Asfixia: formas da insurreição pela linguagem

Atualizado: Set 14

Por Marcelo Reis de Mello (colunista convidado)



“ Resgatamos nossas lágrimas do mar
e as protegemos por escrito.”
- M. Nourbese Philip, Zong!

“Não há escapatória política dessa armadilha.
Só a poesia, esse excesso de transações semióticas, pode reativar a respiração.”
- Franco Bifo Berardi, Asfixia.



Protestos em junho de 2020, Estados Unidos




A imagem que melhor traduz o nosso tempo é a imagem da asfixia. Podemos dizer que ela se torna (cada vez mais) um paradigma ético e estético do presente. Próxima da imagem do naufrágio, que certa Modernidade escolheu para escrever o fim de uma era, e não muito distante da imagem do atropelamento, usada para representar a vertigem e a violência do mundo pós-industrial, vivemos agora sob o signo implacável da asfixia. Não custa lembrar que este novo vírus ataca extamente – com muita agressividade – as vias aéreas. Ao vivo, pelo celular ou pela televisão, vemos pessoas entubadas em Emergências, nas UTI’s, ou agonizando a caminho do hospital. De repente somos assaltados pelo medo primitivo de morrer asfixiados, como peixes num samburá.


Mas esta asfixia é, como sempre, bastante seletiva. A presença do racismo fica cada vez mais explícita e inaceitável em cidades supostamente democráticas, ainda que a contaminação pareça às vezes difícil de monitorar, como o próprio vírus. O racismo coincide historicamente com a impossibilidade de respirar. Há poucas décadas, um sem-número de negros que viviam no Sul dos Estados Unidos foram linchados para serem exibidos ao público, assim mesmo: pendurados em galhos de árvores, pelo pescoço, como “frutos estranhos”. Impossível não ouvir as vozes incomparáveis de Billie Holiday ou Nina Simone cantando “Blood on the leaves and blood at the root / Black bodies swinging in the southern breeze” [Sangue nas folhas e sangue na raiz / corpos negros balançando na brisa do sul]. Podemos pensar também em uma das mais corriqueiras técnicas de tortura da polícia brasileira (que aparece em filmes tipo Tropa de Elite): asfixiar as pessoas nas favelas com um saco plástico.


O próprio vírus é seletivo. Uma das coisas que já sabemos sobre o Covid-19 é que ele mata muito mais negros do que brancos. Como se não bastasse o genocídio institucional, a linguagem virulenta do racismo. Talvez este seja um dos motivos pelos quais a súplica de George Floyd, em seu derradeiro quase-sussurro, nos minutos intermináveis que antecederam a consumação do homicídio, por aquele policial branco, reverbera em nós com tanta força. Há menos de uma década, outro jovem negro, Eric Garner, fora estrangulado pela polícia de Nova Iorque, e morreu dizendo as mesmas palavras: “I can’t breathe” [eu não consigo respirar].


O romancista e poeta nigeriano Ben Okri, em um texto publicado há alguns dias no The Guardian,[1] ouviu nas palavras de Floyd o idioma dessa agonia extrema e terminal: uma frase que expressa o próprio coração do racismo. A perfeita síntese do que o racismo faz com as pessoas. E acrescenta: “Nem mesmo William Shakespeare, Walt Whitman, James Baldwin ou Toni Morrison conseguiram algo tão simples na genialidade de sua verdade quanto: ‘Não consigo respirar’”.


É verdade. Nada se compara à força dessa frase e dessa imagem. Por sua vez, é evidente que a literatura, de Shakespeare a Morrison e além, é fundamental em muitos sentidos. Como poeta e professor de literatura, eu gostaria de falar um pouco sobre isso. Porque mesmo nesse momento da história, ou principalmente agora, diante da urgência dos gritos de guerra levantados contra o racismo e os racistas (gritos que felizmente cruzam as fronteiras que o vírus fechou) – artistas, escritorxs e poetas são absolutamente necessárixs. Não só como membros ou cronistas das manifestações, mas, também, para repor à vertigem do presente algumas zonas de silêncio, gestos apagados, semissombras de sentido. Muitas coisas são sempre deixadas para trás.


A poesia certamente não coincide com o jornalismo noticiário (sua vocação para o descartável), nem com discursos políticos (sua retórica indiscretamente promissória), porque ela não se reduz a informar o presente ou discursar a serviço de uma causa qualquer. Poesia: dissidência sem fim: contrapalavra. Um poema deveria estar sempre contra o poder e os poderes (principalmente o seu), porque ali a palavra nasce de uma língua que falta. A palavra dx poeta é inevitavelmente inter-dita. Ouve: o mundo da poesia não é o reino exclusivo dos corações partidos, das rimas fluidas e açucaradas excressências. Não. Seu mundo é o mundo para o qual o ar se torna irrespirável.


