José mergulha para sempre na piscina azul

Atualizado: Set 14

por Italo Diblasi



5 réquiens a partir do novo livro de Marcelo Reis de Mello



1. José mergulha para sempre na piscina azul, anunciou o título de uma pequena notícia, de autoria indefinida, veiculada no Jornal do Brasil em Março de 1972, que destoava das notícias que nos acostumamos a ver nos jornais pelo caráter altamente poético de sua escrita, a narrativa quase onírica de um suicídio, o salto de um operário em direção à água, ao raso azul de uma piscina, ao raso azul de uma mansão: cloro e azulejo; queda e vertigem; repouso e libertação. Ou não?





Creio não ter sido a surpresa (que também senti), mas uma estranha excitação, eufórica, triste e alegre ao mesmo tempo, o que predominou quando o Marcelo me mostrou a notícia e disse que havia encontrado o título para o livro que estava fechando, livro que àquela altura já aguardava ansiosamente, e que agora vemos lançado pela Garupa, sempre ela. De antemão quero avisar: para mim, é o livro do ano. E com isso não quero dizer apenas de sua qualidade, mas sobretudo do timing irônico que o traz à luz em 2020, o ano da peste. De certa forma, o novo livro do Marcelo apresenta um itinerário que vem sendo gestado e que culmina, agora, no que estamos vivendo. De certa forma, o próprio livro é o tal salto no azul, manual de sobrevivência (ou saída) para vagalumes. De certa forma, nada será como antes.



2. Viver é um estado de exceção, propõe acertadamente o título de um dos poemas do livro. E é esta afirmação – dura, mas necessária – o que sobressai da leitura destes textos, não como confirmação paralisante ou mesmo niilista de algo que se vê condenado, mas como força vital, como se fosse necessário constatar, enfim e novamente, no âmago mesmo do circo que se encontra armado, a fragilidade de tudo, e fazer dela combustível: para incêndios mais brilhantes, modos mais bonitos de viver e morrer. Não, não espere com isso encontrar um caminho ou solução. Este manual requer o cuidado dos desesperados, isto é: coragem. E no mais das vezes ter coragem equivale a duvidar, deixar que as coisas fluam como suor de febre. Toxina. Os próprios sentidos nos traíram, de modo que é preciso reaprender a aprender. Este livro caminha neste sentido. Vem do espanto a saída, e ela é sempre alegre. Debilmente alegre. “Temos fé no veneno”, disse Rimbaud, e a verdade é que continuamos tendo. “sempre soubemos, amigos/ quem pensa demais acaba/por tornar-se um pouco/pálido – ganha a flor/ mas perde o viço”.



3. Para todos os que se demoram ao nascer a vida pode ser uma espécie de presente, milagre estúpido e precário que demanda festa. E que ninguém se engane: o livro do Marcelo é uma celebração da vida. Uma celebração contestatória da vida. Philia. Não é à toa que o livro esteja repleto de homenagens, dedicatórias, referências. Colcha de retalhos formando territórios afetivos. Das pálpebras de um bebê ao porre de um velho poeta, “em tempos de incêndio coração é sede”. É também um esforço necessário que no meio de tanta destruição sejamos capazes de afiar o espanto, descobrir-nos em estado de amizade pela vida. Pactuar-se com a vida significa levá-la a sério, sabendo que tudo é um pouco ridículo (para não dizer vil). As ilhas que não se desertificarem se tornarão estéreis e por fim se castrarão. E não se trata de resiliência, aqui tudo é wasteland mesmo, terra arrasada a que preço, com que fim, que alguém pudesse levantar o queixo e falar ainda em humanidade. Manter os olhos abertos e chorar, como crianças que se perdem na multidão. Aquelas crianças que fomos e somos.


4. Desta geração que se perdeu de propósito sabemos poucas coisas: que olham com ternura para fogueiras. Que encontram refrões. Que não são poucos. Que são órfãos por vocação. Que têm todos algum tipo de família. Que não guardam dinheiro. Sabemos que preferem o Potlach à cifra, o dispêndio ao crédito. Que estão sempre errando. Que erram com graça. Que carregam pedras nos bolsos. Que têm os bolsos furados. Que são ainda o terceiro mundo. Que sabem o que isto implica. Que decoram poemas. Que entortam sempre, mas nunca desabam. Sabemos que exageram, que insistem, que levam a palavra a sério, que se cagam de medo. Que estão por um fio. Que se amam. Que não são diferentes dos demais. O que podem e até onde vão, não sabemos ainda.


5. Tentarei de novo e sempre, enquanto houver poesia, enquanto houver um Marcelo Reis de Mello, enquanto não for suficiente a paisagem, enquanto os Josés mergulharem para sempre, enquanto nos sentarmos nos meio fios para rirmos juntos, pelo tempo que for necessário: tentarei de novo. Sobretudo quando não for mais possível acreditar, quando tudo já for pequeno e crucial, quando as manhãs surgirem prematuras, quando o cansaço tiver vencido, quando o último de nós tiver desistido: tentarei de novo, com este livro debaixo do braço, com este livro no pensamento, com este livro no chuveiro, com este livro em sala de aula (quem sabe!): tentarei de novo para ver a Juliana nunca desistir, o Heyk pôr fogo em tudo, o Zarvos dando seminários na lua, O Flávio com filhos, O Leo, a Julya, a Julia e a outra Julia, o Dr. Antero e a Simone, o Zacca, o Bustilho, a Fernanda, tentarei de novo com eles, o Santiago, o Frederico, o Lucas, a Joana e o filho deles, o Zoé, a Aninha, a Pollyana, o Mariano, e o aéreo do Victor, as Marianas todas, Bianca, as gêmeas, o Germano e a galera do sul, tantos e intermináveis nomes presentes, de uma forma ou de outra, neste livro bonito e generoso, neste livro um pouco monstruoso, como são monstruosos o tempo, e enquanto for azul a vida, a piscina, a cegueira atrás de nossos olhos, tentarei de novo, tentarei de novo, tentarei de novo:

Tentarei de novo.




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