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O GENOTEXTO: poemas de Christian Bök

Atualizado: Jan 18

Tradução: Marcelo Reis de Mello




DNA. MR.Cole_Photographer/Getty Images





O último pesado bombardeio



para

a dama

em seu prado

pálido, escuro



Bem vindo, Leitor e Fantasma, ao Éon Hadeano da Terra. Quando Mirmidões lançaram suas bombas de cobalto em seu mundo derretido de basalto e bronze. Quando poderosos golens pombos mergulharam da órbita para manejar suas glaives de ferro em seus negros planaltos, apenas para serem engolidos por ondas explosivas. Quando meteoros caíram em massa na terra, cada um uma ogiva de uma gigatonelada, em chamas. Quando supervulcões entraram em erupção, inflamáveis, depois de cada martelada dessas explosões intermináveis ​​de aerólitos e bombas de fogo. Quando bólides de enxofre colidiram, depois explodiram em ablativas cascatas. Quando tsunamis de lava, feito napalm, abriram um subcontinente num dilúvio de chamas. Quando milhões de coquetéis molotov destruíram tudo de uma só vez sobre os paralelepípedos do inferno. Quando Troianos, espumando de raiva, vociferaram à beira do abismo, prometendo arrancar o seu rosto do crânio da Lua.


Que sementes terríveis esses ataques devem ter espalhado, como estilhaços, por suas cremadas terras áridas? Qual príon? Qual vírus? Que tipo de esporo deve ter surgido, como uma ponta de lança ou lâmina de espada, desses primeiros fornos de Auschwitz (cada fogueira de cianeto, queimando ao contrário, cuspindo um agitado embrião, clonado da fumaça e da escória)? Que orquídea deve ter florescido entre os lança-chamas na fornalha? Que dragão deve ter saído de um geodo queimado, enterrado nessas cinzas? O universo deve ser tão impiedoso a ponto de imolar todos os seus rebentos ao nascer? Mesmo agora, os astronautas reuniram suas forças para marchar, resolutos, através da zona de extermínio de seu crematório esquecido por Deus. Mesmo agora, eles avançam, para a frente, em jogos de guerra de fogo selvagem (sem saber que, ao longe, contra eles, um profeta murmura orações de um grimório demoníaco).


Que uivo pode acenar, das bênticas braças de sua condenação, um carniçal tão estranho como a Vampyroteuthis infernalis ('a lula-vampira-do-inferno'), uma mandíbula que pode se arremessar em sua alma, como uma capa lançada sobre um cabide no escuro? O que um cérebro negro como esse, flutuando em sua cuba de tinta, sabe sobre as feridas de morte em seu planeta? O que tal emissário pensa sobre o desfile de coisas vivas que se extinguem, a caminho de seus incineradores (os trilobitas, os nautilitas, os gorgossauros, os pterossauros, os iguanodontes, os megalodontes – todos eles massacrados, mas não lamentados)? Todos os mares mais profundos murcharam e azedaram. Todos os mais altos Alpes ruíram e queimaram. Você se engasgou com miasmas de metano. Você revirou todos os seus braseiros, espalhando centelhas nas lajes. Todos os seus fósseis se dissolveram em uma enxurrada de chuva ácida.


Que Grande Cometa ainda não despencou dos céus, como um motor de foguete despejando seus jatos enquanto caem em oceanos de nitroglicerina? Que trovão ainda há para anunciar o advento desta relha de arado, capaz, com o impacto, de transformar uma montanha em escombros? Que cabeças de fósforo, quando riscadas na atmosfera, podem inflamar o oxigênio, convertendo o céu em um tufão em chamas? Apenas um semideus, como 99942 Apófis, pode lhe oferecer esse apocalipse, tornando-se o rolo compressor a quebrar o baluarte maciço de sua rocha. Apenas destruidores, como 2102 Tantalus ou 4179 Toutatis, podem apagar todos os terráqueos com a facilidade de homens-bomba em uma feira. Uma ostra em sua concha pode sobreviver ao inferno da queda livre do espaço sideral? O açafrão pode se desenvolver num solo feito de meteoritos pulverizados? Salve, salve, Hale-Bopp (e todas as superbombas ainda por detonar)!


