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Eu sou o monstro que vos fala

Relatório para uma academia de psicanalistas

Paul B. Preciado

Tradução: Sara Wagner York/Sara Wagner Pimenta Gonçalves Junior

Revisão de tradução: Carolina Torres




Discurso de um homem trans, um corpo não binário, perante a Escola da Causa freudiana na França

À Judith Butler

Em 17 de novembro de 2019, fui convidado a ir ao Palais des congrès em Paris para falar perante 3.500 psicanalistas reunidos para a jornada internacional da Escola da Causa freudiana sobre o tema “Mulheres em psicanálise”. O discurso causou um terremoto. Quando perguntei se havia um psicanalista gay, trans, ou não binário na sala, o silêncio foi quebrado por algumas risadas. Quando pedi às instituições psicanalíticas que assumissem a responsabilidade pela atual transformação da epistemologia sexual e de gênero, parte do público riu, enquanto outros gritaram ou me pediram para sair da sala. Uma mulher falou alto o suficiente par a eu ouvi-la da minha tribuna: “Não o deixe falar, é Hitler. “Outra parte do público aplaudiu. Os organizadores me lembraram que meu tempo tinha acabado, então tentei me apressar, pulei alguns parágrafos, só consegui ler um quarto do discurso que tinha preparado.


Nos dias que se seguem a este discurso, as associações psicanalíticas são cindidas. A Escola da Causa freudiana se divide, as posições pró ou contrárias se afiam. O discurso, filmado por dezenas de celulares, é postado na internet, fragmentos do texto são transcritos sem pedir meu texto original, depois traduzidos para o espanhol, italiano, inglês e publicados na internet sem qualquer preocupação com a exatidão das palavras ou com a qualidade das traduções. Assim, versões aproximadas do discurso circulam na Argentina, Colômbia, Alemanha, Espanha e França. A fim de ampliar o debate, quero publicar hoje o texto na íntegra, pois gostaria de tê-lo compartilhado com a assembleia de psicanalistas.

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Queridas senhoras e senhores da Escola de Psicanalistas da França, senhoras e senhores da Escola da Causa freudiana, e não sei se vale a pena saudar também todos aqueles que não são senhoras nem senhores, porque duvido que haja alguém entre vocês que tenha renunciado legal e publicamente à diferença sexual e que tenha sido aceito como um psicanalista de pleno direito, depois de ter passado com sucesso pelo processo que vocês chamam “o passe”, que permite que vocês se tornem analistas. Estou falando de um psicanalista trans, ou não binário, admitido entre vocês como um especialista. Se ele existe, permita-me estender minhas mais calorosas saudações a este querido mutante agora mesmo.


Tenho a honra de comparecer perante a Academia para lhes dar um relatório sobre minha vida como homem transexual.


Não sei se poderia fornecer-lhes dados que vocês, acadêmicos e psicanalistas, não conheciam em primeira mão, já que vivem, como eu, em um regime de diferença sexual. Portanto, quase tudo que eu posso dizer, vocês podem ver por si mesmos de ambos os lados da linha de gênero. Embora vocês provavelmente se considerem homens ou mulheres naturais e tal suposição os tenha impedido de observar, a uma distância saudável, a máquina política em que estão inseridos. Vocês me perdoarão se, na história que estou prestes a contar, eu não tomar por garantida a existência natural da masculinidade e da feminilidade. Fique tranquilo, vocês não precisam abdicar de suas crenças – porque elas são crenças – para me ouvir. Considere o que estou dizendo e depois volte para a sua vida “naturalizada”, se vocês puderem.


Para me apresentar , permita-me, já que vocês são 3.500 psicanalistas e eu me sinto um pouco solitário deste lado do palco, correr e subir nos ombros do mestre de todas as metamorfoses, o melhor analista dos excessos que se escondem atrás da fachada da razão científica e da loucura que leva o nome comum de saúde mental: Franz Kafka.


Em 1917, Franz Kafka escreveu Ein Bericht für eine Akademie, Um relatório para uma academia. O narrador do texto é um macaco que, após aprender a linguagem dos humanos, se apresenta diante de uma academia das mais altas autoridades científicas para lhes explicar o que a evolução humana significou para ele. O macaco, que diz se chamar Pedro Vermelho, conta como foi capturado numa expedição de caça organizada pelo circo de Hagenbeck, depois transportado para a Europa num barco, levado para um circo de animais, e como depois conseguiu se tornar um homem. Pedro Vermelho explica que para dominar a linguagem dos humanos e entrar na sociedade da Europa de seu tempo, ele teve que esquecer sua vida de macaco. E como, para suportar esse esquecimento e a violência da sociedade humana, ele se tornou alcoólatra. Mas o mais interessante do monólogo de Pedro Vermelho é que Kafka não apresenta seu processo de humanização como uma história de emancipação ou libertação da animalidade, mas sim como uma crítica ao humanismo colonial europeu e suas taxonomias antropológicas. Uma vez capturado, o macaco diz que não teve escolha: se não queria morrer trancado em uma jaula, tinha que se mover para a “jaula” da subjetividade humana.