Em novembro de 1781, o capitão do navio negreiro Zong ordenou que cerca de 150 indivíduos africanos fossem assassinados por afogamento, para que os proprietários do navio pudessem receber o dinheiro do seguro. Este é um modo corriqueiro de contar uma história; nada mais do que uma nota sobre um acontecimento absurdo. Pois bem. A escritora tobaguense Marlene NourbeSe Philip publica em 2008 um livro de poesia com o mesmo nome daquele navio negreiro, acrescentando ao título apenas um ponto de exclamação: Zong!. Os textos do livro se baseiam nas palavras da decisão legal Gregson vs Gilbert, que é o único documento público existente sobre o massacre.


Só que Zong! de NoubeSe Philip não é uma notícia, nem um panfleto político, nem a opinião de alguém sobre o que houve. É muito mais um exercício escavatório de camadas da história, dessa narrativa asfixiada, suprimida, onde se misturam os corpos negros na água, música, gemidos, gritos, juramento, ululação, maldição e canto. Seu poema é um fortíssimo lamento anti-narrativo que não cessa de expandir os limites da forma poética, assombrando as incontáveis lacunas históricas, e, com um fôlego difícil, uma respiração entrecortada, faz o trabalho do luto por esses indivíduos desaparecidos para sempre no fundo do mar.


Ainda não há traduções ao português, então reproduzo aqui um fragmento original do início do livro Zong![2] de NourbeSe Philip, que ecoa dolorosamente a escravização dos negros africanos, durante séculos; o massacre do navio, em 1781; as palavras finais de George Floyd, em 2020:



Mesmo sem saber inglês, pode-se encontrar formas de ler esta página. As letras negras são dispostas na folha como os corpos das pessoas atiradas no mar. Sobressai a letra “w”, inicial de water [água], e também de was [foi], won [ganhou], palavras mutiladas e espalhadas na página, entre outras: go [vai], our [nosso] god [deus], good [bom], oh no [ó, não], on [em], no one [ninguém], one [um], day [dia], letras, sílabas, palavras que são corpos frágeis flutuando em zonas de silêncio, gemidos e gritos que surgem e depois afundam sem se completar: oh, ey, ay, ah... e os dáblios se multiplicando na página, evocando o som das bocas cheias dágua buscando permanecer na superfície.


Não cabe aqui uma análise exaustiva do poema, nem é o objetivo. Ele é extenso e uma única página parece inesgotável. Esperamos que em breve seja feita alguma tradução desse livro à nossa língua. Certamente, não será uma tarefa simples. Na página seguinte, onde se encerra a primeira parte (a mais visual) do texto, lemos uma frase fraturada e cheia de sentidos: wwww w a/ w wa wa t/ er wa t/ er wa te/ r wat/ er wa ter/ of w/ ant. Sabemos que water é “água”. Mas want remete tanto a “desejo” como a “falta”, “ausência”. E “ant”, a palavra final, quer dizer “formiga”, como se estas letras fossem também formiguinhas lançadas na água, sugerindo o valor insignificante dessas vidas negras trocadas pela apólice do seguro. Não por acaso os nomes das pessoas assassinadas no massacre são listadas pela poeta ao pé da página, com uma fonte minúscula, difícil de ler.


Acho que este poema representa muito bem o que está em jogo na escrita da poesia. E qual é o campo de forças em que ela está necessariamente implicada. Há coisas que não têm como contar na CNN ou na Globonews, por mais que xs jornalistas de esforcem. Nenhum panfleto político substitui esse poema, por mais eloquente que seja o discurso. A poesia trata justamente da recuperação das falhas, tanto dos fatos como da própria linguagem que usamos para dizê-los. A poesia que aparece no livro de NourbeSe Philip coincide com a linguagem da asfixia. E é assim que outra respiração se torna – ainda que precária e provisoriamente – possível.


