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Há de ser outro dia

por Gustavo Gomes




Independência ou Morte, óleo sobre tela de Pedro Américo, 1888




Algo misterioso acontece nos anos com final 22 no Brasil. Em 1822 foi declarada a independência. Em 1922, o movimento modernista lança a Semana da Arte Moderna que, comentada até hoje, foi uma espécie de brado à independência, valorizando a nossa cultura e a nossa produção artística. Agora, em 2022, tudo indica que teremos um forte grito de liberdade e independência com as eleições que se aproximam. Se o rio que navega o Brasil mantiver o mesmo ritmo, logo estará livre de Bolsonaro e de toda a má gestão, negacionismo e da política de morte que seu governo simboliza. Assim como os Estados Unidos conseguiram expurgar Trump da Casa Branca, será a nossa vez de tirar Bolsonaro do Palácio do Planalto. Mas a pergunta que fica é: isso basta?


Eleição é um momento em que todo um povo é convidado a entrar em uma espécie de catarse social, lança todas as cartas na mesa e decide qual será o projeto, ou melhor, os projetos para o seu futuro nos próximos anos. Não será somente a cadeira presidenciável que estará em disputa. Governadores, Senadores, Deputados Federais e Deputados Estaduais serão eleitos em todo o país, marcando um momento de reinício da política nas principais casas espalhadas entre o Oiapoque e o Chuí. São casas, palácios e prédios importantes por concentrarem os recursos e as decisões sobre as políticas públicas a serem implementadas. Somente na União, serão mais de 4 trilhões de reais nas mãos de um novo presidente, uma nova equipe de ministros e um congresso de 594 cadeiras para discuti-lo. São Paulo e Rio de Janeiro, juntos, concentram mais de 375 bilhões em seus orçamentos que, por sua vez, são construídos em diálogo e aprovação de dezenas de deputados estaduais. Há muito em jogo e os jogadores já estão se movimentando intensamente.


Muitos sofás, cadeiras e mesas de cafés, restaurantes e salas privadas são o palco das primeiras grandes definições para o que estará presente nas propagandas e debates eleitorais. Enquanto o jogo é montado, cada detalhe é importante e definidor da disputa que aquecerá o país em meados de agosto. Há tanto para ser definido que pode ser um tanto cansativo, ou até mesmo pretensioso, tratar das movimentações políticas. Todavia, um resumo não precisa ser dispensado:


No roteiro das eleições de 2022 o protagonista se chama Lula. Nomes como Bolsonaro, Moro e Ciro mantém uma estagnação ou até redução na intenção de votos de acordo com as últimas pesquisas. Em um retorno para colocar inveja até em Getúlio Vargas no seu “bota o retrato de do velho outra vez, bota no mesmo lugar”, Lula corre a passos largos na liderança e busca consolidar uma vitória no primeiro turno, trazendo setores da direita a partir de nomes como o de Geraldo Alckmin, principal cotado, por enquanto, para a vice-presidência. Ao mesmo tempo, o petista aproxima o PSB (Partido Socialista Brasileiro), que conta com uma seleção aos moldes do camarote do BBB, combinando Flávio Dino do Maranhão, Tábata Amaral e Márcio França de São Paulo, Marcelo Freixo e Alessandro Molon no Rio de Janeiro, além dos clássicos representantes de Pernambuco. Cada detalhe nesse jogo importa. A decisão de Alckmin impacta diretamente na corrida eleitoral em São Paulo, com Haddad, Márcio França, Boulos no páreo e no Rio de Janeiro, com Freixo, Castro e Rodrigo Neves, ex-prefeito do Município de Niterói. O Cenário no Rio de Janeiro está aberto. O líder das pesquisas, quando citado, e prefeito do Rio, Eduardo Paes, não será candidato, mas seu peso na disputa é inquestionável, assim como o do presidente da Câmara André Ceciliano.


À medida que a eleição chega, vamos nos tornando mais pragmáticos ou até mesmo mais idealistas. As torcidas pelos nomes, as polarizações, a rejeição, os posts de segundos das redes sociais e as fake news tomam conta do palco. Por isso, nesse artigo de abertura, prefiro evitar a ansiedade de analisar um cenário bastante incerto da política e observar a realidade que bate à porta de milhões de pessoas todos os dias. Realidade que lança desafios que somente políticas públicas efetivas e comprometidas, já na campanha eleitoral, podem solucionar, ou fazer melhorar o cenário.