Enquanto o macaco Pedro Vermelho falava diante dos cientistas, dirijo-me hoje a vocês, acadêmicos da psicanálise, da minha “jaula” de um homem trans. Eu, um corpo marcado pelo discurso médico e jurídico como “transexual”, caracterizado na maioria de seus diagnósticos psicanalíticos como sujeito de uma “metamorfose impossível”, situando-me, segundo a maioria de suas teorias, além da neurose, à beira ou mesmo na psicose, incapaz, segundo vocês, de resolver corretamente um complexo edipiano ou tendo sucumbido à inveja do pênis. Bem, é a partir dessa posição de doente mental da qual vocês me classificam, embora eu me dirija a vocês como o símio-humano de uma nova era. Eu sou o monstro que vos fala. O monstro que vocês construíram com seus discursos e suas práticas clínicas. Eu sou o monstro que se levanta do divã e fala, não como paciente, mas como cidadão, como seu monstruoso igual.


Eu, como um corpo trans, como um corpo não binário, ao qual nem a medicina, nem a lei, nem a psicanálise, nem a psiquiatria reconhecem o direito de falar com conhecimento especializado sobre minha própria condição, nem a possibilidade de produzir um discurso ou uma forma de conhecimento sobre mim mesmo, aprendi, como Pedro Vermelho, a língua de Freud e Lacan, a língua do patriarcado colonial, a sua língua, e estou aqui para falar com vocês.

Vocês podem se surpreender que eu esteja usando um conto kafkiano para fazer isso, mas esse colóquio me parece mais próximo do época do autor do que da nossa. Vocês estão organizando um encontro para falar sobre “mulheres em psicanálise” em 2019, como se ainda estivéssemos em 1917, como se esse tipo particular de animal que vocês de modo condescendente e naturalizante chamam de “mulher” ainda não tivesse ganho pleno reconhecimento como sujeito político, como se fosse um apêndice ou uma nota de rodapé, uma criatura estranha e exótica, sobre a qual vocês têm que pensar de vez em quando, em um colóquio ou em uma mesa redonda. Ao contrário, teria sido mais apropriado organizar um encontro sobre “os homens brancos heterossexuais e burgueses em psicanálise”, pois a maioria dos textos e práticas psicanalíticas giram em torno do poder discursivo e político desse tipo de animal. Um animal necropolítico[1] que vocês tendem a confundir com o “humano universal” e que permanece, pelo menos até agora, tema de enunciação central nos discursos e instituições psicanalíticas da modernidade colonial.

Além disso, não tenho muito a dizer sobre “mulheres em psicanálise”, exceto que eu sou, como o Pedro Vermelho, um desertor. Eu já fui “uma mulher em psicanálise”. Eu fui designado para o sexo feminino, e como o macaco mutante, saí daquela “jaula” estreita, certamente para entrar em outra jaula, mas pelo menos desta vez por minha própria iniciativa.


Estou falando com vocês hoje a partir desta jaula escolhida e redesenhada de o “homem trans”, o “corpo de gênero não binário”. Alguns dirão que ainda é uma jaula política: em todo caso é melhor que a jaula “homens e mulheres” porque tem o mérito de reconhecer seu status de gaiola.


Já se passaram mais de seis anos desde que desisti do status legal e político de mulher. Pode ser um período curto de tempo, quando se considera que situado no conforto ensurdecedor da identidade normativa, mas é um tempo infinitamente longo quando tudo o que foi aprendido na infância deve ser desaprendido. Quando novas fronteiras administrativas e políticas, barreiras invisíveis mas efetivas se erguem diante de você e o dia-a-dia se torna uma corrida de obstáculos. Seis anos de vida adulta de uma pessoa trans assumem então a qualidade que têm para o bebê nos primeiros meses de vida, quando as cores aparecem diante dos olhos e as formas assumem um volume que as mãos podem agarrar pela primeira vez, quando a garganta, antes capaz apenas de gritos guturais, e os lábios, antes voltados apenas para a amamentação, articulam uma palavra pela primeira vez. Evoco o prazer de aprender na infância, pois um prazer semelhante surge da apropriação de uma nova voz e de um novo nome, da exploração do mundo além da jaula da masculinidade e da feminilidade que acompanha o processo de transição. Esse tempo cronologicamente curto torna-se muito longo quando se viaja pelo mundo, quando se encontra na vanguarda da mídia como trending topic “trans”; e quando se está realmente sozinho quando se tem que ir ao psiquiatra, à polícia de fronteira, ao consultório médico ou ao juiz.


Em resposta ao pedido de vocês por mais informações sobre a minha “transição”, pedido ao qual cedo com alegria, embora ainda com alguma reserva – explicarei nestes parágrafos a diretriz pela qual um indivíduo que viveu como mulher até os 38 anos de idade, tendo primeiro se definido como uma pessoa de gênero não binário, depois se incorporou ao mundo dos homens sem se assentar completamente nesse gênero – porque para ser reconhecido como um verdadeiro homem, eu teria que ficar calado e me misturar ao magma naturalizado da masculinidade, sem nunca revelar minha história dissidente ou meu passado político. Acrescente-se que eu não seria capaz de lhes dizer as banalidades que se seguirão se eu não estivesse totalmente seguro de mim mesmo, se minha posição trans não tivesse já sido afirmada inquestionavelmente em todos os grandes espetáculos digitais do mundo civilizado. Desde 16 de novembro de 2016, sou portador de passaporte com nome e sexo masculino, portanto não há mais obstáculos administrativos à minha liberdade de movimento ou à minha capacidade de falar.


