Nomear o baú de nossos ossos

por Flávio Morgado


À revelia de um descaso orquestrado, cada vez mais justificado em genocídio assistido, do governo Bolsonaro com as mais de 158 mil mortes na pandemia do coronavírus, esta edição, que sai no dia 2 de novembro, não poderia passar incólume ao fato de que já somos uma geração atormentada por esse fantasma civilizacional.


O Primeiro Luto, óleo sobre tela, 1888, William-Adolphe Bouguereau



O dia de Finados é celebrado pela Igreja Católica desde o século II, quando o dia dos Fiéis Defuntos era inteiramente dedicado às orações em nome dos entes falecidos e dos mortos que ninguém mais lembrava. Assim como em outras tradições, mais místicas, a comemoração dos mortos é uma iniciativa dos druidas, pessoas encarregadas das tarefas de aconselhamento, ensino, jurídicas e filosóficas dentro da sociedade celta, que acreditavam na continuação da existência depois da morte. Reuniam-se nos lares, e não nos cemitérios, no primeiro dia de novembro. Para os espíritas, visitar o túmulo é a exteriorização da lembrança que se tem do espírito querido, é uma forma de manifestar a saudade, o respeito e o carinho. Para os mexicanos, o Dia de Los Muertos, tem acrescida uma camada de realismo fantástico, em que a presença dos mortos é concebida como uma realidade possível de comunicação entre esses dois mundos. Mais cética, a nossa tradição regozija o luto em sua melancolia ibérica.

Em suma, é uma forma de seguirmos adiante. O luto é a possibilidade de lidarmos com a lacuna, a surdez, mas não a mudez, da morte; que passa a se enunciar e dizer-se em nós em sua gagueira presencial e sua prolixidade laudatória. O elogio ao morto é a promissória da consolação de nossa própria morte. Nosso real, para ser vivo, tem também de comportar a ausência do que não é mais, mas que foi. Nosso luto autoriza a narrativa da morte, atua (e ensaia) o luto que terão que fazer quando partimos. A morte aprofunda nossa aporia, nosso impasse frente a durabilidade, e independente do credo ou do delírio que se ancore, é ela a condição que nos irmana nessa espécie de sóbria fraternidade que a finitude nos impõe; como se ao morrer, mantivéssemos nosso lugar no momento que o cedemos.

Para a psicanálise, o luto é entendido como um momento fundamental de reestruturação do ego em vistas de um trauma. Bem concebido em “Luto e melancolia” de Sigmund Freud, o luto é entendido sobretudo como um trabalho, que frente a um incontornável real, ao ver-se cindido, esse Eu mergulha em um estado de tristeza profunda e desdobramento da perda para evitar a própria devastação. O exercício dessa perda exige concentração, e o enlutado assume um compromisso existencial com a sua dor. Uma narrativa que precisa continuar apesar de.

Quando um país se vê diante de uma inédita mortalidade gerada por uma pandemia global, e na contramão de quase todos os líderes políticos, o Presidente da República minimiza a vida de 150 mil pessoas, diz que nada pode fazer, que “não é coveiro”, que a vida de algumas pessoas não vale mais que seu projeto econômico, caso o Brasil sentasse ao divã, possivelmente o analista ofereceria muitas sessões para lidar com tamanho recalque, e já antevendo a devastação dessa identidade perante esse silenciamento e esse atropelo do luto. Mas o Brasil não é uma pessoa, o Brasil é uma eterna construção política, social, cultural e semiótica. O divã do Brasil são os livros de História.

À oração de meus mortos, tenho a impressão de que juntei as mãos na primeira vez que assisti a uma aula do curso de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. O impacto social do que eu entendo como o ensino da disciplina foi o que sempre me fez justificar duas frases ao explicar a importância do curso para os meus alunos: a História é uma forma de nos entendermos perguntando aos outros. E a História é a disciplina que permite à vida entender a morte se encaminhando para trás.

No meu primeiro livro de poemas resumi: a história é uma revisão de remorsos.

Por isso não se pode pensar em um processo de luto no Brasil sem cair no verso fácil de que “luto é luta”. Porque é real. Porque essas 158 mil vidas foram ceifadas por um projeto absolutamente irresponsável de governo, que demitiu dois ministros da Saúde em plena pandemia, que não conseguiu elaborar sequer um plano de contenção do contágio, que tentou boicotar todas as políticas de isolamento, que transformou em lobby e capital político a cura de milhões de pessoas que já lidam com essa marcha fúnebre de 2020.

Quem está de luto? Oficialmente qual foi o discurso do governo até aqui? Voltamos à normalidade com a barata vacina do cinismo e restou ao bom senso qualquer noção de humanidade. O Brasil hoje é um registro de sua humilhação, e não digo isso só em relação às questões econômicas e sociais, digo sobretudo em relação à falência do humanismo.


Reprodução: Instagram/@babyhealerdobrazil



Um amigo que recentemente perdeu o pai para a pandemia conversava comigo esses dias. Sobre a estupidez de uma morte que poderia ter sido evitada com o mínimo planejamento, mas sobre principalmente a dificuldade do luto. Em meio a uma onda de frívola euforia e sonsas condolências, como não culpar um coletivo, toda uma sociedade pela morte daquele ente querido? Esse amigo é só mais um dos tantos que tem que conviver com o descaso estatal e a nossa condescendência, nossa cabeça baixa frente a esse genocídio. Essa semana mesmo, o Hospital Federal de Bonsucesso explodiu. Pessoas que se tratavam da Covid-19 morreram ao serem removidas de seus leitos. As condições do hospital já eram alarmantes há anos, relatórios e mais relatórios foram enviados às autoridades responsáveis. Mas assim como os contratos fraudulentos dos hospitais de campanha e as sujas articulações com as OS’s, a posição do governo foi fundamental nessa tragédia. Não é um acidente, é o resultado de um plano de desgoverno.

Numa perspectiva justa, cada vez mais difícil de se amparar em meio à baixaria e ao negativismo que se tornou essa guerra semiótica, a História tem o dever de narrar esse desgoverno como o sintoma de todo esse nosso recalque, nosso silêncio covarde. O luto do Brasil é um profundo exercício de arqueologia de suas contradições. A condição fundamental dessa integridade é reconhecer o momento em que em todos os nossos “progressos” se afirmou primeiro o incêndio, a devastação, o aniquilamento, o silenciamento. Reivindicar a justiça histórica aos mortos pela pandemia é um movimento político, de afirmação da vida e do humanismo contra o direito de matar, tão imbuído no bolsonarismo, que realmente pode ser pouco o número de mortos frente à legitimação de todos as violências que representam seu mandato (impregnadas em nós desde sempre). O luto dessas mortes é a nossa possibilidade de luta por um Estado que defenda a vida. Como um júbilo, em nome desses mortos e da quase insolente vontade de viver, é preciso enlutar-se, organizar essas mortes ao nosso presente e ao nosso voto.



Que o dia de Finados seja ao menos essa nossa possibilidade de grito ante à necropolítica brasileira. Nomear o baú de nossos ossos, mesmo que ao lastro de nossa culpa, fará a História mais honesta na curadoria de nossas dores.



Los Caprichos, gravura, 1799, Francisco Goya

Rio de Janeiro, 2 de novembro de 2020

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