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As virtualidades da casa – conversa com Gabriel Pessoto

por Pollyana Quintella



A conversa que segue abaixo foi realizada por e-mail, entre maio e junho de 2022, enquanto Gabriel Pessoto (1993, Jundiaí) produzia as obras que integrariam sua instalação na Temporada de Projetos do Paço das Artes desse mesmo ano, após ter sido selecionado ao lado de outros quatro artistas e um projeto curatorial. Buscamos comentar os detalhes de sua instalação, bem como costurar relações mais amplas entre o analógico e o digital, o artesanal e o industrial, a casa e a esfera pública, desejo e corpo, política e virtualidade.


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Pollyana: Querido Gabriel, gostaria que você começasse comentando a respeito do projeto que você apresentou na mais recente temporada do Paço das Artes, em São Paulo. De modo geral, no que consiste a instalação?


Gabriel: Realidade virtual, a instalação desenvolvida para essa temporada de projetos, é majoritariamente composta por trabalhos têxteis, apesar do título. As peças são tapeçarias bordadas em lã sobre telas de talagarça montadas em estruturas tridimensionais que se organizam em torno de uma ideia enxuta de casa, de ambiente doméstico. Temos um quarto, um banheiro e uma sala preenchidos por esses volumes e ângulos familiares, mas o que vemos são representações, espectros pixelizados desses itens comuns, bordados em uma técnica que dialoga tanto com um repertório do artesanato quanto com a visualidade da imagem digital. Além das tapeçarias, a instalação também conta com dois trabalhos eletrônicos, um vídeo e um bordado digital. Ao mesmo tempo que um aparelho de televisão é representado por uma trama de lã, uma toalhinha de mesa é apresentada em uma superfície luminosa e se move. Dessa forma, coexistem mídias que aparentam ter naturezas e materialidades muito distintas, mas que conversam em vários aspectos - rimam formalmente, partem de códigos/receitas e também são plataformas para imagens que nos encontram em momentos privados, na experiência cotidiana, na construção do gosto e das idealizações.




Gabriel Pessoto, vista da exposição realidade virtual, 2022. Paço das Artes, São Paulo, SP.



Pollyana: Em Realidade Virtual, como também em grande parte do seu trabalho, as relações entre o analógico e o digital (ou o artesanal e o virtual), se sobrepõem e recusam perspectivas moralizantes. Ao contrário, ambas as qualidades se contaminam: a natureza da imagem digital é vista também na sua condição de trama e bordado, ou seja, a partir da sua condição de corpo; enquanto a natureza do bordado passa a ser lida no seu aspecto pixelado, virtualizado. Tanto a imagem digital quanto o bordado criam, na obra, pontos de contato e convergência; afinidade, vizinhança e parceria. Nos dois casos, parece se tratar de uma imagem que se edifica a partir do aglutinamento de códigos, ou seja, de uma gramática específica. Quando o próprio trabalho nos chama atenção para isso, passamos a nos perguntar do que são feitas as imagens, o que é que as constitui, de forma geral. E, no seu caso, não são imagens quaisquer. Elas tratam da intimidade sexual, mas também do ambiente doméstico e muitas vezes tido como "feminino". São espectros da intimidade. O que te interessa nesse repertório? O que o levou a aproximar esses assuntos?



Gabriel Pessoto, Selfie no espelho do banheiro, 2022. tapeçaria/bordado em lã em suporte de madeira, 170 x 35 x 30 cm



Gabriel: É interessante que você tenha destacado esses aspectos que dizem respeito a escolhas formais e procedimentos que extrapolam os "temas" (embora também possam ser tematizados) e que são motores da pesquisa. Eu sempre tive muito gosto por me relacionar com imagens, ilustrações, estampas, TV e toda sorte de objetos estéticos que eu tinha em mãos, antes mesmo de ter qualquer relação com a história da arte. Ter crescido nos anos 90 também possibilitou que eu observasse um processo de digitalização da cultura muito acelerado, com consecutivas alterações de mídias pelas quais as imagens transitavam, tal como uma migração quase absoluta de processos analógicos para processos digitais em alguns campos, como é o caso da fotografia. O espaço doméstico é recheado de visualidades muito cotidianas, itens com funções práticas e decorativas. Imagino que muitas informações acabam passando despercebidas - padrões, motivos floridos, paisagens bucólicas, personagens anacrônicos e frutas-animais com feições humanas são temas que sobrevivem à industrialização dessas peças tradicionalmente artesanais (e majoritariamente confeccionadas por mulheres) para cama, mesa e banho. Esse repertório, acredito, incide diretamente sobre a formulação de subjetividade, desejos e idealizações. Enquanto isso, as telas luminosas se tornam cada vez mais comuns na experiência privada e dentro do espaço doméstico, carregando um volume imenso de informações e nos colocando em contato com vivências e intimidades diversas. É por esse canal que, muitas vezes, se dá o contato com imagens eróticas, conteúdos fugazes e "amadores". Esse estado de coisas me leva a pensar nessas contaminações, nessa convivência entre diferentes materialidades, noções de espacialidade e de construção de desejo que invadem essa esfera mais íntima através de imagens, digitais ou físicas, deslocadas no tempo ou contemporâneas. Da mesma forma que um bordado de outrora é impresso em um pano de prato por uma máquina, me pergunto sobre o espaço do decorativo nas interfaces digitais. Também fico curioso sobre o efeito dessas interfaces eletrônicas sobre os objetos reais. Em meio a isso tudo, não faltam questões conceituais e formais envolvendo, eventualmente, códigos - sociais? (não resisti ao trocadilho infame). A instalação Realidade Virtual é fruto de algumas dessas inquietações e do gosto por essa cultura visual corriqueira, dos pequenos itens do lar às navegações online.