Recebi o gênero feminino ao nascer, numa cidade católica da Espanha que ainda estava sob o domínio de Franco. A sorte fora lançada. As garotas não tinham permissão para fazer a maioria das coisas que os garotos faziam. Esperava-se que eu fizesse um trabalho de gênero eficaz e silencioso e de reprodução sexual. Era esperado que eu fosse uma boa namorada heterossexual, uma boa esposa, uma boa mãe, uma mulher quieta. Cresci ouvindo as histórias secretas sussurrantes de jovens garotas que foram estupradas, jovens mulheres que viajaram para Londres para fazer abortos, eternas amigas solteiras que viviam juntas sem nunca afirmar sua sexualidade em público – “sapatão”, como meu pai as chamava desdenhosamente. Eu fiquei preso. Se houvessem me pregado ao chão, isso não teria diminuído meu espaço de ação. Por que as coisas eram assim? O que havia no meu corpo infantil que previa a minha vida inteira? Não importa o quanto nos coçamos até o ponto de sangue, não vamos encontrar uma explicação. Não importa quantas vezes batamos a cabeça contra as barras do cárcere do gênero até que elas se rompam, mas não vislumbraremos a razão disso.


Também me era impossível explicar o paradoxo que exigia que as mulheres, subjugadas, estupradas, assassinadas, amassem e dedicassem suas vidas aos seus opressores, homens heterossexuais. Eu não via saída, mas tinha que encontrar uma: sentia que, ao ser esmagado entre as duas paredes da masculinidade e da feminilidade, acabaria inevitavelmente morrendo. Eu era uma criança calma que ficava em seu quarto, não fazia barulho, meus pais concluíram que eu seria um corpo particularmente dócil e receptivo a uma boa educação.

Mas resisti a essa domesticação, sobrevivi ao processo sistemático de aniquilação do minha força vital que se organizou ao meu redor durante toda a minha infância e adolescência.


Não devo essa força de sobrevivência à psicanálise ou à psicologia, mas, ao contrário, aos livros feministas, punks, antirracistas e lésbicos. Eu tinha pouca disposição para a socialização, e os livros eram para mim autênticos guias no deserto do fanatismo da diferença sexual. Livros que – como no século XVI as obras de Giordano Bruno ou Galileu puseram fim ao geocentrismo – haviam sido escritos para pôr fim à convicção psicanalítica de que desafiar o binarismo equivalia a entrar no reino da psicose. Lembro-me da primeira vez que encontrei, numa livraria em Madrid, uma tradução para o espanhol do O corpo lésbico por Monique Wittig, em uma edição de 1977 da Pre-Textos Editorial. Eu me lembro da capa rosa e das páginas amareladas prematuramente. Como se o título em si não fosse suficiente, um parágrafo do livro foi reproduzido na capa: “o corpo lésbico a cipreste a secreção a saliva o muco o suor as lágrimas a cera dos ouvidos a urina as nádegas os excrementos o sangue a linfa a gelatina a água…” Quando o comprei, tentei esconder o máximo possível a capa do vendedor, porque não suportava a vergonha que representava, em 1987, querer comprar um livro com o título O corpo lésbico. E lembro que o livreiro me olhou com desprezo, mas também com alívio, pois finalmente tinha conseguido se livrar de um livro que, como se fosse um recipiente perfurado do qual escorria um líquido sujo, estava sujando suas prateleiras. Custou-me 280 pesetas. O seu verdadeiro valor para mim é incalculável. Para descobrir os outros livros que me levariam até onde estou hoje, tive que viajar, tive que aprender outras línguas: assim encontrei Sappho e Sócrates de Magnus Hirschfeld, Orlando de Virginia Wolf, Voir une femme [Ver uma mulher] de Annemarie Schwarzenbach, Rapport contre la normalité [Relatório contra a normalidade] da Frente Homossexual pela Ação Revolucionária, Homossexual Desire [Desejo homossexual] de Guy Hocquenghem, The Female Man [O homem feminino] de Joanna Russ, Alchemy of the Body [Alquimia do corpo] de Loren Cameron, Dans ma chambre [Em Meu Quarto] de Guillaume Dustan, as revistas de Lou Sullivan, os romances de Kathy Acker, a releitura feminista da história da ciência por Londa Schiebinger, Donna Haraway e Anne Fausto-Sterling, os textos teóricos de Gayle Rubin, Susan Sontag, Judith Butler, Teresa de Lauretis, Eve K. Sedgwick, Jack Halberstam, Sandy Stone e Karen Barad. Através de toda essa leitura, aprendi a ver a beleza além da lei do gênero. Peguei aqueles livros e, como um fugitivo, corri como se meus calcanhares estivessem em chamas, e continuo correndo, ainda hoje, para escapar da escravidão do regime binário da diferença sexual. Foi graças a esses livros heréticos que sobrevivi e, mais importante, que pude imaginar uma saída.


Pois bem, como no circo do regime binário heteropatriarcal, as mulheres desempenham alternadamente o papel da bela e da vítima, e como eu também não era e não me sentia capaz de ser, decidi deixar de ser mulher. Por que o abandono da feminilidade não poderia se tornar uma estratégia fundamental da feminismo? Foi uma combinação perfeita de ideias, clara e maravilhosa, que deve ter nascido em algum lugar do meu ventre, já que se diz das mulheres que a única parte criativa nelas é o ventre. Do meu útero rebelde e não reprodutivo devem ter surgido todas as outras estratégias: a raiva que me fez desconfiar da norma, o gosto pela desobediência… Assim como as crianças repetem constantemente gestos que lhes dão prazer e lhes permitem aprender, eu repito gestos que violam a norma para encontrar uma saída.


