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A peça sendo interrompida: que cena!

por Juliana Thiré de Negreiros




Print de tela do momento em que o discurso da atriz Keyla Brasil se choca com o discurso dos outros atores da peça teatral Tudo Sobre Minha Mãe para o público do São Luiz - teatro municipal de Lisboa, Portugal - em 19 de janeiro de 2023.



A atriz Keyla Brasil interrompeu uma peça de teatro para protestar no último dia 19 de janeiro, no São Luiz Teatro Municipal, de propriedade da Câmara Municipal de Lisboa. Quero dizer a partir disso que é uma pena que a repercussão midiática no Brasil tenha causado uma série de binarismos e bifurcações: aplaudir ou maldizer, concordar ou discordar, falar ou calar, elogiar ou ofender, ao invés de fomentar as possibilidades de discussão que o ocorrido suscita, no campo material e simbólico do teatro.


Uma das discussões fomentadas poderia ser a das condições de trabalho dos atores e atrizes daqui do país, por exemplo - visto que a atriz pautou o tema da empregabilidade nos mercados teatrais. Keyla Brasil é atriz - um título possível pra sua performance da interrupção. Este também era o conteúdo de seu protesto. Afinal, só os bem famosos se dão ao luxo de serem apenas atores/atrizes, quando não são propagandistas do capital financeiro, enquanto a maioria se estapeia em várias profissões. Pois bem: Keyla Brasil - idade - profissão - estado civil - é atriz. Ora, já era hora de alguma atriz parar tudo pra gritar que é atriz e ver o que acontece!


Bom, esse ringue de binarismos de opinião girou apenas sobre os temas de gênero e representação. Enquanto a interrupção foi toda um teatro não comentado. Dos bons! Pena que tenha durado tão pouco! Estivesse alí, eu botava mais lenha na fogueira. Resolver - no teatro? - jamais. Só depois de levar ao limite. Contribuo confundindo a discussão: se o ator contemporâneo é intérprete de si mesmo, e o teatro mais nada deve à representação (que fique pras telas) - o melhor do teatro não é exatamente o que estava prestes a começar quando a atriz Keyla Brasil gritou e subiu ao palco?


Por que os atores e as pessoas que assistiam não foram corajosos o suficiente para estender esse tempo, para alimentar a nova peça? Por que fecharam as cortinas e performaram o fim, de maneira protocolar? Keyla parecia disposta a algo mais. Mas todos se calam, no máximo aplaudem. Porque é outro assunto carente de debate, o transfake. O transfake no teatro. Depois seguem calados, no máximo compartilham - em redes sociais que é o mesmo que participar sem comprometer-se absolutamente. Keyla encenou seu comprometimento com este assunto que parece embarreirado, como um tabu, em que as pessoas se sufocam no conceito - por elas distorcido - de lugar de fala e não sabem mais alimentar a conversa na esfera pública.


O hábito de ir ao teatro não faz parte da cultura da maioria da população brasileira, e o mercado de teatro brasileiro são vários: onde ocorrem fluxos de capitais sociais simbólicos e também econômicos, mercados instáveis, pautados por associações em rede, com mecanismos de legitimação específicos. É amplamente desregulado, insular, precarizado, em geral pouco lucrativo aos artistas e vulnerável em sua existência - vide o episódio! Como interromper o filme de Almodóvar?! Interrompe-se o teatro porque não dá pra interromper a tela! Quebre 15 televisores e a novela seguirá. Pare uma peça de teatro e pronto. Acabou. Se a indiferença é uma guerra declarada, o teatro implora pela intervenção, carente de qualquer ofensa. Bom mesmo é dizer que ele não presta. Pode ter a pompa que for, o sistema de som e luzes mais caros do mercado, o teatro vai ser sempre esse fiapo de coisa interrompível. Parecido com a democracia.


