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O Bolsonarismo e seu projeto de iconoclastia continuada

por Clara Habib (colunista convidada)



No dia 8 de janeiro, uma semana após a posse de um presidente eleito democraticamente, apoiadores do candidato derrotado invadiram a sede dos três Poderes em Brasília levando caos e destruição. As câmeras de segurança flagraram com clareza uma das imagens mais chocantes que pudemos testemunhar: um relógio do século XVII sendo jogado no chão, resultando na sua destruição. A peça em questão, construída por Balthazar Martinot, relojoeiro de Luís XVI, foi um presente da corte francesa para Dom João VI e estava no Brasil desde 1808, quando a família real desembarcou no Rio de Janeiro. A história da arte conhece somente mais um exemplar similar construído por Martinot, que hoje compõe o acervo de Versalhes. Na imagem da câmera vemos duas faces, a face daquele que destrói o relógio e a do ex-presidente Jair Bolsonaro estampada em sua camiseta. O relógio de Martinot é apenas uma das numerosas peças danificadas durante a invasão. Dentre as inventariadas até agora, encontramos a tela “As Mulatas”, de Di Cavalcanti, que foi perfurada sete vezes, a escultura “Bailarina” de Victor Brecheret retirada de seu pedestal, um muro escultórico de Athos Bulcão perfurado na base e outras peças de importância para a história da arte e para o patrimônio nacional. Para além das obras de arte, foram encontrados danos aos monumentais prédios tombados pelo IPHAN, construídos por Oscar Niemeyer, numerosas peças de mobiliário destruídas e um estado de sujeira generalizado.



Imagem gravada por uma câmera de segurança do Palácio do Planalto. Fonte: Reprodução/Fantástico



O ataque em Brasília realizado pelos apoiadores do ex-presidente é chocante e sem precedentes na história brasileira, mas essa não é uma ação isolada. Ao contrário, ela reflete o descaso com o patrimônio histórico e artístico que foi uma das características marcantes de toda a gestão de Bolsonaro. Ou seja, os manifestantes teriam seguido a cartilha de destruição aprendida com seu líder. Poucos dias após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e na sexta-feira anterior aos ataques aos edifícios, a primeira-dama Rosângela da Silva denunciou o frágil estado de conservação do Palácio da Alvorada e os sérios danos causados a obras de arte de seu acervo durante os anos anteriores como, por exemplo, a tapeçaria “Músicos” de Di Cavalcanti, que sofreu danos em decorrência da exposição solar depois de ser mudada de lugar pelo então presidente Bolsonaro. A tapeçaria em questão foi uma encomenda do próprio Oscar Niemeyer para o artista, tendo sido idealizada para ocupar o lugar no qual ela se encontrava até Bolsonaro retirá-la para montar um novo cenário para suas lives semanais. Desse modo, para além dos danos materiais causados à peça, podemos entender seu próprio deslocamento como uma ação de destruição simbólica, uma vez que seu contexto histórico não foi levado em conta e foram alterados seus objetivos e funções originais.




Primeira-dama Rosângela da Silva e a jornalista Natuza Nery diante da tapeçaria "Músicos" de Di Cavalcanti danificada pela exposição solar. Fonte: Reprodução/Globonews



O projeto de desmonte cultural do governo Bolsonaro não é recente e não está ligado exclusivamente à destruição material do patrimônio; ele foi anunciado desde sua eleição e está relacionado ao sucateamento das instituições que possuem o dever de gerir e preservar a cultura nacional. Ainda em 2018, a equipe de transição de Jair Bolsonaro noticiou que o Ministério da Cultura seria diluído e integrado ao Ministério da Cidadania. No dia primeiro de janeiro de 2019, uma das primeiras medidas do recém empossado presidente foi a extinção oficial do Ministério da Cultura através de uma Medida Provisória. No rol de ataques à cultura brasileira estão a instrumentalização do IPHAN para atender a demandas de grandes empresários, o esvaziamento da Lei Rouanet e o fatídico incêndio da Cinemateca após um longo período de descaso com o prédio que deveria ser preservado pelo governo federal.