Mas eu não tinha desejo de me tornar um homem como os outros homens. A violência e a arrogância política deles não me seduziram. Eu não tinha o menor desejo de me tornar o que as crianças da burguesia branca chamavam de normal ou saudável. Eu só queria uma saída: qualquer saída. Para avançar, para escapar dessa paródia de diferença sexual, para não ser parado, mãos para cima, empurrado até os limites dessa taxonomia. Então comecei a me injetar de testosterona, rodeado por um grupo de amigos que também estavam à procura de uma saída. É assim que essa coisa que vocês chamam de “a condição feminina” escapou de mim em um ritmo louco, desfiladeiro abaixo, me levando mais longe do que eu jamais poderia imaginar. Novamente, eu estava procurando por uma saída.

Temo que haja um mal-entendido do que eu quero dizer com o termo “saída”. Eu uso a palavra no seu sentido mais concreto e comum. Evito cuidadosamente a palavra liberdade, prefiro falar em encontrar uma saída para o regime da diferença sexual, o que não significa tornar-se livre imediatamente. No que me diz respeito, não experimentei a liberdade quando era criança na Espanha de Franco, nem mais tarde quando era lésbica em Nova York, e nem agora que sou, como dizem, um homem trans.


Nem então, nem agora, eu pedi para que me “dessem” a liberdade. Os poderosos continuam prometendo liberdade, mas como eles poderiam dar aos subordinados algo que eles mesmos não conhecem? Paradoxo: aquele que amarra é tão preso quanto aquele cujos movimentos são dificultados pelas cordas atadas. Isso também vale para vocês, honrados psicanalistas, grandes especialistas na desvinculação e, sobretudo, na reestilização do inconsciente, grandes promotores das promessas de saúde e liberdade. Ninguém pode te dar o que não tem e nunca conheceu. Além disso, nós nos enganamos entusiasticamente entre “homens “ e “mulheres” no contexto do ritual de “libertação” sexual, a liberdade é um dos valores mais prontamente promovidos – e a correspondente pretensão é o mais comum no campo do gênero e da sexualidade. Atualmente, o feminismo reformista está na moda, por isso cada vez mais homens e principalmente mulheres não hesitam em se afirmar como feministas, não sem insistir no fato, essencial para eles, de que as mulheres devem permanecer mulheres e os homens devem permanecer homens. Mas de que natureza eles estão falando? Da mesma forma, quando um “homem” assume uma pequena parte do trabalho doméstico, fala-se e saúda-se um passo em direção à igualdade de gênero e à libertação da mulher. Esses atos de libertação me fazem rir tanto que meu peito vibra como um tambor sobre o qual uma centopeia dançaria. O gênero e a liberdade sexual não podem de forma alguma ser uma distribuição mais justa da violência, nem uma aceitação mais pop da opressão. A liberdade é um túnel que se cavou com as mãos. A liberdade é uma saída. A liberdade – como aquele novo nome que vocês me chamam agora, ou aquela cara vagamente peluda que vocês veem diante de vocês – é feita.


E minha rota de fuga era, entre outras coisas, a testosterona. Neste processo, o hormônio não é de forma alguma um fim em si mesmo: ele é um aliado na tarefa de inventar um outro lugar. Assim, abandonei gradualmente o quadro da diferença sexual. O artista Del LaGrace Volcano diz que ser trans é ser intersexual por design. E foi exatamente isso que aconteceu. Como a testosterona trabalhava no meu rosto e corpo, minha voz e músculos, tornou-se difícil manter minha identidade administrativa como mulher. Aqui começaram os problemas de atravessar fronteiras. Vivemos imersos na rede política da diferença sexual, e não me refiro exclusivamente a questões administrativas, mas a toda uma série de poderes microscópicos que operam em nosso corpo e moldam nosso comportamento. Quando entendi que sair do regime da diferença sexual significava deixar a esfera do humano e entrar num espaço subordinado de violência e controle, fiz – como Galileu fez no seu tempo, quando abjurou suas hipóteses heliocêntricas – tudo o que era necessário para poder continuar vivendo o melhor possível e exigi um lugar dentro do regime do tipo binário.


Atribuído ao gênero feminino no meu nascimento, e vivendo como uma mulher supostamente livre, comecei a cavar um túnel, aceitei o jugo de me identificar como transexual e, portanto, aceitei que minha condição, meu corpo, minha psique fossem considerados, de acordo com o conhecimento que vocês professam e defendem, como patológicos. Deixe-me dizer a vocês, entretanto, que encontrei nesta condição de aparente subjugação mais liberdade do que tinha como mulher supostamente livre na sociedade tecnopatriarcal do início do século XXI, se por liberdade queremos dizer sair, ver um horizonte, construir um projeto, ter a possibilidade de experimentar, nem que seja por breves momentos, a comunidade radical de toda vida, toda energia, toda matéria, além das taxonomias hierárquicas que a história humana inventou. Se o regime da diferença sexual pode ser representado como uma rede semiotécnica e cognitiva que limita nossa percepção, nossa forma de sentir e amar, o caminho da transexualidade, por mais tortuoso e desigual que possa parecer, tem me permitido experimentar a vida além desses limites.


