"Não viemos de Poliçópolis": entrevista com o policial civil Beto Chaves

Atualizado: Set 14

por Flávio Morgado



Cheguei até o policial civil e coordenador do programa social Papo de Responsa, Beto Chaves, depois de assistir ao seu depoimento no documentário Relatos do front (de Renato Martins, 2019). Uma fala lúcida, diferente dos engessamentos da comunicação das corporações policiais, Beto traz uma consciência da própria classe e uma postura crítica em relação a nossa estruturação social, o que me fez decidir que, nessa série em que me debruço sobre os problemas da nossa Segurança Pública e o surgimento e fortalecimento das milícias, se fosse para escutar uma "voz de dentro" (dissidente em relação ao estereótipo que construímos dos policiais), é ele quem eu deveria escutar. Agradeço ao Beto pela entrevista.




O policial civil Beto Chaves. Fonte: BOL Notícias

FM: Como policial civil e coordenador de um programa que visa estabelecer um diálogo entre as forças de Segurança Pública e a sociedade, gostaria que nos contasse um pouco da sua trajetória.

BC: Dezessete anos de carreira, dentre os quais quase dez me dividindo entre o front das atividades investigativas e operacionais da Polícia Civil do Rio de Janeiro e as atividades de prevenção. Conversando com você me dei conta de que já se vão quase oito anos de dedicação exclusiva ao Programa de Responsabilidade Social Papo de Responsa.

Os anos iniciais foram os mais difíceis, muito embora já tenha entrado para a Polícia bastante maduro em termos de mentalidade, as primeiras investigações e operações requerem de você muita escuta, observação e um senso de respeito enorme aos policiais mais antigos. Eles detêm um saber prático absolutamente essencial e, muito embora exista um esforço significativo na produção acadêmica escrita, nossa tradição ainda é muito oral e real, tendo das ações mais cotidianas às mais complexas aprendizado em tudo. 

Me forjei fundamentalmente nas operações policiais em comunidades e, curiosamente, foi exatamente essa atuação que me permitiu aprofundar e aprimorar minha visão de mundo, entender e exercitar o Ser Humano que gostaria de ser; perceber e criar no meu modelo mental a Polícia que gostaria de fazer e ver em atuação social e, sobretudo, compreender que não há a mínima possibilidade de termos justiça em nosso País, sem a tão sonhada Justiça Social.

FM: Quando eu assisti ao seu testemunho no documentário Relatos do Front (2019), achei muito importante que a sua fala, como alguém de dentro, como alguém que pode apertar o gatilho, tenha a revolta com um sistema que impõe essa lógica. Como ser um agente de segurança pública consciente em meio a uma produção constante de ódio nas instituições?

BC: O ódio, a raiva, o rancor, a mágoa, o ressentimento nunca foram bons conselheiros de quem quer seja. Nós, os profissionais de segurança pública, ao menos aqueles que ainda continuam saudáveis, precisamos agir como profissionais que somos e não responder às imensas pressões sofridas de qualquer forma, ou a qualquer tempo, rapidamente como se existissem soluções fáceis para problemas complexos, elas não existem, e nós como sociedade não deveríamos exigi-las. As instituições Policiais e seus atores deveriam se comportar como instituições de Estado com suas matrizes, protocolos, métodos voltados ao interesse social, sem um lado específico e trabalhando firmemente para todos. Isso constrói credibilidade, visão de futuro e uma marca sólida, que a despeito de ataques, se mantém firme em bases apoiadas pela sociedade. 

Por outro lado, muito embora por vezes se desmereça essa condição, ainda somos humanos e carregamos em nós as mesmas marcas, cicatrizes e feridas que o corpo social ao qual pertencemos reproduz. No país polarizado que vivemos, intolerante a opiniões contrárias, encharcado de fake news; repleto de disputas que envolvem poder, dinheiro e vaidade, sem interesse coletivo algum, com instituições de Estado enfraquecidas por atitudes questionáveis, motivadas por conveniências momentâneas; com uma imprensa que disputa narrativa como quem no palanque briga por espaço para estar mais próximo ao microfone, ora para um lado ora para outro, como se houvesse um flanco de interesse a estar. Envoltos a tudo isso estamos nós, cidadãos e cidadãs que, como nos absurdos e absolutamente entristecedores "acidentes” de Mariana e Brumadinho, temos a sensação de estarmos num mar de lama sem fim, imposto por aqueles que tomam as decisões e que nós, numa ultrajante brincadeira do destino, na maioria das vezes por omissão ou ação, os colocamos em suas cadeiras que mais parecem tronos.

