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“Eu não sou o que sou” - notas sobre algumas ideias de Deus

por Julia de Souza






Outro dia — na verdade uma outra noite que estava prestes a virar fumaça na chegada de um novo dia — discutíamos, eu Nã, Thiego e Marina, sobre a existência de Deus. Marina é mineira e, contrariando nosso ceticismo inabalável, defendeu de forma tão apaixonada quanto etérea a presença de algo que antecede as coisas como elas são. Não atribuiu a Deus uma forma, um gênero, uma fisionomia ou um habitat. É confuso descrever Deus. Hilda Hilst passou a vida cismada com a dificuldade de capturá-lo, tentando travar correspondência com este “coração velado” — ou talvez nos esfregando na cara o sarro que o deus que inventamos tira de nós.


Costumo anotar as coisas imperdíveis que meus amigos dizem — muitas vezes frutos de um choque de palavras estabanado e luminoso que dificilmente quem se diz poeta cometeria: “luvas de pelanca”, disse a Nã em outra noite. “Me diverti vários” (acho que foi a Beta quem viveu esse gozo serial); ou o emblema da minha avó Annivlette: “Vênus é uma festa para os olhos” que, na boca dela, explode a frase de efeito para ganhar teor de delírio em Technicolor.


Pois bem, naquela noite à beira do dia, emparedada por um trio de ateus embriagados, a mineira Marina deixou escapar: “Deus é um trem...”. Importante notar as reticências e a incompletude da frase, que foi interrompida por mim, celular a postos para registrar o milagre. Acho que não é preciso dizer mais nada, embora talvez eu deva escrever à Marina para saber o que viria depois do “trem” — um trem azul, um trem estranho, um trem fantasma, um trem para as estrelas? O “trem” dos mineiros é uma das mais belas manobras de sintetização e drible já registradas na língua portuguesa. Olhe só o que quer uma língua: uma mesma palavra pode substituir tanto Deus quanto um carrapato.


O meu amigo Suza também soube algo de Deus quando tomou um cogumelo sozinho em sua varanda no Largo do Arouche: “Amiga, eu vi deus. Era como aquela fumaça do Lost, só que uma nuvem meio purple hazy [roxa nebulosa]. Era deus. Mas quando eu encarava aquilo, ela refletia meu rosto. Não era meu rosto, mas eu me vi ali. Eu era a fumaça”.


Quando o Suza me mandou aquela mensagem — provavelmente depois de eu ter solicitado um relato da sua última experiência lisérgica, como costumo fazer — não passei a acreditar em Deus, mas me ressenti do fato de não poder tomar drogas alucinógenas. Talvez só assim eu conseguisse vivenciar uma dobra da linguagem em que um deus — não a ideia de deus, mas ele próprio, ou ela própria, ou simplesmente alguém — de fato se apresente a mim não só como elemento teorético e gramatical, mas como personagem significativo e atuante de uma imagem-pensamento, de uma experiência que conceda algo mais do que a ausência que é a palavra “Deus”. Um deus dialógico e reflexivo, um deus que é seu cúmulo — o cúmulo que é deus, invenção nossa e de nós. “Eu era a fumaça”, disse o Suza, depois de ver o roxo nebuloso que era deus.


Curioso que o Suza tenha descrito sua visão divina com o sintagma “Purple hazy”, quase o título da música “Purple Haze”, de Jimi Hendrix (um gigante tão esquecido, infelizmente). Diz a letra de Hendrix: “Purple haze/ all in my mind” — uma névoa roxa que toma conta de toda a cabeça. No caso do Suza, não se tratava de uma invasão da névoa ou uma continuidade com o inefável; em sua viagem, o Suza produziu ícones: a nuvem roxa nebulosa era Deus; o Suza não era Deus, mas, quando encarava a nuvem, se via refletido nela.


