Antonin Artaud na tradução de Larissa Drigo

Atualizado: Set 14



Vocês são o acaso

o nada

a merda

que quer ser uma lei

e só teme a desordem, o acaso, a merda e o nada

quer dizer, a burguesia.

Eu tenho em mim uma potência de vida que nunca fingiu se separar de mim e volta para mim cada vez mais como ao seu mestre.

Eles esquecem todos que se trata do meu corpo

e que eles saem

e que eles comem todos dentro.

Começa a segunda-feira 24 de fevereiro de 1947,

as vampiras introduzidas por todas as partes no mais profundo do meu corpo de maneira que minha sensação é completamente invadida. -

Ora, eu lancei alguns pequenos golpes não muito fortes e chegando ao paroxismo de sua empreitada

então que eu mesmo fiquei um pouco inquieto

eles é que desistiram

porque o corpo não se baseia na sensação

nem no pensamento,

e que há ainda outra coisa

e que é justamente essa outra coisa

inerte e insensível

que é o corpo.

O

do outro lado do corpo puro

e não o do ser,

sensação, percepção, noção,

mas da força e do fato

ativos contra o ser covarde

e passivo.

Pois não é a natureza,

mas eu,

que é o que age no fundo de tudo

eu que

pego

a força impessoal errante

e pela dor hepática

da bile

levo-a à minha vontade

depois do que, eu a empurro adiante.

O que mantém Satã

é a atração carnal

e vivaz ele me persegue

o espírito dos seres que quiseram

existir mesmo que irrecebíveis

e que Lucifer recolhe.

Pois eu não sou um sopro

prisioneiro de um corpo

mas um corpo prisioneiro

dos seres que me impedem

de respirar.

quando eu me livrar deles

não vou desejar mais

nada.

Vous êtes du hasard

du néant

de la merde

qui se veut une loi

et n’a peur de rien comme du désordre, du hasard, de la merde et du néant

c’est-à-dire de la bourgeoisie.

J’ai en moi une puissance de vie qui n’a jamais fait mine de se séparer de moi

et me revient de plus en plus comme à son maître.

Ils oublient tous qu’il s’agit de mon corps

et qu’ils en sortent

et qu’ils mangent tous dedans.

Lever du lundi 24 février 1947,

les goules introduites de toutes parts au plus profond de mon corps de manière que ma sensation en soit complètement envahie. –

Or j’ai lancé quelques petits coups pas très forts et arrivés au paroxysme de leur emprise

alors que moi-même je devenais un peu inquiet

c’est eux qui ont lâché prise

car le corps n’est pas basé sur la sensation

ni sur la pensée,

et qu’il y a encore autre chose

et que c’est justement cet autre chose

d’inerte et d’insensible

qui est le corps.

Le

de l’autre côté du corps pur

et pas de celui de l’être,

sensation, perception, notion,

mais de force et du fait

actifs contre l’être lâche

et passif.

Car ce n’est pas la nature,

mais moi,

qui est ce qui agit au fond de tout

moi qui

prends

la force impersonnelle errante

et par la douleur hépatique

de la bibe

la ramène à ma volonté

après quoi je la pousse en avant.

Ce qui maintient Satan

c’est l’attraction charnelle

et vivant il me poursuit

l’esprit des êtres qui ont voulu

exister bien qu’irrecevables

et que Lucifer ramasse.

Car je ne suis pas un souffle

prisonnier d’un corps

mais un corps prisonnier

des êtres qui m’empêchent

de respirer.

Quand je m’en serai débarrassé

je ne désirerai rien

de plus.

O poema citado aqui faz partes dos “Textos escritos em 1947” publicados postumamente em suas Oeuvres complètes, Paris: Gallimard, p. 1481.





ANTONIN ARTAUD foi um poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro francês de aspirações anarquistas. Ligado fortemente ao surrealismo, foi expulso do movimento por ser contrário à filiação ao partido comunista. Nasceu em 1896 na França, e após inúmeras internações em manicômios, vem a falecer em 1948.



Larissa Drigo Agostinho é doutora em Literatura francesa pela Universidade de Paris IV-Sorbonne, autora do cordel “Chega de melancolia” (N-1 edições) e de A linguagem se refletindo: Introdução à poética de Mallarmé, Annablume (no prelo) traduz e tem um blog Linhas e Picaretas.

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