Que Grande Morte a Terra deve prever no espelho estéril da Lua? Que destino? Que fúria? Que Musa deve contemplar o rosto sombrio da dor, refletido em seu escudo de prata (uma placa de vidro à prova de balas, picada e coberta de cicatrizes)? Que cinzas, em chamas, se desintegram em seus mares cinzentos de néctar, de vapor, de crise? Que trauma de guerra deve dizer olá quando você tropeçar, horrorizado, sobre os restos carbonizados de uma floresta em Tunguska (perenes, tombados e destruídos, todos divididos, como palitos de fósforo)? Que cratera, entre os mares lunares, você deve querer recriar, sempre que vaporizar um atol? Mesmo agora, seus batalhões de astronautas cruzam as planícies verdes de trinitita para invadir os muros de Castle Bravo e Castle Romeo. Mesmo agora, Neil Armstrong retorna, como Orfeu, à câmara de descompressão, seu traje espacial cheirando a pólvora e aço queimado.


Que falcoeiro americano deve aviar sua nave espiã à luz vaga das tempestades de meteoros dos Draconídeos ou Escorpionídeos (a chuva antiaérea caindo sobre o deserto, como pó de purpurina, durante um tiroteio noturno)? Que foices os vikings devem forjar a partir dos destroços de um asteróide, recuperado em Cape York? Que arcanjo os mártires devem aplacar quando beijam a Pedra Negra da Kaaba, em Meca, durante o Hajj? Que raio de sol deve explodir, como o Krakatoa, sobre o Círculo Polar Ártico (quando o poder de fogo de sua carga excede em dez vezes toda a dinamite explodida durante a Segunda Guerra)? Mesmo agora, o Presidente dos Estados Unidos senta-se sozinho à noite, temendo a hora sombria em que deverá abrir o memorando de seu assessor, apenas para ler na página a única frase: pinnacle nucflash (a notícia que narra o omnicídio do mundo).


Que ameaça global de Sturm und Drang seus exércitos devem ainda suportar (mesmo em seus bunkers de granito, bem abaixo do maciço da Montanha Cheyenne)? Quando todas as fontes de fogo infernal no firmamento podem destruí-lo. Quando uma estrela k-anã, como Gliese 710, pode arar através da nuvem de Oort, bombardeando o planeta com cometoides que despedaçam todas as massas de terra. Quando uma estrela Wolf-Rayet, como a wr 104, pode ofuscar a galáxia em uma explosão de raios gama tão brilhantes que as chamas derretem a camada de ozônio. Quando o próprio Sol pode inchar e inflamar, para envolver você num abraço flamejante que atomiza o núcleo de ferro de seu planeta. Mesmo agora, seus astronautas estão ficando sem ar enquanto se contorcem dentro de seus caixões incendiados. Mesmo agora, você deve se desesperar, pois você ouviu a pulsação do universo, ainda que não ouça os gritos de nenhuma outra alma no Inferno.


Diga-me, Leitor e Fantasma, diga-me: O amor vai nos salvar do nosso medo de estarmos sozinhos aqui? E se, ao olharmos para o céu à noite, não vermos nenhuma distante lanterna piscando para nós da extremidade do cosmos? E se um farol assim passar despercebido, como uma chama morrediça na escuridão? E se apenas os tipos mais perversos do mundo (os faraós, os guerreiros, os assassinos) foram capazes de ler este sinal vindo do espaço? E se a mensagem, quando decodificada, não disser nada além de uma única frase repetida: “Nós o desprezamos! Nós o desprezamos!”. E se encontrarmos a evidência desse ódio embutido em nossos genomas? Mesmo agora, colônias de formigas escuras de uma espécie chamada Mystrium sombra se alimentam do sangue de seus jovens. Mesmo agora, meu amor, tais palavras lhe confessam que o universo sem você não é mais do que uma implacável explosão.


Vem comigo, me deixa mostrar como partir meu coração.



