar as interdições são os próprios patriarcas. Hoje, aos nossos queridos representantes, tanto no Congresso quanto no ambiente comum das nossas casas, cabe o dever de representar seus próprios desejos e sintomas vestidos com o argumento de que estão nos representando. Mas o que fazer quando a norma, que já era esdrúxula e construída em privilégios e mortes, extrapola ainda mais e ganha o estatuto do absurdo? O que fazer quando a veia ritualística do neurótico obsessivo deixa de ser um simples transtorno obsessivo compulsivo de limpeza e ordenação e passa a ser um ritual de limpeza social executada pelo sádico espelho autoritário que nos representa, Jair Messias Bolsonaro?

Nessa execução é que se repete o desejo de aniquilar os corpos e signos, que a live do Jean comunga, em nome dos valores que hoje vestem as roupas do bolsonarismo. É impensável para os eleitores do Jair a mexida nos signos que o governo Lula operou, a postura íntegra e indignada de Jean no Congresso, até mesmo em sua cusparada, e o dedo na ferida que a pele preta de Marielle brada frente aos milicianos, esses que o próprio Messias representa. É inegável, o representante dos valores brancos não suporta a disputa por narrativas e as existências que o contestam naquilo que ele acredita ser seu latifúndio: todos os outros.


O que Bolsonaro nos vem desenhar e nos dar notícias é sobre a nação de ressentidos que somos e sobre os valores familiares que edificamos e nos fundamos . A maneira em que se estrutura o nosso tecido social é também o mapa da sintomatologia brasileira que tem como o norte o classicismo, como leste e oeste a misoginia e o racismo, e a homofobia e o sexismo como o sul. Todos esses sintomas são sustentados pela maneira patriarcal de se estruturar as relações e os seus tributários lucram bastante com isso. Seguimos sem novidades, pois um país que logra o 5° lugar mundial em números de feminicídios, segundo o Atlas da Violência, não pode dizer que não conhece a agressividade e os transtornos que o representam. O macho está nu.



A família Bolsonaro. Fonte: G1


Nessa medida é que se atualiza o que nunca saiu de cena: a preta está morta, mais uma vez, e quanto a isso a poesia e a teoria psicanalítica nada podem fazer. A não ser dizer sobre a dignidade do enlutamento, a importância de carregar os signos aos que ficam e o encantamento dos traços que os mortos representavam. O intelectual está exilado, eis o destino dos que pensam o Brasil, e de novo nisso só a concretude, pois metaforicamente o exílio é o destino do intelecto por essas terras; e o nordestino, como antes, está inelegível. Mas mesmo assim, alçamos um respiro. Alcançamos o inédito, não em estrutura, mas em conteúdo, pois como disse o próprio Jean: “Lula não é um pai castrador, é um pai amoroso”. E essas novas representações, que colamos em Luís Inácio, que colamos nos nordestinos, juntamente nas pretas, nos homossexuais e nas Dilmas (o golpe de 2016 foi também, em grande parte, nas mulheres), essas mexeram na lógica da nossa trama social.

O país percebeu de maneira unificada que os corpos e os signos estavam em movimento. A fratura que mais uma vez divide o país aconteceu na forma de lidar com esse fenômeno e não com a veracidade do estava ocorrendo: o aumento do acesso ao sistema educacional e a ligeira diminuição dos abismos sociais. O que para alguns foi um horizonte, para outros foi um desterro. A partir dessa cisão que se reconstituiu o atropelo de retrocessos em que vivemos desde 2016 e a sua afirmação nas eleições de 2018. Porém, mesmo com as duras perdas que tivemos no campo dos direitos, penso que as existências que ocuparam novos espaços se alastrarão. Não estamos falando de profecias, mas de desejos e representações. Nós tocamos o vislumbrar de corpos diferentes nos representando e ocupando espaços que até então eram interditados para si e a essa novidade temos de nos apegar como uma bússola.

Se antes havia alguma viseira ou algum recalque operando, não há mais. Está tudo posto: o absurdo é a norma, o macho, que conhecemos bem, está nu na nossa sala de estar e nos dizendo através dos espelhos das televisões, computadores e smartphones que a ordem é morrer. Não nos enganemos, uma das torções primordiais que devemos fazer no momento que nos encontramos é descobrir até onde cada um de nós está entranhado neste necro-pacto-social, pois além dos 57 milhões de indivíduos que elegeram o cidadão Jair e sua trupe, existe toda a engrenagem que o sustenta e ela diz mais de nós do que gostaríamos de assumir. Só será possível existirmos no corpo que vislumbramos se esquecermos que somos o país do futuro e nos reposicionarmos frente ao nosso passado que ainda se faz atual; se ultrapassarmos nossas necessidades imaginárias de segurança e ordenação e desejarmos em ato a queda do macho, a queda do pai.



Ilustração. Fonte: Quebrando o Tabu


Nesse processo, penso que Lacan, até certa medida, pode nos ajudar. É possível lançar mão dos ensinos de Lacan para darmos um passo a mais nos nossos questionamentos. Em seu sexto Seminário (o desejo e sua interpretação), de1959, o psicanalista realizou a dissecação e transmissão do que acredita ser a dialética do desejo e nesse debruçamento ele se entranha nos mesmos significantes que nos atravessam nesta conjuntura política: o pai e a morte, ou melhor dito, o pai morto. Lacan, como um expoente freudiano e pós-freudiano, sabe que a função paterna é norteadora para estruturação edípica em cada ser e que é através dessa estruturação psíquica que temos indícios sobre o nosso desejo. Contudo, ele vai além tanto no ensino da psicanálise quanto na contribuição que ela pode trazer ao entendimento dos tempos e dos sintomas. Não é por acaso que o significante que costura a transmissão sobre o desejo é o pai morto – posto que na sua articulação sobre o desejo e no seu ensino da teoria psicanalítica o pai é também um lugar a ser ultrapassado. Dito de outra forma, o pai é um sintoma social. Para existirmos para além da estrutura sintomática do patriarcado à brasileira devemos nos deixar atravessar enquanto corpos diversos e pulsantes pelo o que é nosso por direito: o desamparo, ou, simplesmente, entendê-lo como dado.

A politização do desamparo enquanto afeto político central para desarticulação de relações de poder e reorganização social, a partir também da reorganização dos afetos é de fundamental importância. É necessário substituir nossas maneiras de gozar e entender a perda do conhecido e a perda das seguranças imaginárias que buscamos como reordenadoras na construção de emancipações. Isso está bem destrinchado no trabalho de Vladimir Safatle em O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo, livro que articula o conceito freudiano de desamparo como a possibilidade de reposicionamento individual e político (portanto, social) do que historicamente elegemos. Para sabermos onde a lógica do macho branco nos agride ou nos afeta e como sustentamos o que se veste de bolsonarismo, devemos entender nossas escolhas e quem nós somos (quem sou eu, quem é você) no macho que está nu.


Referências

[1] Live exibida no canal de Jean Wyllys, na plataforma Youtube, no dia 11 de junho de 2020.

[2] Sigmund Freud. Totem e tabu. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. (originalmente publicado em 1913).

[3] IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Atlas da Violência 2019” Brasília, 5 de junho, 2019. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br>.

[4] Jacques Lacan. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro, Zahar, 2016.

[5] Safatle, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.





THIAGO DE OLIVEIRA VIEIRA é psicólogo formado pela UnB e psicanalista lacaniano atuante como acompanhante terapêutico, em consultório e na rede emancipa, movimento de educação popular (Ceilândia - DF).

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