Um sonho de banheiro, 2022. tapeçaria/bordado em lã. 50 x 41 x 44 cm, 48 x 55 cm e 42 x 65 cm



Pollyana: Muito oportuno você trazer isso pois, nos encontros que o seu trabalho investe, somos levados a refletir a respeito da disputa das imagens no espaço doméstico também. As imagens ao nosso redor estão sempre em disputa. Estão em disputa aqui, nas telas do computador e do celular. Dividem abas, redes, aplicativos, eus virtuais, figurinhas de whatsapp. Estão também em disputa na minha mesa. Porta-retratos, reproduções fotográficas em livros, xerox barata, embalagens. Disputamos as imagens sobretudo porque elas parecem apontar algum resto de diferença. Revelam alguma parte que não conhecemos, capturam algo que não vimos. Tentamos domesticar a diferença da imagem, amaciá-la. Nem sempre é possível, mas convive aí algum fascínio -- afinal, estamos cada vez mais rodeados delas -- e também uma espécie de ameaça -- por elas somos condenados, julgados, marcados; as imagens nos fixam. O poder, ao que parece, adora a performance visual: se julga capaz de controlar os símbolos, selecionar as imagens, fazê-las circular segundo uma finalidade específica. Mas, ironicamente, o que é imagem está em todo o lugar, e nem sempre de maneira autorizada. O repertório (por vezes de gosto idílico) presente nos paninhos de prato e todas as demais superfícies passíveis de investimento decorativo de uma casa reflete o esforço pelo cuidado e a construção de determinados clichês de lar e feminilidade (a casa florida e acolhedora, sem conflitos, instituição inabalável e tenra). Simultaneamente, a entrada massiva das imagens digitais, como você aponta, mergulha a casa em "exterioridade" -- faz o Outro ganhar força, relativiza as divisões entre o dentro e o fora. Maria Gabriela Llansol diria que “É a minha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém”. O pornô, o sexting e as demais modalidades de erotismo virtual incorporam a diferença dentro da casa, ao menos com mais radicalidade. De algum modo, ao aproximar o frame pornô do bordado, você nos leva a refletir sobre as relações entre imagem e subjetividade; construção de moralidade e insubordinação do desejo. Ou seja, é também no território supostamente inabalável e "seguro" da casa-ninho que forças contra-hegemônicas se produzem... não sei se faz sentido para você.



Gabriel: Faz bastante sentido. Penso, inclusive, que a maior parte do meu trabalho e pesquisa é motivado por essas questões que você apontou. Recentemente, usei o título "contra-imagem decorativa" em uma série que partia de um exercício imaginativo onde padrões tradicionais e idílicos das peças de cama, mesa e banho eram substituídos por visualidades pós-internet com carga erótica, ou seja, alternativas para um repertório decorativo e doméstico já contaminado por essa profusão de experiências e navegações online - o espaço doméstico entendido como fonte de contra-imagens, gestos e formulações contra-hegemônicas. Portanto, existe uma crença no caráter pedagógico dessas visualidades corriqueiras, pois a imagem que foi parar na superfície têxtil de um paninho de prato triunfou nesta disputa ideológica/plástica e nos informa algo, inevitavelmente. Na instalação "Realidade Virtual", esse pensamento se manifesta nas peças que remetem a um jogo de tapetes de banheiro. Contudo, tem uma outra inquietação que podemos trazer para conversa: de que forma a materialidade dessas imagens interferem nas nossas sensibilidades? Esses objetos estéticos, lidos como artesanato ou decoração, seguem sendo plataformas que carregam imagens e símbolos. As técnicas e superfícies têxteis são tão comuns à experiência que, facilmente, ativam memórias e sentimentos de familiaridade. Como será que construímos memória e afeto a partir de visualidades e materialidades digitais uma vez que elas já fazem parte dessa experiência cotidiana? Tendo em vista essa introdução de outras experiências e mídias, é possível observar um fenômeno cíclico - um repertório visual transitando de uma tecnologia a outra. O enxoval já é industrializado, mas apesar de os motivos não serem mais bordados e pintados à mão, muitas vezes reproduzem e criam a ilusão de terem sido feitos manualmente. Da mesma forma, os jogos e experiências imersivas (podemos até pensar em alguns viewing-rooms recentes que simulam espaços expositivos) recriam a experiência doméstica. Então, além de refletir sobre as interferências da experiência virtual dentro desses espaços domésticos, afetivos, cotidianos e ainda físicos-reais, penso que é interessante observar como esse mesmo doméstico é repensado dentro de um espaço virtual. As peças apresentadas aqui passam por algumas camadas de procedimentos. Elas foram geradas digitalmente (por fotografia ou coleta), imaginadas em uma maquete tridimensional digital e, por fim, essas imagens foram tecidas. Ao mesmo tempo que elas remetem aos objetos aos quais se referenciam (o volume, os ângulos pelas quais as vemos), são chapadas e conservam uma resolução característica de uma renderização computacional tal como padrões aplicados sobre superfícies 3D em um softwares de design de ambientes. É como visitar uma realidade aumentada sem os óculos, o que frustra um pouco a expectativa proposta pelo título do trabalho, ao mesmo tempo que algumas peças que estamos acostumados a ver em uma materialidade têxtil são resolvidas em linguagem eletrônica, como uma toalha de mesa bordada digitalmente. Esses deslocamentos e quebras de expectativas, creio, nos ajudam a olhar com um pouco mais de atenção para essas formas e designs sem sabermos o que é clichê do quê.