E quanto ao gatilho, tão bem lembrado por você, de mensagem forte e tão cheia de significado, posso dizer com a mesma firmeza: não os apertamos sozinhos. As mãos ensanguentadas estão em cada esquina que permitimos que uma criança não esteja na escola, que seres humanos vivam indignamente em lugares que nem insetos deveriam viver; todas as vezes que permitimos que alguém passe fome, que magistrados negociem suas sentenças, que a imprensa negocie suas letras, que o povo negocie seus valores, que os governantes negociem nossa saúde. Garanto que, enquanto permitirmos, haverá nas mãos da mesma sociedade que dissemina o ódio, de que falávamos, muito sangue. Todas as vezes que votamos em determinado discurso nos tornamos co-responsáveis, todas as vezes que aceitamos que nossa cultura seja diminuída ou que nossos jovens não tenham acesso, que o esporte não chegue, que a educação seja torturada, seguiremos permitindo; e os gatilhos só serão deixados de lado e deixarão de ser tão potentes, quando decidirmos que tipo de sociedade queremos, que tipo de gente seremos. E nós, aos olhos de muitos descartáveis e em sociedade absolutamente adoecida, continuaremos adestrados tentando cumprir nossa missão.



Tabela comparativa de crescimento nas taxas de homicídios. Fonte: O Globo.



FM: O direito de matar é o cerne da questão. De um lado, ele convoca o também direito de morrer, por outro, abre o precedente para a corrupção, uma vez que esse mesmo direito de matar traz, também, as questões de “quem” e “quando”. Como pensar essa base teórica na noção de Segurança do Estado e as condições de trabalho do policial enquanto cidadão e servidor público?

BC: Existe uma complexidade muito maior quando se trata de condições de trabalho policial, e assim a sua pergunta ganha um contorno de importância com mais significado. Há nas simplificações de uma parte dos chamados “especialistas" em Segurança Pública que condições de trabalho dignas dizem respeito a um ambiente de trabalho, delegacias e batalhões, por exemplo, asseados, com computadores e ar condicionados funcionando, com viaturas novas e investimento em armamentos, coletes dentro da validade. Posso dizer que isso também, mas seria como ficar bem satisfeito ao votar em alguém porque acreditamos que aquela pessoa é honesta. Bom, aos meus olhos, por mais estranho que possa parecer, isso deveria ser padrão e não motivo de voto ou alegria. Todavia, o que percebemos claramente é que são desconsiderados como condições de trabalho o salário indigno recebido, a falta de reconhecimento social, as pressões sofridas em procedimentos sensíveis, o ambiente de atuação profissional em contextos de enfrentamento urbano incomparáveis no mundo (exceto a ambientes de guerra declarada); o adoecimento emocional que acontece em decorrência da pouca ou ausente estrutura de amparo ao policial, a lógica humana de quem cuida do cuidador, o exercício de funções que não são afeitas ao trabalho policial, as perseguições e os assédios, o contexto geográfico socioeconômico em que atuamos... Isso para exemplificar o mínimo do cenário hostil e árido no qual trabalham e tomam decisões homens e mulheres profissionais da Segurança Pública. 

Quanto a corrupção não acredito que sua precedência esteja alicerçada nas bases do direito de matar e morrer, isto, sob meu ponto de vista está mais baseado na forma como historicamente fomos educados “farinha pouca meu pirão primeiro”. A sociedade do "jeitinho", do "você sabe com quem está falando?", baseado na criação das dificuldades para a facilidade, na impunidade escancarada dos poderosos, na ausência de valores coletivos, na incompetência ou anuência de órgãos fiscalizadores, em nossas ações e omissões cotidianas para citar apenas alguns exemplos mais uma vez.  

