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Entrevista com Chico Dub

por Pérola Mathias


Entrevista com Chico Dub sobre a curadoria do Festival Novas Frequências e sua parceria com a 34ª Bienal de São Paulo


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O que encontramos atualmente no domínio da arte seria muito mais uma mistura de diversos elementos; os valores da arte moderna e da arte que nós chamamos de contemporânea, sem estarem em conflito aberto, estão lado a lado, trocam suas fórmulas, constituindo então dispositivos complexos, instáveis, maleáveis, sempre em transformação

(Anne Cauquelin em “Arte Contemporânea: uma introdução”, 2005)




A música sempre esteve próxima das artes visuais de muitas formas. E vice-versa. Na arte contemporânea, a ideia de um campo expandido – ampliado do contexto de sua formulação pela crítica e teórica da arte Rosalind Krauss ao refletir sobre a escultura – possibilitou o desenvolvimento de uma complexidade interpretativa sobre os processos múltiplos da arte, influindo no discurso das mais diversas práticas. O desenvolvimento das tecnologias intensificou o intercurso entre as linguagens e a interdisciplinaridade, matéria que renderia papo para várias colunas.


Na pré-pandemia, algumas exposições marcantes aconteceram em São Paulo tendo a arte sonora – incluindo instalações, esculturas e performances sonoras e luteria, por exemplo – como tema. Para citar alguns exemplos, em 2018 tivemos “Esculturas para ouvir” no MuBE, com curadoria de Cauê Alves; “Sons do Silício”, organizada pelo Grupo de Práticas Interativas do Núcleo de Pesquisas em Sonologia da USP no Centro Maria Antônia, que também pertence à universidade, em 2019; o “II Panorama de Luteria Experimental” na Passagem Literária da Consolação e “Lado B: o disco de vinil na arte contemporânea brasileira”, no SESC Belenzinho, curada por Chico Dub.


Agora, enquanto voltamos aos poucos a poder ocupar os espaços públicos e instituições, acontece a 34ª Bienal de Arte de São Paulo, adiada um ano por causa da pandemia e que, desde 2019, vem dando mostras de seu programa. Assim como diversas edições da Bienal, nas últimas décadas a música perpassa pelas obras selecionadas e atividades promovidas durante o período de exposição da edição atual. Como uma brevíssima ilustração, podemos pensar que em 1980 era para Laurie Anderson ter estado presente, já em 1983 houve a participação do Fluxus, e, mais recentemente, em 2016, o “TaBomBass” de Vivian Caccuri trazia o sistema de sons das ruas para o pavilhão.


No vão da 34ª Bienal, o Festival Novas Frequências, do Rio de Janeiro, curado por Chico Dub, desenvolveu uma programação de nomes consolidados da experimentação musical para ativar a obra “Deposição (2020)”, de Daniel de Paula, Marissa Lee Benedict e David Rueter. A obra consiste em uma “trading pit” resgatado da bolsa de valores Chicago Board of Trade. Dentre os nomes selecionados para se apresentar estão, por exemplo, a Orquestra Errante, projeto de improvisação criado pelo professor Rogério Costa, professor do Departamento de Música da ECA-USP; a artista Inês Terra, cujo trabalho e pesquisa exploram a voz como instrumento para diversos processos de criação; as performers trans radicadas no Rio de Janeiro Irmãs Brasil; e os artistas sonoros Mbé (Luan Correia) e Marco Scarassatti, este, pesquisador da obra de Walter Smetak, compositor e construtor de seus instrumentos.



Deposição, de Levi Fanan



As escolhas de Chico Dub para a Bienal se cruzam com o que tem sido apresentado pelo seu Festival Novas Frequências há mais de uma década. O Festival, realizado anualmente no Rio de Janeiro, vem aprofundando a relação da música e do som com espaços não convencionais, ou seja, para além dos palcos, em museus, galerias, ateliês, praças, escolas e a própria cidade, o que reafirma uma busca pela ampliação do próprio conceito e sua expansão pelo campo artístico. Ainda na Bienal deste ano, é possível ver peças do revolucionário da música jamaicana Lee “Scratch” Perry, falecido no último mês de agosto, e teve, em sua abertura, a performance “A maze grace”, do sul-africano Neo Muyanga, inspirada no hino “Amazing Grace”, do século XVIII. Aliás, o próprio título desta Bienal, um verso de Thiago de Melo, pode ser ouvido na voz de Nara Leão, em canção de mesmo nome.


Conversei brevemente com Chico Dub para entender um pouco mais sobre o que significa essas buscas, como se deu sua parceria com a Bienal e o que o Festival Novas Frequências apresentará na sua 11ª edição, em 2021, reformulado após esse mais de um ano e meio de atividades on-line.