Gabriel Pessoto, A colcha que sempre agrada, 2022. tapeçaria/bordado em lã em suporte de madeira, 55 x 146 x 180 cm.




Gabriel Pessoto, Amores perfeitos 01 e Amores perfeitos 02. tapeçaria/bordado em lã, 45 x 63 cm cada.


Pollyana: "É como visitar uma realidade aumentada sem os óculos", haha -- maravilhoso, seria isso a condição da própria vida na era pós-internet? Penso que, em alguma medida, a dimensão "virtual" da tua "realidade instalativa" é antes de tudo aquela que olha para as próprias imagens enquanto fragmentos carregados de ideias, ainda que silenciosas ou condensadas. Aquilo que as imagens significam; o sentido que produzem, é ele mesmo sempre uma negociação de ordem potencial. Fiz uma pequena busca nos significados da palavra "virtual" e é isso o que aparece: (1) que poderá vir a ser, existir, acontecer ou praticar-se; possível, factível; (2) existente apenas em potência ou como faculdade, sem efeito real; (3) suscetível de ser ou posto em exercício, em função. Parece-me que as três definições também funcionam para pensar o que são as imagens... são elas coisas em si ou projetos de uma coisa real por vir? Imagens são ensaios ou fatos? Por muito tempo acreditou-se que as imagens nos ludibriam, mas hoje, muitas vezes somos mais imagens do que corpos, coisificamos elas -- as agenciamos com força propositiva para forjar e alimentar nossas fantasias e as concepções que temos de nós mesmos, ou seja, elas nos fazem virtuais também, na medida em que só existimos através da linguagem.

Gabriel: Que bonito aproximar essas definições de virtualidade do entendimento do que são as imagens e, também, fazer essa relação com a nossa própria virtualização a partir do momento em que nos agenciamos enquanto imagem, enquanto linguagem. Eu ainda acrescentaria dois outros aspectos que podem ser vinculados ao significado de virtual: o desligamento de território e o desligamento de uma única temporalidade. Quanto ao território, embora pareça contraditório pensar nesse desligamento tendo justamente de um espaço doméstico como ponto de partida, penso que essa ideia de cotidiano-lar é colocada em suspensão quando o que resta é um ensaio para além de um fato, retomando o vocabulário que você trouxe. A instalação se vale de uma ideia genérica de espaço de conforto, de familiaridade doméstica, mas que não se materializa ao ponto de estabelecer um território que seja de fato habitável ou que tenha um uso prático assegurado. Quanto à temporalidade, parece-me mais evidente a promoção desses encontros entre repertórios e virtualidades anacrônicos - conjuntos de códigos que vão transitando por mídias e testando a capacidade dessas visualidades de repercutirem em superfícies desadequadas. E, dessa forma, as negociações e disputas são evidenciadas - nós produzimos imagens e artefatos, nos produzimos enquanto imagens, modelamos nossos espaços de intimidade enquanto imagem, ao passo que somos inevitavelmente modelados de volta por esses códigos e linguagens, em coreografia, desejo e memória. E embora seja mais fácil de entender esse mecanismo quando olhamos para grandes aparatos midiáticos, penso que a mesma dinâmica se reproduz no banal, no amador, no decorativo, dentro de casa.


Gabriel Pessoto, Cantinho da TV, 2022. tapeçaria/bordado em lã em suporte de madeira, 150 x 90 x 40 cm.


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