Entrevista com Deri Andrade, do Projeto Afro

Atualizado: Set 14

por Pollyana Quintella



Deri Andrade é jornalista e pesquisador alagoano radicado em São Paulo. Ele é o responsável por desenvolver a plataforma Projeto Afro, resultado de um mapeamento de artistas negros de diversas regiões do país em diferentes tempos históricos. Nesta entrevista, conversamos sobre o papel deste projeto, o cenário múltiplo da produção afrodiaspórica no Brasil, entre desafios e potencialidades, e outras referências de iniciativas engajadas em difundir e contextualizar a produção negra brasileira nas artes visuais.


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Polly - Deri, o Projeto Afro é fruto de uma pesquisa de mais de três anos, que ainda segue em curso. Você poderia nos contar um pouco sobre esse processo e como surgiu a iniciativa?



Deri - Em meados de 2017, quando iniciei o curso de especialização em Cultura, Educação e Relações Étnico-raciais pelo CELACC - Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação (Universidade de São Paulo), pude aprofundar uma pesquisa em arte afro-brasileira que já estava em desenvolvimento de forma independente. A reconexão com a academia possibilitou-me ampliar os estudos e conhecer alguns pensadores que discutem o tema. Naquele momento, apesar de perceber uma produção acadêmica que se mostrava entusiasmada, comecei a sentir falta de um espaço online que se dedicasse a explorar unicamente a produção de autoria negra no Brasil, sem contar, claro, algumas instituições que preservam e estudam a cultura negra, como o Museu Afro Brasil em São Paulo. Então, o formato do mapeamento do Projeto Afro (http://projetoafro.com/) começou a ser desenhado, na busca organizar um conteúdo que fosse de fácil acesso para os visitantes dessa então futura plataforma que eu tinha em mente.

No primeiro momento, o mapeamento passou a ser esquematizado a partir da agenda de estudos da própria especialização. Debrucei-me em catálogos de exposições, periódicos, artigos acadêmicos e livros que delimitavam essa produção, cito aqui os volumes I e II da segunda edição de A Mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica, organizado por Emanoel Araújo e publicado em 2010, Arte Afro-brasileira, de Roberto Conduru, de 2012, Arte africana e afro-brasileira, de Dilma de Melo Silva e Maria Cecília Felix Calaça, de 2006, além de textos seminais para a questão, entre eles Arte afro-brasileira: o que é, afinal?, de Kabengele Munanga, publicado em 2000. Em paralelo à pesquisa, a plataforma começou a ser estruturada. Em 2018, lancei as redes sociais do Projeto Afro, publicando parte do que vinha sendo organizado com os estudos.

Após extensa pesquisa bibliográfica (ainda em curso), que aponto como a primeira etapa do mapeamento, na qual pude ter contato com o trabalho de alguns artistas citados por essas publicações, lancei uma chamada pública, em junho de 2019, para recebimento de portfólios de artistas, na busca por conhecer essa produção recente. Foram mais de 150 arquivos recebidos naquele momento.

Estudar esses portfólios fez-me perceber o quão vasta é a produção contemporânea no país de artistas negros/as/es. São artistas recém-formados/as/es ou que desenvolvem pesquisas independentes, com temas que vão além do cunho racial. Portanto, esse período de recebimento de portfólios, também em curso, foi marcado como a segunda etapa do mapeamento, acompanhada de um formulário respondido por esses artistas.

Em paralelo, toda uma sistematização de dados começou a ser desenhada para dar corpo ao atual site do Projeto Afro, lançado no último dia 21 de junho de 2020. De lá pra cá, foram 12 meses de muito amadurecimento e evolução para a concepção da plataforma.

Todo o conteúdo disponível na mesma foi pensado para possibilitar uma navegação cruzada, na qual o visitante possa selecionar desde a técnica em que deseja visualizar até o ano e, claro, passando pelo local de nascimento dos/as/es artistas cadastrados/as/es no mapeamento.

Importante também citar que, com o lançamento do site, o mapeamento não se encerra, pelo contrário, ele está apenas começando. Temos recebido e-mails e mensagens de artistas que mostraram interesse em fazer parte da plataforma. O recebimento dos portfólios e o formulário, que será disponibilizado em breve para todos/as/es, continuam ativos. As seções do site também serão sempre atualizadas.




Rodrigo Gonçalves (Gilbef) (AL), Série Fazendo as amizades certas, Acrílica sobre tela, 2017. Foto: Divulgação/cortesia do artista.

Polly - Creio que um aspecto notável do projeto é podermos pesquisar por diferentes regiões do país, indo além do eixo Rio-São Paulo. Você conta com a colaboração de outros pesquisadores para realizar o mapeamento? Há algum tipo de curadoria?



Deri - O Projeto Afro já nasce com o desejo de ser coletivo. Na ocasião do seu lançamento, publicamos alguns textos, com artigos e entrevistas escritos por mim, e outro artigo colaborativo escrito pela curadora Carollina Lauriano sobre a relação dos espaços independentes com o atual momento. Em paralelo ao lançamento, tenho articulado outros textos produzidos por colaboradores para serem lançados em breve no site do Projeto.

Acredito nessa força do coletivo, que soma e troca experiências, para a construção do conceito por trás da plataforma, que deseja visibilizar a produção de autoria negra, produzindo também todo esse material que servirá de referência para os próprios artistas e para os visitantes do site. São escritos de pesquisadores, e artistas que desenvolvem pesquisas sobre o tema, desde reflexões acerca do conceito de arte afro-brasileira até questões curatoriais.

