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A política não é justa: a disputa pelos holofotes nas portas da CPMI de 8 de

por Gustavo Gomes




A política não é justa. É um tribunal formado diariamente. Como todo tribunal, é composto pela defesa e pela acusação que utilizam das retóricas e fatos para conquistar o júri. Mas as semelhanças se encerram por aí. Se na justiça, tenta-se, supostamente, conceder a igualdade de condições entre defesa e a acusação para que a verdade possa prevalecer, na política, as condições estão sempre em disputa. O tribunal torna-se um cenário de teatro e a atenção dos holofotes do público são atraídos como um cabo de guerra. A primeira disputa que se trava é pelo domínio narrativo. Diferentemente de um debate eleitoral, onde cada candidato possui o mesmo tempo para debater, esse tempo, na realidade, precisa ser conquistado gradativamente. É o que se chama domínio da pauta, das notícias e, consequentemente, do discurso.


Aqui jaz a primeira derrota do governo Lula. Enquanto nos 100 dias a pauta estava sendo conduzida pelo presidente, seja na economia, seja nos debates sobre o país e também a tentativa de golpe no dia 08 de janeiro, a situação se inverte. O caso protagonizado pelo General Dias expõe uma verdadeira falta de comunicação interna no governo. No formato de imagens de câmeras de vigilância do planalto, transmitidas na imprensa, foi servido um prato cheio para alimentar a narrativa bolsonarista. A demissão de um ministro com 100 dias e a impossibilidade de barrar a CPMI sobre a tentativa de golpe de 08 de janeiro são a receita do caos que o bolsonarismo precisava para recuperar, pelo menos parcialmente, a centralidade dos holofotes.


É importante deixar de entender o bolsonarismo como a figura política do ex-presidente, mas compreendê-lo como um método. Um método parecido com o trampismo norte-americano. Baseado na comunicação, na instalação e no crescimento em meio ao caos.


A CPMI é o instrumento necessário para a instauração do caos que alimentará as redes sociais e grupos bolsonaristas de notícias falsas, mentiras e acusações. A narrativa é que o governo colaborou com os atos, para se promover. Obviamente mentirosa e infundada, tenta na verdade criar um sentimento de que “não se pode confiar no governo”. Criar essa narrativa que coloca a credibilidade do campo progressista e do governo Lula em cheque é substancialmente um meio de relativizar qualquer entrega para a população nos próximos anos.


O governo Lula, corretamente, pôs-se a governar e batalhar para aprovar as leis necessárias, em meio ao pior congresso da história. Mas, não será possível governar sem batalhar politicamente e lidar com cada disputa como se fosse uma verdadeira eleição. Serão quatro anos de disputa eleitoral para que seja possível suceder ao governo Lula com um espaço mais democrático de debates. E para isso, é imprescindível afastarmos qualquer esperança de responsabilidade no bolsonarismo. Nem com o país, muito menos com a população. Basta lembrar que é o movimento responsável pelo governo que colaborou com a morte de 700 mil pessoas, pelos atrasos de vacinação e tratamento da Covid-19. Hoje, é um movimento com um só objetivo, trabalhar diariamente para o impeachment de Lula. E sabemos, pela experiência recente de Dilma, que não basta qualquer argumento substancial para realização de um impeachment. Basta a perda da credibilidade e apoio na sociedade, junto com a impossibilidade de articulação com o congresso.


A CPMI será um campo de batalha. Tanto os parlamentares quanto a sociedade civil precisam perceber que o primeiro passo para ganhar a disputa política, neste tribunal injusto, é não conceder os holofotes para o adversário. Infelizmente, nossa cultura nos acostumou a pôr uma pedra no que passou e não revisitar a história com o rigor necessário. Falhamos em fingir esquecer a escravização dos povos indígenas e da população negra e por isso deixamos o racismo se instaurar na nossa sociedade. Falhamos em não julgar os crimes cometidos na ditadura militar e só percebemos que a democracia não é um valor defendido e reconhecido na nossa sociedade quando um presidente adepto ao golpe conseguiu chegar perto de ser reeleito. Se falharmos em não julgar social, politicamente e juridicamente o bolsonarismo e a tentativa de golpe, colheremos consequências no futuro, de forma difícil de retroceder.

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