E por mais paradoxal que possa parecer, o túnel para a saída estava, no meu caso, passando por um rigoroso e acadêmico aprendizado das próprias linguagens com as quais meu corpo e minha subjetividade haviam sido acorrentados. Da mesma forma que o professor da La Casa de papel estudou a arquitetura invisível de um banco para elaborar uma estratégia de entrada, o que era fácil, mas sair com o saque que era complexo – estudei a arquitetura cognitiva da diferença sexual, sabendo muito bem que seria ainda mais difícil para mim do que no caso da La Casa de papel encontrar o saque e fugir com ele. No labirinto infinito das instituições da nossa sociedade encarregadas do gênero e da verdade sexual, eu tinha muitos instrutores: andei por muitas universidades, aprendi a linguagem de filósofos, psicanalistas e sociólogos, médicos e historiadores, arquitetos e biólogos. Ah, quando você tem que aprender, você aprende; quando você tem que encontrar uma saída, você aprende impiedosamente! Nós nos controlamos com chicote, açoitando a nós mesmos na mais leve fraqueza. Que progresso! Tanto progresso em todos os campos do conhecimento, no cérebro estúpido de um simples transexual que se põe em movimento! E como o conhecimento que permite a desconstrução do pensamento dominante entrou nos centros de produção do conhecimento a partir dos anos 70, após a crítica pós-colonial e a emancipação progressiva dos movimentos feministas, homossexuais e operários, pude acessar não só o conhecimento normativo, mas também muitas formas subordinadas de conhecimento que reuniam as experiências de resistência, luta e transformação daqueles que historicamente foram objetos de extermínio, violência e controle. Estudei as tradições do feminismo negro e lésbico, a crítica anticolonial e os movimentos pós-marxistas. Todo esse aprendizado me fez feliz. Com um esforço que parecia excessivo, dado o meu estado supostamente de transtorno mental e disfórico, alcancei a cultura acadêmica de um burguês ocidental. Quando recebi o doutorado na Universidade de Princeton e vi um grupo de instrutores me aplaudindo, percebi que tinha que ter cuidado. Aqui está novamente, a jaula: dourada desta vez, mas tão sólida quanto todas as anteriores. Meu predecessor Pedro Vermelho disse que ficava “de tocaia entre os arbustos” e foi exatamente o que eu fiz, entrei de tocaia nos arbustos da faculdade…


E é, sem dúvida, graças à minha condição de “doutor” que devo ter visto o caminho ficar mais simples, enquanto que este caminho representa, para a maioria dos transexuais, um teste assustador: o de conseguir obter novos documentos de identidade em uma sociedade binária. Após várias visitas com vários psicólogos, que me concederam um certificado de “bom transexual”, permitindo-me obter meus novos documentos de identidade, rapidamente compreendi que à minha frente se abriam duas possibilidades: de um lado, o ritual farmacológico e psiquiátrico da transexualidade domesticada, e com ele o anonimato da masculinidade normal ou, por outro lado, diametralmente oposto, o show da escrita política. Eu não hesitei. A masculinidade normal e naturalizada nada mais era do que uma nova jaula. Quem quer que entre nela nunca mais sairá. E eu escolhi. Eu disse a mim mesmo: fale publicamente. Não fique calado. E assim, eu fiz meu corpo e minha mente, minha monstruosidade, meu desejo e minha transição, um espetáculo público: eu ainda tinha encontrado uma saída. Foi assim que escapei dos meus adestradores médicos que eram muito parecidos com vocês, queridos acadêmicos e psicanalistas. Digamos que eu não tive outra alternativa, sempre assumindo que não se tratava de escolher a liberdade, mas de fazê-la.


Embora eu administrasse testosterona regularmente em mim mesmo, só muito mais tarde fui reconhecido como um homem socialmente. A princípio, embora eu já tivesse um pouco de barba e bigode, os seres binários da sociedade heteropatriarcal insistiam em me chamar de “senhora”, o faziam olhando para mim com desprezo, às vezes a palavra “sapatão” lhes escapava quando eu lhes dava as costas. Até que um dia, depois de me injetar por três meses com 250 miligramas de testosterona por 21 dias ininterruptos, abri a boca e uma voz rouca e áspera saiu da minha garganta. Fui o primeiro a ficar assustado, como se meus órgãos fonadores tivessem sido possuídos por uma entidade estrangeira. Não foi a masculinidade da voz que me aterrorizou, mas a sua diferença em relação à voz pela qual todos me reconheciam até então. Logo eu saí para a rua e comecei a falar com essa voz que era tanto minha quanto de outra pessoa. Minhas primeiras palavras me fizeram entrar na comunidade daqueles que acreditam ser homens e que me acolheram como nunca antes: “Escute-o falar, ele é um homem!” Senti estas palavras como um ferro que, com o fogo, me marcou como um homem finalmente aceito na comunidade masculina. No primeiro dia, o triunfo foi de curta duração, pois logo em seguida minha voz quebrou e me falhou novamente. Pouco a pouco, essa voz estrangeira se instalou em mim. É com esta voz, fabricada, mas orgânica, estranha, mas inteiramente minha, que hoje me dirijo a vocês, queridos membros da Escola.


Quando comecei esse processo de transição, levei algum tempo para entender os códigos da masculinidade dominante. E, acredite ou não, nada foi tão difícil quanto me acostumar ao fedor e à sujeira do banheiro masculino. Fui atormentado pelo cheiro, pelos jatos de urina espalhados sobre e ao redor do vaso sanitário e, apesar das minhas boas intenções, levei semanas para superar essa repulsa. Até que percebi que essa sujeira e fedor era uma forma de relacionamento estritamente homossocial: os homens tinham criado um círculo vicioso para expulsar as mulheres. Dentro deste círculo, em segredo, estavam livres para se olharem, livres para se tocarem, livres para chafurdarem em seus próprios fluidos, fora de qualquer representação heterossexual. Enquanto as mulheres vão ao banheiro para refazer sua máscara de feminilidade, os homens vão lá para esquecer sua heterossexualidade por um momento e afirmar um prazer oculto de estarem sozinhos, sem aqueles estranhos alter egos, que são as mulheres com as quais eles devem estar socialmente acompanhados para exercer uma função reprodutiva e heteroconsensual. Através dessa experiência e de outras, ainda mais fantásticas, que não tenho tempo para listar aqui, as coisas começaram a parecer mais ridículas, mas também mais complexas e multifacetadas do que eu havia imaginado quando ainda estava na posição política de uma mulher. Por trás das máscaras de feminilidade e masculinidade dominantes, por trás das máscaras de heterossexualidade normativa, existem, de fato, múltiplas formas de resistência e desvio.