Proteína 13, a experiência de Christian Bök. Fonte: Poetry Foundation





The Xenotext – Book 1 (Ontario: Coach House Books, 2015)



The late heavy bombardment


for

the maiden

in her

dark, pale meadow



Welcome, Wraith and Reader, to the Hadean Eon of the Earth. When Myrmidons hurled their cobalt bombs into your molten world of basalt and bronze. When mighty golems swan-dove from orbit to drive their glaives of iron into your black mesas, only to be engulfed by the blast waves. When meteors fell earthward in droves, each one a gigaton warhead, ablaze. When supervolcanoes erupted, flammivomous, after each hammerblow from these endless blitzes of ærolites and firebombs. When bolides of brimstone collided, then exploded into ablative cascades. When tsunamis of lava, like napalm, bedrowned a subcontinent in a deluge of flames. When millions of Molotov cocktails shattered all at once upon the cobblestones of Hell. When Trojans, berserk with rage, stormed over the brink of your abyss, vowing to claw your face from the skull of the Moon.


What dire seed must these onslaughts have scattered, like shrapnel, across your cremated badlands? What prion? What virus? What breed of spore must have emerged, like a spear point or a sword blade, from these early ovens of Auschwitz (each cyanide bonfire, burning in reverse, spitting forth a fitful embryo, cloned from the smoke and the dross)? What orchid must have bloomed among the flamethrowers in the furnace? What dragon must have hatched from a burnt geode, buried in these ashes? Must the universe be so pitiless as to immolate all its offspring at birth? Even now, the astronauts have marshalled their forces to march, resolute, across the kill zone of your godforsaken crematorium. Even now, they forge ahead, onward, through war games of wildfire (unaware that, far away, a doomsayer murmurs prayers against them from a fiendish grimoire).


What howl can beckon, from the benthic fathoms of your damnation, so alien a ghoul as Vampyroteuthis infernalis (‘the vampire squid from Hell’), a maw that can hurl itself at your soul, like an overcloak cast upon a coat hook in the dark? What does such a black brain, afloat in its vat of ink, know about the death blows to your planet? What does such an emissary think about the pageant of living things that go extinct, en route to your incinerators (the trilobites, the nautilites, the gorgosaurs, the pterosaurs, the iguanodons, the megalodons – all of them massacred, but unmourned)? All the deepest seas have withered and soured. All the tallest alps have crumbled and burned. You have choked on miasmas of methane. You have upturned all your braziers, spilling embers across the flagstones. All your fossils have dissolved in a flash flood of acid rain.


What Great Comet has yet to plummet from the heavens, like a rocket engine dousing its jets during splashdown in your oceans of nitroglycerine? What thunderclap has yet to herald the advent of this plowshare, which can bulldoze a mountain into rubble upon impact? What match-heads, when scraped against your atmosphere, can ignite its oxygen, turning the sky into a blazing typhoon? Only a demigod, like 99942 Apophis, can offer you this apocalypse by becoming the juggernaut that smashes through the massive bulwark of your bedrock. Only destroyers, like 2102 Tantalus or 4179 Toutatis, can erase all earthlings with the ease of suicide bombers at a marketplace. Can an oyster in its shell survive the inferno of free fall from outer space? Can a crocus thrive in soil made from pulverized meteorites? All hail, Hale-Bopp (and every superbomb yet to detonate)!


What Great Dying must the Earth foresee in the barren mirror of the Moon? What Fate? What Fury? What Muse must gaze upon the grim face of grief, reflected in your silver shield (a faceplate of bulletproof glass, pitted and strewn with scars)? What cinders, aflame, disintegrate in your grey seas of nectar, of vapour, of crisis? What shell shock must greet you when you stumble, aghast, upon the charred remains of a forest at Tunguska (its evergreens, toppled and blasted, all of them split, like matchsticks)? What crater, among the lunar maria, must you yearn to recreate whenever you vaporize an atoll? Even now, your battalions of astronauts stride across green plains of trinitite to storm the walls of Castle Bravo and Castle Romeo. Even now, Neil Armstrong returns, like Orpheus, to the airlock, his spacesuit reeking of gunpowder and burnt steel.


What American falconer must aviate your spyplane by the stray light of meteor storms from the Draconids or the Scorpiids (the flak raining down, like glitter dust, upon the desert during a nocturnal firefight)? What scythe-blades must the Vikings forge from the wreckage of an asteroid, recovered from Cape York? What Archangel must the martyrs placate when they kiss the Black Stone of the Kaaba at Mecca during the Hajj? What sunburst must erupt, like Krakatoa, over the Arctic Circle (when the firepower of your payload exceeds by tenfold all the dynamite exploded during World War ii)? Even now, the President of the United States sits alone at night, dreading the grim hour when he must open the memo from his aide, only to read upon the page the single phrase: pinnacle nucflash (the newsflash that chronicles the omnicide of the world).