Obviamente, o objetivo aqui não é deslegitimar as articulações políticas, uma vez que além de “fazerem parte do jogo”, são justamente elas que vão orientar as necessidades dos governos e dos grupos políticos. Pelo contrário, o objetivo é contribuir para que as articulações e a nossa compreensão sobre as próximas eleições estejam conectadas com os desafios que temos de superar enquanto nação.


O primeiro desafio é o combate à pobreza e a redução das desigualdades sociais. Questões econômicas, principalmente com o aumento do preço da gasolina, dos alimentos e da energia, são as principais urgências da população de acordo com as pesquisas de 2021. Durante o último governo, o Brasil entrou novamente para o mapa da fome, de acordo com a ONU. No mínimo 1 em cada 4 pessoas está em situação de vulnerabilidade alimentar, devido ao desmonte das políticas de assistência e combate à fome. Os governadores e deputados do Rio de Janeiro vão precisar lidar com a situação crítica de mais de 2 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza. Já os de São Paulo, terão que implementar políticas públicas para reduzir o número que já ultrapassa 3,8 milhões, segundo dados do CadÚnico.


Em um cenário que nasce após os piores momentos da pandemia, o coronavírus ainda será um problema. Em um país onde 30%, ou seja, mais 60 milhões de pessoas não estão vacinadas e que estará recém-saído de uma das maiores campanhas de desinformação sobre a vacinação, a superação do Corona vírus e a preparação do SUS para novas variantes e doenças, assim como o investimento em ciência e tecnologia, precisam estar no radar dos governos e parlamentares.


A educação brasileira, que foi praticamente paralisada pela pandemia, ainda retornará, e boa parte dos jovens estarão em defasagem no ensino. Sem políticas públicas de recuperação educacional, uma geração inteira, principalmente a parcela sem acesso fácil à internet, será duramente impactada. O Enem de 2021 protagonizou a menor participação desde 2005 segundo o Inep e as universidades federais seguem duramente desestruturadas.


A segurança pública será um dos desafios que durante a nossa história recente pouco foi priorizada. Em uma política falida de guerra às drogas e ocupação territorial, pouco se evoluiu em elucidações de crimes, em redução de homicídios e tráfico de drogas, mas muito produziu em número de mortes em operações, principalmente no Rio de Janeiro, onde, entre os mortos, muitos são trabalhadores da segurança pública. Além disso, é ainda mais emergente a aplicação de políticas de enfraquecimento de quadrilhas de tráfico e de milícias, sendo essas últimas, com forte e cada vez maior influência na política, fortalecidos inclusive pelo belicismo transformado em política pública de desregulamentação do acesso às armas.


O meio ambiente, enquanto emergência mundial, deixou de ser um problema do futuro para tornar-se uma questão a ser tratada no presente. Em cidades onde a poluição mata, ou em territórios onde se desmata, vamos perdendo dia a dia a capacidade de conservar o mundo para as nossas crianças. O Brasil, referência na discussão ambiental, foi escanteado e perdeu relevância no mundo, perdendo não só prestígio, mas também investimentos.


Além disso, será emergente a atualização da gestão pública, melhorando processos e inserindo-se no mundo digital que será cada vez mais rápido e real com a chegada da conectividade em 5G.


Os próximos parlamentares e gestores precisam representar e olhar a fundo o racismo estrutural em um país onde 78% das pessoas mortas por armas de fogo são negras. O machismo estrutural, dentro de um país onde 1 a cada 4 mulheres foi vítima de algum tipo de violência durante a pandemia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, precisa ser enfrentado. Além disso, o próprio sistema político precisa lidar com o fato de somente 15% das cadeiras do Congresso serem ocupadas por mulheres e 17,8% de pessoas negras. É mais que emergencial que jovens, negros e mulheres estejam no parlamento.


Não é um intuito nem uma possibilidade deste artigo esgotar os diversos desafios que precisamos nos debruçar para pensar nas eleições de 2022. Se neste ano comemoramos 200 anos da independência, a escravização durou 100 anos mais, sendo a principal causa dos problemas que hoje enfrentamos no país. Logo, enquanto as articulações se desenvolvem e entramos no esquenta para as lutas que surgirão a partir de agosto, é importante lembrar que tirar Bolsonaro do Planalto não basta, precisamos encontrar nomes e meios para correr atrás daquilo que ainda pode ser recuperado. Após 4 anos de enfraquecimento da democracia, retomar a constituição como norte será um dos muitos desafios.





Amanhã há de ser outro dia, como canta Chico Buarque. Enquanto estamos pensando no amanhã, que nos lembremos dos problemas do hoje, das causas do ontem, para que o novo dia venha com mais esperança.

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