Não observo o mapeamento do Projeto Afro como uma “curadoria”. Acredito na missão do Projeto de apresentar a multiplicidade, seus inter-relacionamentos e a abrangência da produção artística de autoria negra no Brasil, pois são mais de 150 artistas cadastrados até o momento no site. Com isso posto, ao termos acesso a todo esse conteúdo, acredito que nosso olhar tende a descolonizar-se, principalmente quando passamos a conhecer a arte brasileira por esse viés.




Leandro Muniz (SP), Summer Hits (da série Varal). Tecido, cabo de aço e tinta acrílica - Instalação, 2018-19. Foto: Divulgação/cortesia do artista



Polly - Não é raro ver o sistema da arte tentando enquadrar a produção negra em determinadas narrativas totalizantes, como se os artistas só tratassem de determinados assuntos, e de maneiras específicas. Você tem uma pesquisa sobre as relações entre forma e conteúdo nas poéticas de artistas negros, pode nos contar um pouco sobre isso?



Deri - Importante a sua pergunta, pois tendemos a crer que artistas negros/as/es apenas desenvolvem suas pesquisas e criam suas obras a partir desse ponto de vista, mas não é bem assim. No meu artigo de conclusão da especialização no CELACC intitulado “Éramos a cinza e agora somos o fogo: a estética na obra de Maxwell Alexandre”, estudo essa correlação entre conteúdo e forma na obra do artista carioca Maxwell Alexandre, que também está no mapeamento do Projeto Afro. Busco analisar as artes visuais como importante instrumento de reflexão social também, examinando, primeiramente, os conceitos de arte afro-brasileira citados acima. Diante desses estudos, eu penso: como a produção de artistas negros/as/es dá-se em relação ao contexto contemporâneo em que os próprios artistas estão inseridos?

No início do processo de concepção para o Projeto Afro, em 2017, pensei em demarcar a pesquisa com recorte contemporâneo. Entretanto, passei a reparar que a produção atual de autoria negra não deve estar desvinculada daquela do século XX, XIX. Assim, julguei necessário apresentar na plataforma artistas que produziram, por exemplo, na virada do século XIX para o XX, como os irmãos Timótheo da Costa, que estão presentes nos acervos do Museu Afro Brasil e da Pinacoteca de São Paulo, por exemplo. Esses pintores possuem obras, consideradas pela crítica especializada, impressionantes pela textura, pela luminosidade e pela intensidade do colorido dos quadros. São artistas essenciais para uma nova construção da história da arte brasileira, edificada a partir dos cânones europeus.




Arthur Timótheo da Costa (Rio de Janeiro, RJ, 1882 – 1922), Auto-retrato, 1908. Acervo Pinacoteca de São Paulo, doação de Benjamin de Mendonça, 1956. Foto: Reprodução.

Aqui, caem as distinções de “arte primitiva”, “arte regional” ou “arte marginal” empregadas anteriormente para designar a arte de autoria negra. Assim, minhas pesquisas acadêmicas, que se relacionam com o Projeto, buscam compreender essa relação entre os temas tratados por esses artistas e como eles se resolvem plasticamente, formalmente.





Polly - A Rosana Paulino costuma dizer que a produção de artistas negros nunca foi tão intensa no Brasil quanto hoje. Como você avalia esse cenário?



Deri - Temos observado uma pulsante produção contemporânea de artistas negros/as/es. Utilizando como dado o próprio levantamento do projeto, que recebeu mais de 150 portfólios de artistas de todas as regiões do país com o chamamento realizado em 2019, compreendo que os números são entusiasmantes e positivos. Temos conhecimento também de importantes pesquisas realizadas anteriormente, já citadas aqui, e de outras em curso desenvolvidas por nomes como Luciara Ribeiro, Hélio Menezes, Roberto Conduru, Igor Simões, Janaina Barros, Diane Lima, Renato Araújo, Alexandre Araújo Bispo e tantos outros pesquisadores que são referência para mim.

Portanto, essa mesma produção tem sido impulsionada por importantes pesquisas acadêmicas. Além disso, as instituições se voltaram para o tema nos últimos anos, como bem observado por Alexandre Araújo Bispo no artigo “Abundância” e vulnerabilidade: fomento, criação e circulação das artes Negras entre 2016 e 2019” publicado na revista O Menelick 2º Ato, realizando mostras, eventos, seminários e incorporando ainda mais caldo à discussão.

Todo esse cenário, aliado a uma pauta antirracista que traz um debate acirrado nas redes sociais, possibilita identificarmos e conhecermos mais artistas negros/as/es. Entretanto, artistas negros sempre existiram no país, mas essa mesma produção ainda carece de descoberta e novos estudos.




Castiel Vitorino Brasileiro (ES), Empazinada, Fotoperformance - Fotografia digital, 2019. Produção e montagem Rodrigo Jesus e Castiel Vitorino Brasileiro Foto: Divulgação/cortesia da artista.




Polly - Também acompanhamos a multiplicação de plataformas e iniciativas que tentem dar conta de comunicar, analisar, criticar e circunscrever tais produções, como o próprio Projeto Afro, que também tem uma seção dedicada a fomentar o pensamento reflexivo, com entrevistas e textos de opinião. Você tem referências de projetos afins que gostaria de mencionar?



Deri - Com o breve panorama explanado acima, tenho citado também iniciativas independentes que surgiram ao longo dos últimos anos na busca pela descolonização do olhar para a produção negra: O Menelick 2° Ato, AfroTranscendence, MUNA – Mulheres Negras nas Artes, Projeto Dúdus, Nacional Trovoa e tantos outros. São projetos que antecedem ao Projeto Afro e abrem os caminhos para esta e para as próximas ações que virão. São todas ações importantes que nos possibilitam olharmos com mais atenção ao tema. Gosto de citar que o objetivo do Projeto Afro é ser parte integrante da retomada de vozes historicamente oprimidas e silenciadas, contra os epistemicídios, e pela expansão do nosso referencial.

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