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Dois poemas inéditos de Julia de Souza



frame do filme Memoria (2021), de Apichatpong Weerasethakul




ATM


Você tira os óculos;

seus olhos são de novo dois

sorrisos invertidos, e pode ser terrível

a doçura, como um doce que se devora

desesperadamente.


Prefiro você sem óculos

de olhos fechados, repito, porque

não concluí ainda a superfície

do seu rosto — que ponto ali me vence

antes da boca, daquele estalo.


Ontem depois do pasmo

percebemos: sou a antena

e você o disco-rígido, e eu me agarro

à sua memória não como a um bote

salva-vidas, mas como a uma nave

metálica e antiga; e mais


aos seus cílios do que às sobrancelhas

densas — um casal de nuvens

prestes a sufocar

a serra.


(Eu serei sua cantora

você minha canção

ou seria o inverso? Não sei bem.


Sei que seus olhos desmentem sua boca, e não

o inverso.)


*


Você se liquefaz em meus braços:

somos filhos da história.

Não sei bem se conseguimos

perfurar a espessura do mundo

eu, você e este estrondo surdo;

não é exatamente nas palavras

que nos amparamos.


Somos filhos da história

e isso é um bom presságio;

mas não sei seu estado físico

a pressão atmosférica

seu ponto de ebulição.




____________________________________





To the Monsters, we’re the Monsters


mas veja: antes que eu me esqueça

que no inverno o poente é mais vermelho

em Cosmópolis, SP, onde você provou

seus pés enormes e saudáveis; antes

que por receio eu omita que a mochila felina

quase rima com a sua queda da Bastilha; antes,

logo antes que eu desista de decifrar

sua grafia e antes de buscar seu rosto

numa rua apinhada; antes de abandonar as janelas

vermelhas, que não são portas, nunca serão,

pois nem sempre há saída. Antes que eu me lembre

da areia implacável do vidro das horas

e que se dissolva o duplo frame

que ficamos de guardar até o sempre —

veja: é um fogo-cruzado o encontro

de dois olhos fascinados

a extinção de campo-contracampo

por uma fração leitosa da vida.


Antes que não haja explicação e, com sorte

antes de havê-la, entro agora e novamente neste quarto

de hotel. “São as mãos que conhecem as mãos”,

você escreveu, antes. Entro neste quarto de hotel para entrar

no intervalo dos seus dedos. Vejo você e chego antes

do disfarce (você me espera diante da janela)

e antes que a noite azule, posso dizer: sou agora

uma monstra voraz e feliz, tenho mãos

antecedentes, tenho mãos, finalmente,

em excesso.




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