What global threat of Sturm und Drang must your armies yet endure (even in their granite bunkers, deep beneath the massif of Cheyenne Mountain)? When every fountain of hellfire in the firmament can destroy you. When a k-dwarf star, like Gliese 710, can plow through the Oort cloud, bombarding the Earth with cometoids that shatter every land mass. When a Wolf-Rayet star, like wr 104, can outshine the galaxy in a burst of gamma rays so bright that the blaze must burn away the ozone layer. When the Sun itself can bloat, then flare, to engulf you in a flaming embrace that atomizes the iron core of your planet. Even now, your astronauts are running out of air while they writhe inside their blazing coffins. Even now, you must despair, for you have listened to the throb of the universe, yet you do not hear the cries of any other souls in Hell.


Tell me, Wraith and Reader, tell me: Will love save us from our fear that we are here alone? What then if we peer into the sky at night but see no distant lantern blinking at us from the far end of the cosmos? What if such a beacon goes unnoticed, like a dying flame in the darkness? What if only the most wicked people in the world (the pharaohs, the warlocks, the assassins) ever get to read this signal from outer space? What if the message, when decoded, says nothing but a single phrase repeated: ‘We despise you! We despise you!’ What if we find the evidence for such hate embedded in our genomes? Even now, colonies of dark ants from a species called Mystrium shadow feed themselves upon the blood of their young. Even now, my love, these words confess to you that the universe without you in it is but a merciless explosion.


Come with me, and let me show you how to break my heart.




Christian Bök no festival North of Invention na Poets House, Nova York, janeiro de 2011. Foto copyright © Lawrence Schwartzwald.




Christian Bök (Toronto, 1966) é uma das vozes mais instigantes e estranhas da poesia contemporânea, tendo sido chamado de “o cientista maluco da poesia canadense”. Seu primeiro livro, Crystallography (1994), pode ser lido como uma espécie de “enciclopédia patafísica”, que aproxima geologia e linguagem. O segundo, Eunoia (2001), que se tornou um best-seller no Canadá e venceu o importante Griffin Poetry Prize, é um experimento inspirado nas restrições do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle, algo como Oficina de Literatura Potencial). Os poemas traduzidos aqui constituem a primeira parte – “The Late Heavy Bombardment” – de seu terceiro projeto, The Xenotext – Book 1 (2015), que parte das pesquisas e experiências realizadas por Bök no campo da engenharia genética, aproximando-o da textualidade biopoética de artistas como Eduardo Kac, Joe Davis e Pak Chung Wong. The Xenotext (que traduzi como O Genotexto) é o primeiro rebento de um esforço de uma década, para criar um exemplo de “poesia viva”. Um "alfabeto químico" é usado para traduzir um poema em uma sequência de DNA, posteriormente implantado no genoma de uma bactéria (neste caso, um micróbio chamado Deinococcus radiodurans - um extremófilo, capaz de sobreviver, sem mutação, mesmo nos ambientes mais hostis, incluindo o vácuo do espaço sideral). Seu intuito é projetar uma forma de vida para que se torne não apenas um arquivo durável para armazenar um poema, mas também uma máquina operante para escrever um poema, capaz de persistir no planeta até que o próprio sol exploda. Sem entrar nos pormenores da pesquisa biopoética de Bök, ainda muito polêmica entre geneticistas, linguistas e poetas, apresentamos em português o início dessa jornada fascinante, escrita em uma prosa poética incandescente, que começa no Éon Hadeano da Terra (remetendo tanto às Geórgicas de Virgílio como a recentes descobertas científicas) e termina, ou melhor, recomeça naquilo que parecia ter-se tornado banal, anacrônico e insignificante, diante das grandes explosões do cosmos: o coração.



Marcelo Reis de Mello (Curitiba, 1984) é poeta. Doutor em Literatura Comparada pela UFF, é orientador efetivo da área de Literatura da COART/UERJ. Publicou, entre outros, Elefantes dentro de um sussurro (Cozinha Experimental, 2017) e José mergulha para sempre na piscina azul (Garupa, 2020). Traduziu ao português livros de Miguel de Unamuno, Luis Felipe Fabre, Arturo Carrera, Daniel Link, entre outros.

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