Meu pensamento, para aqueles que me conhecem mais de perto, está nada, portanto, nem um pouco baseado no exercício da polêmica. Não sou afeito a esse tipo de exposição, meu pensamento está sempre baseado no exercício contínuo dos processos de reflexão e crescimento social coletivo, portanto te provoco a pensar nesse sentido se sua pergunta no que diz respeito ao "direito de matar e direito de morrer", como traduziu, não seria melhor endereçada a mim, a partir do seu pensamento e provocação, no “direito de matar e dever de morrer”. Todos nós, os envolvidos nessa triste realidade, temos a sensação de descartabilidade tão comum àqueles considerados invisíveis, para isso basta conversar com as famílias ou policiais feridos em ações policiais, no exercício de nossas funções ou em razão dela. Nesse sentido, te garanto, no desprezo à vida humana tão comum nos dias atuais, nossas mortes em seio social também não trazem qualquer desconforto. O que, portanto, me faz intuir, que o Direito de Viver, esse sim um bom combate, em sociedade tão desigual quanto a nossa, é mais merecido para uns do que para todos. A pergunta que devemos nos fazer é: Quem está ganhando?  

O programa social "Papo de Responsa" participa da 1° Semana de Prevenção à Violência Escolar da Fronteira Oeste, no Espírito Santo em 2019. Fonte: site do Governo do ES.




FM: Como surge o programa Papo de Responsa e quais os seus desdobramentos?

BC: O programa, nos moldes como o conhecemos hoje, surge em 2008, mas ele nasce de forma embrionária ainda em 2003 com a criação do Projeto Civilzinho. Em 2009 recebemos o reconhecimento do Ministério da Justiça, em 2012 nascemos de forma administrativa no organograma da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro, em 2013 regulamentam-se nossas ações internamente. Ao longo de todos esses anos o Papo de Responsa apresentou resultados tão positivos no Rio que passou a ser convidado para palestras em outros países e estados, resultando na replicação da marca Papo de Responsa, implantada desde 2013 com a assinatura de Termo de Cooperação Técnica na Polícia Civil do Espírito Santo, e em 2016 na Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Ambas realizando com extremo êxito a metodologia em seus respectivos estados, aumentando nossas fronteiras de atuação, demonstrando que a metodologia criada, acadêmica e, sobretudo, humana, pode estar em qualquer lugar do país.

O ano de 2019 é marcado pela transição do Programa Papo de Responsa para a Academia Estadual de Polícia Sylvio Terra - ACADEPOL, acrescentando aos seus objetivos multiplicar a prática alcançando a outros policiais. Aumentando assim a capilaridade do programa, inserindo nos cursos de formação policial o conceito sobre a PREVENÇÃO À CRIMINALIDADE, como ferramenta de combate e parcela importante da responsabilidade social da SEPOL, como continuidade da promoção de uma imagem positiva junto à sociedade, alinhamento da metodologia do programa ao escopo metodológico da ACADEPOL e a supervisão do andamento do programa nos estados onde é replicado (Rio Grande do Sul e Espírito Santo).

O Papo de Responsa é um programa de educação complementar e de responsabilidade social da Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro, vinculado à Academia Estadual de Polícia Sylvio Terra, que tem como objetivo de sua ação a interlocução com a sociedade. Seus principais espaços de atuação são as escolas de segundo segmento e ensino médio, públicas e privadas, universidades, instituições religiosas, conselhos comunitários, empresas. Na promoção do "papo": um diálogo descontraído sobre ética, ações de prevenção à violência, crime e o papel do policial na sociedade. 

Sua metodologia é baseada no princípio do diálogo e na produção de uma rede sustentada pelas bases sólidas do respeito às diferenças, da promoção da cidadania e da cultura de paz. Em escolas, o Programa segue um caminho baseado na sinergia com a direção e coordenação educacional para apresentação e alinhamento de proposta pedagógica, escolha de temas-chave e definição das futuras agendas. Em seguida, o papo é com os docentes, buscando o ajuste da metodologia ao objetivo de construção conjunta do encontro. Depois do papo com os jovens, é hora do encontro com as famílias, numa comunhão de esforços para o bem.


O Papo tem como referência conceitos. São os conceitos que orientam as falas, que estão presentes de forma transversal em qualquer tema que venha a ser abordado. Conceitos que estruturam o pensar, o diálogo e as expectativas criadas junto ao grupo. Sendo entendido como o conjunto de valores e ideias que sustentam uma visão de mundo e que orientam um fazer. São eles: Relacionamento Humano, Cuidado, Cultura de Paz, Respeito às Diferenças, Exercício da Cidadania, Escolhas e Responsabilidade, Ética.

