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Essa bandeira é nossa

Atualizado: 1 de abr.

por Gustavo Gomes




Lula em ato no Rio de Janeiro. Fotografia: UOL



“Essa bandeira é nossa”, brada Lula diante de uma concha acústica lotada. O evento foi na UERJ, no Rio de Janeiro. À convite do reitor, a concha acústica Marielle Franco tornou-se o palco principal da visita de Lula na capital fluminense. Não havia lugar para sentar. Quem chegava em momentos próximos de assistir o presidente, precisava passar por no mínimo cinquenta pessoas espremidas para só então conseguir ver, de baixo para cima, o Lula falar. Em uma cadeira, ao lado, a ex-presidente Dilma.


Esperança. É o mote da pré-campanha de Lula e certamente é o que muitos sentem quando gritam “olê, olê, olá, Lula, Lula”. Um grito que brota do peito com uma força que só compete com um “Fora Bolsonaro”. E assim, resumimos os primeiros passos da batalha que será travada até outubro deste ano. Teremos a oportunidade de agarrarmos a chance de recuperar o Brasil, ou entregaremos o país a um processo antidemocrático que tentará destruir de vez as estruturas que ainda mantém a nossa frágil democracia de pé.


Bom, o cenário não é tão animador como já fora. A última pesquisa mostra uma diferença de doze pontos percentuais para Lula, no segundo turno. É a menor diferença desde então. Já começou o bombardeio de fake news e uma campanha que tenta, e quase sempre consegue, atrair os setores mais conservadores da sociedade brasileira. Não obstante a isso, Lula chama Geraldo Alckmin para ser vice e o filia ao PSB.


De quebra, ele garante que São Paulo será um território com muitas chances de eleger alguém da esquerda, principalmente o pupilo Haddad. Boulos desiste da candidatura, lançando-se como principal nome para deputado federal do PSOL. Márcio França avalia deixar de ser candidato e apoiar Haddad e o maior estado do Brasil se mostra inclinado a votar em uma candidatura de esquerda. Tudo dentro dos planos de quem?


A essa altura vocês já perceberam que Lula é o destaque dessa coluna. Não poderia, todavia, ser diferente. O homem balança as estruturas por onde passa e, dessa vez, veio para o Rio de Janeiro fazer uma agenda política e de pré-campanha fortíssima. Nos bastidores, não o fez diferente em 2021. Com uma série de agendas, embaralhou as cartas e jogou da sua maneira, lançando Freixo como o seu principal nome para o governo do Estado. Agora, volta para consolidar a sua decisão e já iniciar seu processo de campanha em um território decisivo.


Antes da UERJ, sábado, Lula foi ao Festival Vermelho, que comemorou o centenário do Pcdob, sediado em Niterói. Este foi o maior evento de pré-campanha realizado até então. O Caminho Niemeyer parecia pequeno. Era possível ver gente chorando diante do magnetismo de um ex-presidente que narrava o seu processo de prisão e de vitória, em uma jornada de herói que poucas narrativas na história conseguiram criar. Mas nas disputas políticas, em um palco de aliados, era possível ver os adversários. De um lado, Marcelo Freixo. Do outro, oposto, o ex-prefeito Rodrigo Neves e também pré-candidato a governador. Ambos fizeram um discurso voltado para as batalhas a serem enfrentadas no Estado do Rio de Janeiro. Ambos falaram olhando para Lula, mas na fala do presidente, somente Freixo foi citado.


Rodrigo Neves, no entanto, não tem motivos para deixar seu sorriso de lado neste mês. Consolidou-se em um terceiro lugar em um Estado que não sabe em quem votar e que o ex-prefeito continua desconhecido. Nas prévias que parecem inspiradas nas eleições norte-americanas, ele mantém-se distante do Felipe Santa Cruz, que lançou a sua pré-campanha apoiado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes. Felipe e Rodrigo são os nomes para disputar o Governo do Estado pela parceria de Paes e Lupi, PSD e PDT. Neste apoio, Paes sai ganhando de cara, facilitando a sua vida para a reeleição, aproximando de sua base o partido que lançou a candidata à Prefeita, Martha Rocha, e que alcançou a terceira posição. Em 2020, o maior medo de Paes era enfrentar Martha no segundo turno. Voltando para Rodrigo, no entanto, ao ver uma diferença grande e um Felipe Santa Cruz que não deslancha nas pesquisas, caminha para ser o candidato dos governos de Niterói e Rio de Janeiro. Cabe apontar que, em todas as eleições do Rio, o candidato apoiado pela capital venceu. Por outro lado, a maioria dos candidatos apoiados pelo presidente vitorioso, também venceu. Não parece que esses dois mundos se unirão neste ano, mas o peso desses dois apoios é indiscutível. Assim é o Rio: prefere olhar o Brasil e não para si, como se fosse ainda capital, mas também é hiper centralizado, sendo a cidade do Rio decisiva para qualquer candidatura.


Rodrigo Neves também lançou a sua pré-candidatura, ao lado de Eduardo Paes, Ciro, Lupi e Felipe Santa Cruz. Ao mesmo tempo, também organiza a sua nominata, lançando nomes do seu e de outros partidos, a fim de consolidar territórios e disputar outros.


As escolhas estão tomadas e o tabuleiro já está montado. Agora, mesmo que mudanças sejam muito possíveis e até esperadas, os pré-candidatos elaborarão suas narrativas, agendas e vão intensificar os eventos.


Ao mesmo tempo, a estratégia de Lula parece se consolidar. Ele sabe que não será uma eleição fácil. Governar com uma parte da população enfurecida e um congresso dominado pelo centrão como nunca, não será fácil. Ao mesmo tempo, Lula parece ter reconhecido seu erro em não ter construído uma figura política organicamente. Dilma precisou disputar a sua primeira eleição já como candidata a presidenta e a base petista não foi o suficiente para mantê-la. Agora, no entanto, Lula parece olhar para dois possíveis sucessores. Um deles é o próprio Haddad, candidato natural, mas que precisa se provar capaz de ganhar uma eleição, após duas derrotas, uma delas, para um Dória em primeiro turno. O segundo é Marcelo Freixo. Este, sai do Psol e vai para o PSB, visa ocupar o mesmo espaço de uma centro-esquerda que o PT viu crescer e precisou batalhar contra em 2014.


Os próximos passos das definições serão dados. A batalha pela vaga no Senado do Rio promete ser uma das principais aventuras desse mês que se aproxima. André Ceciliano, presidente da Alerj, irá fazer um lançamento digno de uma candidatura para o governo do Estado. Molon, por outro lado, se consolida nas pesquisas como segundo colocado, abrigando um certo desconhecimento, mas que não se compara ao de André. O PT já disse que não cabe dois nomes em chapas majoritárias no PSB. Isso ainda vai dar bastante caldo.


Para nós, um dever de casa. Encontrar o máximo de adolescentes que pudermos e convencê-los a tirar o título de eleitor. Será o último mês para fazer esse público que é muito mais progressista que os outros, votar. Para o Brasil, outro desafio. Em meio às disputas de governo, onde a política sai dos bastidores e toma a sociedade, precisamos compreender e valorizar este processo como o que nos fará olhar para o nosso projeto de país. Qual agenda queremos? Quais as prioridades do próximo presidente? Que a neblina e a situação de emergência constante que trouxe o movimento que ocupa a presidência não nos impeça de sonhar.


Reconquistar a bandeira será importante. Mas compreender que temos 20 anos a recuperar e outros 20 anos para andar para frente é urgente! Nosso país não pode ficar atrás do restante do mundo. E a última chance que temos é 2022! Estamos vivendo e presenciando a História!

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