A primeira coisa que aprendi como transgênero foi andar pela rua sendo olhado por outros como se eu fosse um homem. Aprendi a olhar em frente e para cima em vez de mover os olhos para os lados e para baixo. Aprendi a cruzar os olhos dos outros homens sem olhar para baixo e sem sorrir. Mas o mais importante que entendi foi que, como um dito “homem” e um dito “homem branco” num mundo patriarco-colonial, eu poderia ter o privilégio da universalidade pela primeira vez. Um lugar anônimo e tranquilo em que você pode não ligar para nada. Eu nunca havia me sentido universal. Já fui mulher, já fui lésbica, já fui migrante. Eu tinha conhecido a alteridade, não a universalidade. Se eu desistisse de me afirmar publicamente como “trans” e concordasse em ser reconhecido como homem, poderia abrir mão do peso da identidade de uma vez por todas.


Mas por que vocês estão convencidos, queridos amigos binários, que só os subordinados têm uma identidade? Por que vocês estão convencidos de que somente muçulmanos, judeus, bichas, lésbicas, transexuais, suburbanos, migrantes e negros têm uma identidade?

E vocês, vocês são os psicanalistas normais, hegemônicos, brancos da burguesia, os binários, os patriarcas coloniais, sem identidade? Não há identidade mais esclerótica e rígida do que a sua própria identidade invisível. Que a sua universalidade republicana. Sua identidade leve e anônima é o privilégio da norma sexual, racial e de gênero. Ou todos nós temos uma identidade, ou não há identidade. Todos nós ocupamos um lugar diversificado em uma complexa teia de relações de poder. Ser marcado com uma identidade significa simplesmente não ter o poder de nomear a própria posição de identidade como universal.

Não há universalidade nas narrativas psicanalíticas de que vocês falam. As narrativas mítico-psicológicas retomadas por Freud e elevadas à categoria de ciência por Lacan são apenas histórias locais, histórias do espírito patriarco-colonial europeu, histórias que legitimam a posição ainda soberana do pai branco sobre qualquer outro corpo. A psicanálise é um etnocentrismo que não reconhece sua posição politicamente situada. E não digo isto para me curvar à etnopsiquiatria: suas hipóteses também são patriarcais-coloniais e não diferem das da psicanálise em termos de naturalização da diferença sexual.

Como a psicanálise e a psicologia normativa dão sentido aos processos de subjetivação de acordo com o regime da diferença sexual, gênero binário e heterossexual, qualquer sexualidade não heterossexual, processo de transição de gênero ou identificação de gênero não binário desencadeia uma proliferação de diagnósticos. Uma das estratégias fundamentais desse discurso psicanalítico é detectar no desenvolvimento pré-natal ou infantil do homossexual e do “transexual” ou da pessoa do sexo não binário os sinais da doença, para investigar o trauma que desencadeia a reversão. Alguns de vocês vão dizer que ao me tornar “trans” eu neguei minha verdadeira natureza feminina. Outros dirão que eu já tinha em mim uma natureza masculina (seja descrita em termos genéticos, endocrinológicos ou psicológicos) que procurava expressar. Ainda outros dirão que foram os desejos ocultos de meus pais (sempre imaginados como um casal binário e heterossexual, se possível branco) que eventualmente se materializaram para fazer de mim o que sou agora. Mentira. É uma simplificação grotesca. Eu não sou de todo o que vocês imaginam. Eu nem sei o que eu sou. Não é mais fácil saber o que cada um de nós é do que determinar a posição exata de um elétron em um acelerador de partículas.


Ao contrário das afirmações da psiquiatria e da psicanálise heteropatriarcal e colonial, não houve na minha infância o desejo de ser um “homem” que pudesse legitimar ou justificar a minha transição. Se eu tivesse teimosamente me agarrado ao que vocês chamam de “minhas origens”, se eu tivesse seguido apenas as evocações da minha infância, limitadas pela educação, castigo e medo, teria sido impossível para mim perceber o que eu tenho realizado. Para poder me modificar, instaurei para mim mesmo duas leis mais fortes que todas as regras que a sociedade patriarcal e colonial quis inculcar em mim. A primeira lei que tomei como certa ao longo do meu processo de transição foi abolir o terror de ser anormal que havia sido semeado no meu coração de infância. É esse terror que precisa ser detectado, isolado e extraído da memória. A segunda lei, quase mais difícil de ser seguida, foi para me impedir de qualquer simplificação. Parar de assumir, como vocês, que eu sei o que são um homem e uma mulher, ou um homossexual e um heterossexual. Extraia seus pensamentos dessas prisões e experimente, tente perceber, sentir, nomear, fora da diferença sexual.