Em 2020, a despeito de todos os desafios impostos pela Pandemia do Novo Corona Vírus, com a edição do Plano de Contingência Acadepol baseado no Decreto governamental, o Papo de Responsa continua firme em suas bases conceituais e metodológicas, próximo de sua comunidade pelos meios virtuais possíveis. Ampliando seu papel institucional, trabalhando na construção de seu curso de multiplicadores, aprimorando suas diretrizes, desenvolvendo seu projeto de avaliação de impacto e valorizando cada vez mais seu papel institucional de catalisador da Responsabilidade Social da Secretaria de Estado de Polícia Civil.  

Em 2010, Beto Chaves morou sete dias no Complexo do Alemão para gravar o reality show "Papo de Polícia" para o canal Multishow, exibido em 2011. Fonte: Revista Epoca.



FM: Que tipo de polícia é possível pensar em contrapartida a que temos hoje?

BC: A melhor pergunta seria que tipo de sociedade poderíamos pensar para termos melhores médicos, administradores, professores, assistentes sociais, jornalistas, operadores do direito, atletas, artistas, pais e mães, orientadores religiosos, gestores públicos, políticos, policiais, etc… Não viemos de Poliçópolis ou de um outro planeta distante para ocuparmos esses espaços. Somos todos matéria-prima dessa sociedade adoecida, todos os profissionais do campo privado ou público vêm dessa sociedade e agem a partir de valores concebidos anteriormente a sua chegada a esses espaços. Pensando nisso, só seremos capazes de melhorarmos as instituições públicas ou privadas se melhorarmos a sociedade que fornece a matéria-prima humana para cada um desses ambientes. Infelizmente, ainda vivemos numa sociedade que sequer entendeu, não só o valor do que significa a palavra cidadania, como o seu conceito e que pensa nas bases do exercício pleno dos seus direitos, especialmente os individuais, em detrimento do verdadeiro conceito de cidadania calcado no cumprimento de nossos deveres coletivos fazendo jus, ai sim, aos nosso direitos pessoais e coletivos.

Entretanto, para não parecer estar fugindo de uma pergunta tão profunda quanto complexa, o que antes de mais nada precisa ser compreendido é que, o pensamento sobre Segurança Pública vigente é obsoleto desde seu nascimento. “Especialistas" durante anos, e até hoje, consideram em suas análises, especialmente nas televisas, somente as polícias como fonte de solução e problemática do tema, o próprio termo em si é decadente. E mereceria nova consideração, no mínimo nas bases do que poderíamos chamar de Segurança Social, que prevê e pode considerar como base anterior de causa e efeito dos chamados problemas da Segurança Pública. As questões sociais que os acarretam, tais como, sermos um dos países com uma das maiores taxas de  desigualdade social do planeta, termos problemas habitacionais gravíssimos, saúde pública de péssima qualidade, absurda taxa de analfabetismo e analfabetismo funcional, taxas de desemprego nas nuvens, falta de acesso e incentivo a cultura e esporte, especialmente entre jovens, diminuição dos investimentos em ciência e tecnologia; saneamento básico vergonhoso, a permissividade, descuido e desprezo com nosso meio ambiente, instituições de Estado que funcionam como instituições de governo, sem credibilidade; corrupções, jeitinhos e incompetências de toda sorte, carga tributária das mais altas do planeta, sensação de retorno zero, iluminação pública e asfaltamento inexistentes em muitos lugares... Além disso, no que diz respeito ao indivíduo, percebe-se claramente uma intolerância enorme, incapacidade de conviver e coexistir com o contrário e dificuldade extrema em respeitar regras, isto tudo, para dizer o mínimo, mais uma vez. 

Trabalhar portanto nas causas e não mais nas consequências dos desafios. Quer melhorar as Polícias? Permita que ela seja a última instituição Pública a adentrar em nossas áreas mais vulneráveis. Determinemo-nos a invadir verdadeiramente nossas comunidades com educação e saúde de qualidade, assistência social, esporte, cultura, lazer, acesso as mais diversas possibilidades religiosas, habitação digna, saneamento, fortalecimento das famílias, trabalho e renda, ciência e tecnologia. Se ao final, nada disso funcionar, chamem a Polícia. Nós usamos armas e somos chamados a cotidianamente "resolvermos" problemas que não nos dizem respeito em sua gênese.  

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