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Döblin de novo: a epopeia pop

por João de Campos


Frame, "Berlin Alexanderplatz", 2020


Naturalmente, podemos nos relacionar com o mar de diferentes formas. Pode-se, por exemplo, deitar na praia, ouvir as ondas e recolher a conchas deitadas na areia. É o que faz o poeta épico. Mas também pode-se navegar o mar. Com muitos objetivos ou objetivo nenhum. Pode-se fazer uma travessia marítima e cruzar o céu e o mar, sem terra à vista. É o que faz o romancista.


Walter Benjamin sobre o romance Berlin Alexanderplatz em a Crise do Romance, 1931



Certa vez na MTV, Renato Russo disse que uma música pop é uma vida contada em três minutos. Já Burhan Qurbani, um jovem realizador alemão de origem afegã, precisou de três horas para contar a vida de Franz Biberkopf, protagonista do romance Berlin Alexanderplatz (1929) de Alfred Döblin que ganhou em 2020 uma nova adaptação para o cinema. Muito mais do que trazer a trama para os dias atuais, Qurbani recuperou dois aspectos do romance que escaparam à famosa adaptação de Rainer Fassbinder para a TV nos anos 1980. O caráter épico do enredo e a estética pop do romance.


Vamos começar pelo o que não é consenso. Berlin Alexanderplatz é um romance pop, mesmo antes desse conceito existir. Não apenas por usar técnicas de recombinação que mais tarde desembocariam na Pop art como a colagem e a montagem, mas também por seu estreito diálogo com a cultura de massas, através de uma linguagem até então muito distante da literatura, se aproximando mais da linguagem oral das ruas ou da comunicação pragmática dos jornais, dos informes, dos panfletos e dos balancetes. Soma-se a isso, a proximidade da obra – numa época que filmes ainda batalhavam para serem reconhecidos como obra de arte,-com o cinema dos anos 1920, ao usar a montagem muito mais como um artifício de construção da temporalidade do que como apenas um dispositivo de ilusionismo ou trucagem.


Na nova adaptação do romance, seja através da cena eletrônica da Berlin contemporânea, seja pela trap music ou pelos filmes de ação de Nigerwood, Burhan Qurbani, a exemplo de Döblin em 1929, lança mão de manifestações estéticas contemporâneas – não muito aceitas pelo cânone – na intenção de narrar a história de Franz Biberkopf. Até o sutil expressionismo da prosa de Döblin é retomado na adaptação através dos neons, das publicidades e das sirenes da noite alemã. Num clima bem diferente da atmosfera impressionista tão cara ao século XIX que as lâmpadas de gás provocaram na adaptação de Fassbinder. E foi justamente em função da fotografia e da montagem que muitos elementos estéticos do romance de Alfred Döblin se perderam na adaptação de Rainer Fassbinder em 1981.


Ainda que seja composta de várias camadas de linguagens e mídias e que a Berlim dos operários esteja presente na adaptação, a montagem e a fotografia da série parecem formalistas demais. Há uma explicação clara para isso, Berlin Alexanderplatz praticamente inaugura a segunda e última fase da cinematografia de Fassbinder. Nela, o diretor termina uma relação de quase dez anos (e 14 filmes) com o diretor de fotografia Michael Bauhaus (que ficaria ainda mais conhecido por seu trabalho com Martins Scorsese) e parte para a carreira em Hollywood. Antes dessa virada, a fotografia dos filmes de Fassbinder era fortemente marcada por câmera na mão e muito improviso, fruto não apenas da maior liberdade da indústria cinegráfica alemã, mas também da sua proximidade com o diretor de fotografia com quem chegou a morar junto. Alguns filmes desse período, como adaptação da obra de Bertold Brecht Baal ou As lágrimas amargasde Petra von Kant são feitos com apenas uma câmera, operada pelo próprio Bauhaus. Já em Hollywood, além de uma rígida decupagem antes das filmagens, Fassbinder também precisava submeter todos os movimentos de câmera a equipamentos específico como travellings, entre outros.


O ritmo do romance de Alfred Döblin, inegavelmente, se parece muito mais com o de Fassbinder da primeira fase: cortes abruptos, jump cuts e quebras no pacto realista por meio do estranhamento. Berlin Alexanderplatz foi a última produção de Fassbinder na Alemanha, mas já com orçamento de Hollywood e com o novo diretor de fotografia Xaver Schwarzenberger, que assinaria a foto dos últimos filmes de Fassbinder no novo continente. Portanto, é possível arriscar dizer que a burocracia de Hollywood engessou a tal ponto a adaptação que foi capaz torná-la mais romanesca do que o próprio romance de Alfred Döblin. E, assim, podemos começar a falar do que é consenso: o caráter épico de Berlin Alexanderplatz e sua retomada na nova adaptação.