Retornando ao ataque em Brasília, a imprensa tem noticiado o ocorrido com um sério caso de "vandalismo". O termo "vandalismo" faz referência à palavra "Vândalo", nome de uma das tribos germânicas responsáveis por invadir o Império Romano. O primeiro registro da utilização do termo vinculado a ações de ataque ao patrimônio material remonta ao contexto da Revolução Francesa, quando Henri Grégoire associou a prática de destruição de símbolos do Antigo Regime pelos revolucionários ao modus operandi das tribos germânicas. Atualmente, a palavra vandalismo é frequentemente utilizada para definir uma conduta de destruição gratuita, realizada por pessoas ou grupos desprovidos de reflexão crítica ou ideologia formada. Apesar da conotação extremamente negativa da palavra "vandalismo" coincidir com os efeitos deletérios do ocorrido em Brasília, acredito que ela não é suficiente para definir o significado real de tais ações de destruição. Os ataques ocorridos em Brasília não são gratuitos, mas fazem parte de toda uma estratégia ideológica de destruição material e simbólica que imperou, como dito anteriormente, nas práticas da gestão de Jair Bolsonaro e que seguem sendo reproduzidas por seus seguidores. Desse modo, é mais correto definir tais atos como uma manifestação iconoclasta.


O significado literal de “iconoclastia”, uma palavra de origem grega, é “quebra de imagens”. Sua utilização remonta à crise ocorrida durante os séculos VIII e IX no Império Bizantino, quando motivações religiosas e políticas causaram dois grandes surtos de destruição de obras de arte. Atualmente, marcando uma diferença entre seu significado e o significado de vandalismo, a palavra iconoclastia é utilizada para definir ações de destruição motivadas por ideologias, sejam elas políticas, religiosas, econômicas etc. É importante frisar que a ação iconoclasta não representa uma ideologia específica em si, mas é uma ferramenta utilizada pelas mais diversas ideologias. Desse modo, contemporaneamente vemos o instrumento da iconoclastia sendo utilizado tanto para ações racistas (como a destruição de terreiros de religiões afro-brasileiras) e antidemocráticas (como a destruição em Brasília), quanto como uma ferramenta de reparação histórica como ocorre nos ataques aos monumentos incômodos de caráter racista e colonialista. Entendendo a destruição como ferramenta, é possível delinear melhor as diversas camadas do fenômeno iconoclasta contemporâneo e saber diferenciar quando a destruição é ativada como resistência e quando ela é ativada como barbárie.


Apesar do grande aumento do fenômeno da destruição de obras de arte e monumentos públicos que temos testemunhando atualmente, a ação iconoclasta é tão antiga quanto a palavra grega que a define. Em 415 a.C., no contexto da Guerra do Peloponeso, por exemplo, uma série de estátuas do deus Hermes foi destruída na cidade de Atenas. O ataque iconoclasta, atribuído inicialmente a motivações religiosas, também foi considerado um grave delito de caráter cívico, uma vez que, no contexto da Grécia Antiga, religião e política eram completamente interligadas. Desse modo, uma afronta aos deuses poderia colocar em risco a própria democracia ateniense. De certo modo, podemos encontrar um antecedente da nossa contemporânea tragédia tropical no antigo caso dos hermocópidas[1] gregos. Mas no caso brasileiro, não foi um ataque aos deuses que desestabilizou a democracia, mas uma contínua iconoclastia, tanto material quanto simbólica, direcionada não só ao patrimônio cultural, mas também representada pela oposição ao Supremo Tribunal Federal, à Constituição e através do questionamento dos resultados legítimos de uma eleição democrática. Como dito anteriormente, a princípio, um ataque iconoclasta deveria pressupor necessariamente uma destruição material. É necessário, entretanto, ampliar o sentido do termo e entendê-lo como um tipo de oposição conceitual para além unicamente do dano material. No ataque a Brasília, a materialidade do patrimônio histórico foi destruída, mas para além disso todo um projeto de civilização foi atacado. O governo Bolsonaro foi iconoclasta desde seu início, tanto através de estratégias literais de destruição quanto através de estratégias simbólicas. A destruição de Brasília pelos seguidores de Bolsonaro é trágica e impactante, mas só coroa e confirma o projeto de iconoclastia continuada de seu líder.


Assim, podemos agora voltar a imagem do iconoclasta que destruiu o relógio de Martinot vestindo a camisa estampada com o rosto de Bolsonaro e entender a presença dessas duas faces como uma perversa alegoria da situação.



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[1] A palavra, de origem grega, significa "mutilador de Hermes" e foi utilizada por Plutarco em sua biografia de Alcibíades para designar os iconoclastas que atacaram as Hermas.





Clara Habib é historiadora da arte. Já atuou como professora substituta da Escola de Belas Artes da UFRJ e do Instituto de Artes da UERJ. Atualmente, é pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao PPGArtes/UERJ e financiada através do auxílio Pós-Doutorado Nota 10 da Faperj. É autora de diversos artigos que relacionam arte e religião. Nos últimos anos tem se dedicado a pesquisar o tema da iconoclastia, com destaque à organização de um dossiê temático publicado pela Revista Concinnitas (2021) e à coordenação do Podcast Projeto Iconoclasta (2022/2023).


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