Mas, se não há dinheiro nem estabilidade no teatro (o emprego, quando conseguimos, é só aquele, sem saber o próximo), o que se pode reivindicar dele? A personagem? O teatro reivindica há um tempo que a personagem não tem a ver com o perfil do ator, como no audiovisual. No cinema eu nunca faria um bebê pois eu não posso representar um bebê. No teatro, eu leio um bebê, e o que coloco em cena só Deus sabe! Papel no teatro não se dá, se cria. Então, a performance de Keyla e dos atores-assim-que-Keyla-interrompeu-a-peça, escancarou o fato de que a representação no teatro está definitivamente falida. Keyla furou a tela que se tentava erigir no teatro representacional de Lisboa e disse: isso aqui é teatro! Nem o faz-de-conta-que-é-trans, nem o filme de Almodóvar! Isso é teatro! = Eu sou atriz!


Se a encenação historicamente nos mostra como as paixões nos levam a cometer erros, faltas, a equivocar-nos, não por baixeza nem por maldade, mas porque somos arrastadas a tanto, muitas vezes por uma situação/condição; se nos mostra como pessoas em nada odiáveis nem desprezíveis podem ser conduzidas, por uma série de pseudonecessidades, a fazer escolhas que as levem à destruição, à catástrofe; se nos mostra a tragicidade que é se dar conta de que nossos atos nos escapam, excedem-nos, assumem, ao sabor das circunstâncias, um sentido e um valor contrários aos que acreditamos lhes dar… e sobrevive há milênios, a todas as pestes, a todos os regimes… que acompanha e reflete a demolição de todas as certezas humanas… como podemos achar que esse episódio no São Luiz é uma interrupção de coisa externa? Que tem mais a ver com qualquer certeza civilizatória ou vaidade das partes envolvidas, do que com o paradoxo dessa frágil fortaleza que é o teatro?


Ora, não foi um fuzil, um revólver, um cassetete, um gás tóxico, um homem bomba a parar o Tudo Sobre Minha Mãe, em Lisboa. Foi Keyla Brasil, atriz! Então por que tanta papa na língua em se tratar do assunto? Por que tanto medo dos atos que sem dúvida nos escaparão? Morremos de medo, tanto assim, dos outros sem rosto? Dos milhões de deuses dizendo o que pode e o que não pode, através dos algoritmos? Do nosso amigo, do nosso chefe, dos nossos pares cultuados? Algumas formulações hierárquicas entre eles - os que têm mais ou menos valor - e usamos tranquilos nossas táticas de eliminação, nesse processo de validação (às vezes de maneira peremptória)? Por que babar ovo ou ofender parecem as únicas opções pra maior parte daqueles que acompanham, comentam e compartilham um episódio como o da Keyla? Como fazer um debate digno sobre a realidade trans, claro, mas também sobre a realidade do teatro? Como não cair na cilada que é o fascínio por uma suposta autenticidade? Como não estreitar a discussão da esfera pública, se primeiro avaliamos o comportamento privado como se isso pudesse revelar a capacidade pública de um sujeito? Como circula o dinheiro, quem toma conta de quem, quem ampara quem? O que pode cada um no espaço público - que necessita da instância simbólica da lei - que barra o eu? A gente precisa proteger a prioridade dessa conversa.


Teatreiros e teatristas trabalham a partir do fato teatral. Intervir neste não é coisa pouca. Paradoxalmente, este é um “escândalo” que sempre o alimentou. A intervenção externa é um dos objetivos de vários teatros. É inclusive um recurso usado e abusado em muitas peças. Que vire moda, então! Que se interrompam todas as peças, pela ação humana, e não pelo vírus. Vamos ver o que acontece! Quem sabe assim finalmente possa ser ouvida a escassez de debate e políticas públicas para o teatro - como Keyla nos gritou -, área que, se valorizada e investida, pode fazer o seu papel que é mostrar, aos gritos, a catástrofe de outras ações humanas. Testar nossos limites sabemos que é sempre trágico. Sabemos discuti-los?


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