Hoje vejo isso claramente: se não tivesse sido indiferente ao mundo ordenado e supostamente feliz da norma, se não tivesse sido expulso da minha própria família, se não tivesse preferido a minha monstruosidade à sua heterossexualidade normal, se não tivesse optado pelo meu desvio sexual em face da sua saúde sexual, eu nunca teria podido escapar… Ou, para ser mais preciso, descolonizar-me, desidentificar-me, desbinarizar-me.

Ao sair da jaula da diferença sexual, experimentei exclusão e rejeição social, mas nada disso teria sido tão desastroso e doloroso quanto a destruição da minha força vital que a aceitação à norma teria me exigido. Na verdade, tudo em que me tornei talvez se deva a essa indiferença à saúde mental que se desenvolveu em mim durante a minha adolescência, apoiada por livros, naquela cidade espanhola onde o meu futuro parecia ter sido escrito pelo próprio Deus e posteriormente traduzido em várias línguas por médicos e psicanalistas.


Minha vida fora do regime da diferença sexual é mais bela do que qualquer coisa que vocês poderiam ter me prometido como recompensa por consentimento à norma. Se eu aceitei o novo jugo do nome masculino no meio deste túnel para a saída, é para mostrar melhor a falácia que subjaz a todas as identificações de gênero. Este jugo também me trouxe certas vantagens que aceito de vez em quando como um copo de água em um deserto político.

Aqueles que ignoram meu status trans me tratam com as prerrogativas e deferências com que os homens brancos são tratados na sociedade patriarcal e colonial. Eu provavelmente poderia aproveitar esses estúpidos favores, mas para fazer isso eu teria que ter (tarefa impossível!) perdido minha memória.


Não só as memórias da minha vida passada como mulher não foram apagadas, como permanecem vivas na minha mente para que, ao contrário do que a medicina ou a psiquiatria acreditam e defendem, eu não tenha deixado completamente de ser Beatriz e me tornado apenas Paulo. Meu corpo vivo, eu não diria meu inconsciente ou minha consciência, mas meu corpo vivo, que abrange tudo em sua constante mutação e múltiplas evoluções, é como uma cidade grega, onde, com diferenças nos níveis de energia, convivem edifícios trans contemporâneos, uma arquitetura pós-moderna lésbica e belas casas Art déco, mas também velhos edifícios de campo, sob cujos fundamentos estão clássicas ruínas animais ou vegetais, fundações minerais e químicas que são voluntariamente invisíveis. Os traços que a vida passada deixou em minha memória tornaram-se cada vez mais complexos e conectados, formando uma massa de forças vivas, de modo que é impossível dizer que há apenas seis anos atrás eu era simplesmente uma mulher e agora me tornei simplesmente um homem. Prefiro minha nova condição de monstro à de homem ou mulher, porque essa condição é como um pé que avança no vazio, apontando o caminho para outro mundo. Não estou falando aqui do corpo vivo como um objeto anatômico, mas como o que eu chamo de “somatheque”, um arquivo político vivo. Da mesma forma que Freud evocou um aparelho psíquico mais amplo que a consciência, é necessário hoje articular uma nova noção do aparelho somático para levar em conta as modalidades históricas e externalizadas do corpo, aquelas que existem mediadas por tecnologias digitais ou farmacológicas, bioquímicas ou protéticas. O somatheque está mudando.

O monstro é aquele que vive em transição. Aquele cuja face, corpo e práticas ainda não podem ser considerados verdadeiros em um regime de conhecimento e poder determinados.

Fazer uma transição de gênero é inventar um arranjo mecânico com o hormônio ou com outro código vivo – o código pode ser uma linguagem, música, uma forma, uma planta, um animal ou outro ser vivo. Fazer uma transição de gênero é estabelecer uma comunicação cruzada com o hormônio, que apaga, ou melhor ainda, eclipsa o que vocês chamam de fenótipo feminino e permite o despertar de outra genealogia. Este despertar é uma revolução. É uma elevação molecular. Um assalto ao poder do ego heteropatriarcal, de identidade e do nome. É um processo de descolonização do corpo.

É essa possível revolução inerente a qualquer processo de transição que aterroriza a psicologia normativa e a psicanálise, que estão ocupadas em neutralizar seu poder. No discurso médico e psicológico dominante, o corpo trans é uma colônia.

O corpo trans é para a heterossexualidade normativa o que Lesbos é para a Europa: uma fronteira cuja extensão e forma só é perpetuada pela violência. Cortar aqui, colar ali, remover esses órgãos, substituí-los por outros.

O corpo trans é a colônia. Todos os dias, em qualquer rua de Tijuana ou Los Angeles, em São Petersburgo ou Goa, em Atenas ou Sevilha, um corpo trans é morto com a mesma impunidade com que se levanta uma nova ocupação em ambos os lados do rio Jordão. A psicologia clínica e a medicina estão empenhadas em uma guerra pela imposição e normatização dos órgãos do corpo trans.

O migrante perdeu o Estado-nação. O refugiado perdeu sua casa. A pessoa trans perde o seu corpo. Todos eles cruzam a fronteira. A fronteira os constitui e os atravessa. Ela os destrói e os derruba.

O corpo trans é para a epistemologia da diferença sexual o que o continente americano foi para o Império Espanhol: um lugar de imensa riqueza e cultura que superou a imaginação do Império. Um lugar de extração e aniquilação da vida. Nossos órgãos trans são, para o sistema heteropatriarcal, as minas de Potosí que alimentam o inconsciente patriarcal-colonial. O dinheiro é separado da terra e o mineiro é enterrado em um poço. Nossos órgãos são a borracha da Amazônia e o ouro das montanhas. Nossos órgãos são o óleo que a máquina sexual normativa precisa para funcionar. Em todos os lugares, o corpo trans é odiado, assim como fantasiado, desejado e consumido.