O poeta de língua alemã Paul Celan, que teve a sua mãe assasinada com um tiro na nuca e o pai morto pelo tifo, em campos de concentração nazistas (conhecidos pelas câmaras de gás), dizia que a poesia só é possível depois do horror da guerra como uma “mudança de respiração”. Atemwende é inclusive o nome de um dos seus livros. Não tento explicar o que isso significava para o poeta, apenas sugiro que essa pode ser, ainda hoje (como desde que existe o racismo e a escravização), a principal tarefa da poesia: uma mudança da (e na) forma de respirar. Para isso talvez seja necessário “tomar o céu por abismo” e saber que se escreve como alguém que “emudece de terror”. É nesse sentido que o filósofo Theodor Adorno escreveu sobre a importância de tentar ver o mundo da perspectiva das vítimas, como os judeus mortos e enterrados de cabeça para baixo, durante a Idade Média.


Hoje, a imagem mais forte é a da asfixia, indissociável do racismo. A cena de George Floyd deitado no asfalto, com o joelho de um policial branco sobre o seu pescoço (um homem cínico, que posa para as câmeras com as mãos no bolso, visivelmente orgulhoso), é uma cena do horror – tomada pelos manifestantes como imagem para uma insurreição possível.


Esta deve ser a pauta da luta, agora. A luta contra o racismo. A luta contra a asfixia que provém de um projeto de mundo homogêneo, branco, dominado pelo ódio à diferença – ódio à cor “do outro”. Para isso, é preciso impedir que um sentido único (projeto histórico do patriarcado e do colonialismo ocidental) se imponha. Por isso mesmo, ao resguardar uma zona de silêncio ou de “insignificância” à linguagem (como as “formiguinhas” do poema), a poesia é necessária. Poema como contrapalavra. Poesia contrapoesia, inclusive. Luis Felipe Fabre: formas de ler os buracos. Nicanor Parra: antipoemas.


Depois de concluído esse texto, deparo-me com o livro “Asfixia – Capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem”, de Franco ‘Bifo’ Berardi (autor do texto mais bonito sobre a pandemia, o isolamento e seu efeito de psicodeflação), onde ele defende a certa altura, em um capítulo chamado “Não consigo respirar”, a poesia como construção coletiva dos nossos horizontes políticos. Porque “o poeta não respeita os limites convencionados da relação entre significante e significado e desnuda a infinitude do processo de criação de sentido (significação)”.[3] Sim. A poesia deve ser (ou pode se constituir como) uma espécie de linguagem in-significante,[4] cuja principal tarefa é garantir alguma porosidade aos signos – a “reintrodução do indefinido” – apresentando-se como um “excesso que vai além dos limites da linguagem”.


Termino aqui com os versos de um grande poeta brasileiro, abolicionista ferrenho, filho de escravos alforriados e vítima constante do racismo à brasileira, que morreria aos 36 anos de idade, sem conseguir respirar, depois da morte dos seus quatro filhos pela mesma doença: a tuberculose. A propósito, o bacilo da tuberculose (que também ataca os pulmões) foi causa de uma pandemia assustadora até meados do século passado. Bem diferente do poema de Marlene NoubeSe Philip, mas fruto daquele mesmo mal, a escravidão, a voz do catarinense João da Cruz e Sousa se levanta e insufla os pulmões do nosso tempo para a luta; uma luta que não cessa de recomeçar, de inúmeras formas:

ESCRAVOCRATAS[5]

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio Manhosos, agachados — bem como um crocodilo, Viveis sensualmente à luz dum privilégio Na pose bestial dum cágado tranqüilo. Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas Ardentes do olhar — formando uma vergasta Dos raios mil do sol, das iras dos poetas, E vibro-vos a espinha — enquanto o grande basta O basta gigantesco, imenso, extraordinário — Da branca consciência — o rútilo sacrário No tímpano do ouvido — audaz me não soar. Eu quero em rude verso altivo adamastórico, Vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico, Castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!

[1] https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/jun/08/i-cant-breathe-george-floyds-words-reverberate-oppression [2] Marlene NourbeSe Philip. Zong! Wesleyan University Press, 2011. [3] Franco ‘Bifo’ Berardi. Asfixia: Capitalismo Financeiro e a Insurreição da Linguagem. Trad. Humberto do Amaral. São Paulo: UBU, 2020. [4] Desenvolvi essa noção em minha tese de doutorado em literatura comparada pela UFF/Capes, defendida em 2019 e ainda inédita, intitulada: “Poesia, escrita insignificante: balbucio, desastre, apagamento”. [5] João da Cruz e Sousa. Livro derradeiro. In: Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart. Florianópolis: FCC / Fundação Banco do Brasil, 1993.





MARCELO REIS DE MELLO é poeta e orientador da COART/UERJ. Este mês publica seu "José mergulha para sempre na piscina azul" (Garupa Edições).

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