Em “Rútilo Nada”, conto de Hilda Hilst que estudei no mestrado, um narrador inconstante fala de “uma cadela abandonada” que tenta “enfiar a cabeça na axila de Deus”. É radical essa imagem de vulnerabilidade que muitas vezes só um animal pode cumprir, uma imagem que também reivindica as partes pouco ilustres do corpo de Deus. No mesmo conto, Hilda, descrevendo o êxtase sexual, fala em “deboche e clarão” — e, considerando que, para a autora, nada escapa de uma aproximação com o divino, arrisco dizer que Deus também era para ela feito disso: um riso jocoso de quem se anuncia para nunca comparecer, e o brilho que só quem não compareceu à festa pode esbanjar. A revolta de Hilst contra o silêncio de Deus se confunde de sua consideração quase obsessiva da Morte. Assim ela escreveu no livro Da Morte. Odes mínimas:



Te batizo Riso

Rosto de ninguém

Sonido

Altura

Quando é que vem?



Não sei nada sobre deuses e deusas — o pouco imaginário do sagrado que me foi transmitido pertence à tradição judaico-cristã, e com muito atraso vou conhecendo outras configurações de divindades e outras concepções da criação. Quando criança, minhas perguntas eram respondidas com dados científicos adaptados para crianças: Big Bang, dinossauros, sistema solar, um livro sobre a geração dos bebês chamado De onde viemos? (cheio de desenhos simpáticos que ilustravam a cópula, os órgãos sexuais, os espermatozoides, os óvulos e os embriões). Até aí tudo me parecia razoável, concebível. Mas, pouco depois, me lembro de ter feito duas perguntas ao meu pai:


— Mas então, depois da nossa galáxia, o que tem?

— Ninguém sabe. Talvez o infinito.

— Mas qual o tamanho do infinito?

— Não sabemos. Mas deve ser escuro.



— E quando morremos, o que acontece?

— A gente apaga, acaba.

— Mas e depois?

— Depois o mundo deve continuar, mas quem morre para de pensar.



Ainda que certamente essas respostas tenham nutrido minha inclinação a um certo avesso existencial, não me ressinto do meu pai. Quero sim conhecer mais as tantas configurações e arquiteturas atribuídas ao divino. Porém aqui volto a Hilda Hilst, que tanto cogitou a face e a ideia de deus, mas em sua prosa replicou um trecho de Shakespeare em que Iago, o vilão das manobras e da dissimulação, inverte o axioma uma das mais célebres passagens da Torá ou do Pentateuco. Quando Moisés pergunta a Deus qual é seu nome, este lhe responde: “Eu sou o que sou” (Êxodo, 3:14). Na peça de Shakespeare, Iago, por sua vez, reivindica a suspeita e a ambiguidade quando se apresente dizendo: “I am not what I am”. Hilda Hilst ecoa essa espécie de profanação na voz de Lucius, seu personagem cindido pela paixão: “Eu não sou o que sou”, diz ele a seu amante Lucas. Lucius, Lucas, sou o que sou não sou o que sou. Estaremos numa casa de espelhos?


Gosto de pensar que as ideias que tenho de deus estão implicadas em uma negatividade gritante: [deus] há, mas não está. Ainda assim, deve haver uma ênfase — um sobressalto — quando se vive acompanhado de uma ideia de Deus.


(Fico pensando se há um critério, neste texto, para cada vez em que opto por grafar a palavra deus com d maiúsculo ou minúsculo).


Em 1973, Carlos Drummond de Andrade publicou As impurezas do branco, livro tão experimental quanto melancólico. No poema “Deus Triste”, o poeta mineiro se vale de uma espécie de pensamento sistêmico para arrematar: “Deus criou triste./ Outra fonte não tem a tristeza do homem”.


Minha tristeza certamente não vem de Deus. Talvez venha dessa presença/ ausência, da tautologia e dos pleonasmos de nossa convivência com nossa própria invenção. Mas a minha tristeza pode ser driblada quando ouço o Zeca Pagodinho cantando “Vai vadiar” + “Coração em desalinho” com a Velha Guarda da Portela. Ou quando tenho um sonho como o que tive outra noite: Jimi Hendrix pilotava um monomotor nas alturas, tomando uma coca-cola. Saía fumaça, e ele sorria. Não havia Deus, eu também não havia.





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