O corpo trans é um poder da vida, é a inesgotável Amazônia que se espalha através das selvas, resistindo a represas e extrações.

O corpo trans é para a anatomia normativa o que a África foi para a Europa: um território a ser cortado e distribuído para o maior lance. Os seios e a pele para cirurgia estética, a vagina para cirurgia estatal, o pênis para psiquiatria ou para a anamorfose de Lacan. O que o discurso científico e técnico ocidental considera como os órgãos sexuais emblemáticos da masculinidade e da feminilidade, o pênis e a vagina, não é mais real do que Ruanda ou Nigéria, do que Espanha ou Itália. Há uma diferença entre um morro verde que cresce do outro lado do rio e um deserto que se estende do lado do vento. Aí está a paisagem erótica de um corpo. Não há órgãos sexuais, mas sim enclaves coloniais de poder.

O corpo trans é uma colônia de instituições disciplinares, a psicanálise, a mídia, a indústria farmacêutica, o mercado.

O corpo trans é a África, e os seus órgãos, para os seres vivos, expressam-se em línguas que o colonizador desconhece, e têm sonhos que vocês psicanalistas ignoram.

Quando vocês cortarem todas as árvore e perfurarem todas as montanhas, quando vocês analisarem todos os nossos sonhos, vocês não serão capazes de destruir mais nada. A Terra será então um terreno baldio, um enorme corpo transgênero desmembrado e devorado. Os corpos dos colonizadores e os seus corpos, queridos psicanalistas, serão enterrados com os órgãos trans que vocês nos tiraram. Mas os órgãos que não tínhamos nunca poderão ser enterrados. Nossos órgãos utópicos vão viver para sempre. Eles serão os guerreiros das fronteiras.

Em meio a essa guerra patriarco-colonial, a transição de gênero é uma antigenealogia. Trata-se de ativar genes cuja expressão tinha sido cancelada pela presença do estrogênio, agora ligando-os à testosterona, iniciando uma evolução paralela em minha própria vida, liberando a expressão de um fenótipo que de outra forma teria permanecido em silêncio. Para ser trans, você tem que aceitar a irrupção triunfal de outro futuro em si mesmo, em todas as células do seu corpo. Fazer uma transição é entender que os códigos culturais de masculinidade e feminilidade são anedóticos em comparação com a infinita variação das modalidades de existência.

Mimetismo é um mau conceito para se pensar na transição do gênero, pois ainda depende da lógica binária. Ser isto ou aquilo, ser isto e imitar aquilo. Ou você é um homem ou uma mulher. A pessoa trans não imita nada, assim como o crocodilo não imita o tronco, nem o camaleão imita as cores do mundo. Ser trans é deixar de ser um crocodilo e se conectar com o futuro de sua planta, para entender que o arco-íris pode se tornar uma pele.

Quando aceita como um processo de tecno-xamanismo ativado pela presença de linguagem e hormônios, a experiência trans é um turbilhão de energia transformadora que recodifica todos os significantes políticos e culturais sem a possibilidade de uma ruptura limpa (cardeal segundo a caracterização médica) entre ontem e hoje, entre o feminino e o masculino. Eu sou a menina que atravessa uma vila na Cantábria e sobe as cerejeiras coçando as pernas. Eu sou o menino que dorme no estábulo com as vacas. Eu sou a vaca que sobe a montanha e se esconde dos olhos humanos. Eu sou Frankenstein tentando encontrar alguém que o ame andando com uma flor na mão, enquanto todos que passam fogem dele. Eu sou o leitor cujo corpo se torna um livro. Eu sou o adolescente que beija uma garota atrás da porta da igreja. Eu sou a jovem que se disfarça de jesuíta e aprende de cor alguns parágrafos da Ética de Spinoza. Eu sou a lésbica com a cabeça raspada que assiste aos seminários BDSM no Centro Comunitário Lésbico, Gay, Bissexual & Transgênero na 13ª Street em Manhattan. Eu sou a pessoa que se recusa a se identificar como mulher e toma pequenas doses de testosterona todos os dias. Eu sou um Orlando cuja escrita se tornou química. Mas eu gostaria de evitar o conto heroico da minha transição. Não havia nada de heroico nisso. Eu não sou o lobisomem e não tenho a imortalidade de um vampiro. A única coisa que foi heroica foi o desejo de viver, a força com que o desejo de mudança se manifestou e se manifesta ainda hoje através de mim. Longe de serem individuais, as observações sobre meu corpo e minhas vicissitudes pessoais descrevem formas políticas de normatização ou desconstrução de gênero, sexo e sexualidade, e podem, portanto, ser interessantes para a constituição de um conhecimento dissidente diante das linguagens hegemônicas da psicologia, psicanálise e neurociência.

Falo a vocês publicamente de tudo isto porque é crucial que a palavra de subordinados sexuais e de gênero não seja confiscada pelo discurso da diferença sexual. Sei que transformei meu corpo num showroom: mas prefiro fazer da minha vida uma lenda literária, um show biopolítico, do que deixar a psiquiatria, a farmacologia, a psicanálise, a medicina ou a mídia construir uma representação de mim como um homossexual integracionista, binário e educado, como um monstro culto capaz de se expressar na linguagem da norma, senhoras e senhores acadêmicos e psicanalistas.