Festival Novas Frequências no MAM. Fotografia: Francisco Costa




Pérola Mathias: Como se deu a parceria entre o Novas Frequências e a 34ª Bienal de São Paulo?

Chico Dub: Conheci o curador adjunto da 34ª, o Paulo Miyada, ao dividir a banca de um edital com ele no final de 2019. No início de 20, ainda pré-pandemia, conversamos com mais detalhes sobre o Novas Frequências, em que processo estávamos e o que gostaríamos de realizar no contexto dos nossos 10 anos. O título-tema desta edição da Bienal, “Faz escuro mas eu canto”, me parecia extremamente instigante no desenho de possíveis propostas performativas. A recepção foi muito boa. E descobri que também já haviam conversas nesse sentido com a Cultura Artística, uma parceira de longa data da Bienal e com quem eu já estava conversando previamente sobre outros assuntos. Daí que no final foi muito fácil fecharmos esse trio em torno de intervenções ao redor da obra “deposição”, de Marissa Lee Benedict, Daniel de Paula e David Rueter.

Em função da pandemia, essas atividades acabaram sendo adiadas para 2021, porém, no ano passado mesmo, acabou surgindo uma outra oportunidade de parceria, desta vez somente entre o NF e a Bienal, que se deu a partir do enunciado com curadoria da Ana Kiffer “Corte/ Relação em Antonin Artaud e Édouard Glissant”. Trabalhamos então juntos com a Grace Passô, que desenhou Ficções Sônicas em formato de peça radiofônica para os dez anos do Novas Frequências, e em formato instalativo no ano seguinte para a 34ª.


PM: Como o festival tem entendido desde seu início a questão do “sonic turn” nas artes e se tornando cada vez mais um festival “híbrido”, que pensa não só a questão da música experimental e dos sons exploratórios, mas a ideia da escuta não coclear e a ocupação de espaços diversos?

CD: Essa ampliação de perspectiva se deu de forma muito natural. A partir de 2014, 2015, comecei a entender que poderia explorar o som para além dos palcos, me relacionando com outros espaços e instituições, atuando de forma site-specific em todas as nossas ações. As diferenças entre a música experimental e a arte sonora são muito notórias, muito aparentes, mas me encanta o ato de diluir, de borrar, essas fronteiras. Até porque, sendo um festival nichado, me parece fundamental ser o mais aberto e híbrido possível, ainda que o som sempre seja o ponto de partida.

PM: Como você enxerga essa abertura cada vez maior dos espaços específicos das artes visuais à música em suas curadorias (digo, na curadoria que esses espaços fazem, mas responde também das curadorias que vc faz)?


CD: Eu enxergo como uma janela de oportunidades fantástica para ambos os campos. E em diversos sentidos. São históricos os cruzamentos da música com outros fazeres artísticos (cinema, teatro, dança, performance), então nada mais orgânico que o interesse contemporâneo das artes visuais em relação à música (que sempre existiu, na verdade, porém operando em pequenos ciclos temporais, se sacramente de vez deixando de se tornar uma tendência, uma moda passageira.



PM: O tema do festival desse ano é uma pergunta, que ilustra o tempo de incerteza que estamos vivendo, sobretudo no âmbito da cultura: “Pra onde agora?”. Por que vc decidiu colocar a dúvida no centro da sua curadoria e como ela vai ser ilustrada na programação (que ainda está semi inédita, mas o que poderia ser adiantado)?


CB: Não só no âmbito da cultura, mas, infelizmente, em diversos outros contextos. No político, social, ecológico… Parece que a humanidade se encontra hoje em xeque mate, presa num beco sem saída, sem saber para onde ir. A sensação é nunca se esteve tão perdido. E é nesse sentido que o festival vai até os artistas propor que eles nos tragam caminhos para futuros mais sadios.


A pergunta também opera numa espécie de campo auto-referencial. Como continuar relevante depois de 10 anos? O que será que ainda não fizemos? Mesmo que, a cada ano, o festival busque se ressignificar, isto vem sendo suficientes? Que festival queremos nos próximos anos? Quais as estratégias possíveis? Que caminhos adotar?


O Novas Frequências este ano está com um formato super diferente. Extenso, com 4 meses de duração, promove um curso com 8 encontros sobre música experimental e arte sonora, residências artísticas, uma instalação no Oi Futuro, uma galeria virtual com trabalhos híbridos - mas que possuem o som como alicerce - e, finalmente (SIM!), eventos presenciais. Vamos receber em todas essas atividades, cerca de 50 artistas, a maioria brasileiros. Sobre o que dá pra adiantar? Hmmmmm…. Vamos promover 3 ocupações presenciais inéditas, a mais significativa delas, com vista para o Rio.




Neo Muyanga por Levi Fanan

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