A história de Franz Biberkopf no romance de Alfred Döblin se apresenta ao leitor da mesma forma que o mar ao poeta épico, em que basta “ouvir as ondas e recolher a conchas deitadas na areia”. Talvez na intenção de sublinhar essa caráter épico de Berlin Alexanderplatz observado por Walter Benjamin na sua metáfora com o mar, Burhan Qurbani começa em sua adaptação a narração justamente quando o Franz – agora um refugiado e não mais um presidiário – pisa em terra firme vindo do mar.


O Franz Biberkopf de Burhan Qurbani (originalmente chamado de Francis) é tão complexo quanto o de Alfred Döblin. E essa complexidade não pode ser vista de forma avulsa ao estilo da narrativa do filme. Questões quase invisíveis em 1929, quando o romance fora lançado, como a misoginia, a masculinidade tóxica e a homoafetividade reprimida – e tão bem ressaltadas por Fassbinder na década de 1980 – estão presentes na nova adaptação, mas de uma maneira com que Franz não apareça apenas com um simples vilão. O Franz Biberkopf de Burhan Qurbani, até por ser um fugitivo da África, poderia ser perfeitamente um dos casos de trauma e neurose descritos por outro Franz, o Fanon, em Os condenados da terra.


Na nova adaptação, a exemplo do que fez Fassbinder, Franz precisa superar conflitos bem claros. Mas através de uma montagem sensorial, a tensão do arco dramático em alguns momentos se desfaz e esquecemos de tratar a história de Franz como se fosse uma travessia. Assim, ela soa como ondas do mar batendo ao longe e de tal distância não é possível julgar o que acontece, apenas se envolver e, na medida do possível, contemplar.


Por mais que esteja recontextualizada, a adaptação de Burhan Qurbani de Berlin Alexanderplatz é muito mais, digamos, “ortodoxa” do que a feita por Fassbinder. Burhan Qurbani não apenas traz incontáveis citações literais do livro para narrar a história como manteve o enredo quase intacto, com apenas uma modificação no epílogo. E justo aí, pode estar a senha para o que a nova adaptação de Berlin Alexanderplatz pode trazer de mais valioso.




Mas se você se importa com spoilers e não viu o filme, não siga lendo esse texto.


No romance de Alfred Doblin de 1929, a exemplo da adaptação de Burhan Qurbani, já quase no final do enredo, Franz Biberkopf (quando decide em nome do amor levar uma vida honesta) é acusado injustamente pelo assassinato de sua namorada que na verdade fora morta por seu mentor no mundo crime, Reinhold, que não queria perder seu comparsa. Mas o Franz, o cidadão alemão protagonista do romance de 1929 vai “apenas” para uma espécie manicômio e acaba inocentado. Já o Franz que chega a nado fugindo de Bissau no início da última adaptação, não apenas cumpre a pena toda, como no epílogo ele sai do presídio de Tegel, reproduzindo a cena inicial do romance, inclusive com citação literal da frase inaugural: “Agora estava diante do portão de Tegel. Livre”.


E então – se tudo aquilo não é sonho e ele não morreu envenenado na prisão – Franz descobre que tem uma filha alemã (o que juridicamente também lhe garante cidadania) e na cena seguinte se encontra perdido na Berlin Alexanderplatz contemplando a paisagem. Dessa vez, ele está sem seu usual abrigo e veste um terno de tal qual o Franz Biberkopf de Fassbinder na maior parte da adaptação televisiva.


Não é preciso nem ver o filme para saber que o Franz de Burhan Qurbani é o Franz da colônia, o Franz do terceiro mundo. O que o epílogo traz de novo é a uma possível relação ancestral entre o Franz Biberkopf de Burhan Qurbani e o Franz de Döblin ou Fassbinder. O materialismo (nas três tramas) se torna uma espécie de fatalismo, na medida que impõem ao protagonista um destino. Na adaptação, há o componente do protagonista ter nascido no “terceiro mundo”, o que coloca Franz sempre (no mínimo) uma geração atrás na luta contra a falta de oportunidades. Assim, é preciso toda uma vida para que o Franz de Bissau possa chegar exatamente no ponto onde de início em se encontra o Franz alemão. Após três horas de filme e uma vida inteira o novo Franz agora é livre. Livre como o subproletariado dos países desenvolvidos, livre para trabalhar até o dia de sua morte.




João de Campos é jornalista, roteirista, diretor e cursou o mestrado em Teoria de Literatura na UFF.




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