A memética brasileira - Entrevista com Melted Videos

Atualizado: Set 14

por Pollyana Quintella





O Brasil é o maior produtor de memes do mundo. Velozes e provisórios, os memes são piadas produzidas na internet, geralmente associando palavra e imagem. Eles correm daqui pra lá e de lá pra cá, são arredios, irônicos e nada piedosos. O meme é a migração da imagem por excelência. Uma imagem feita para migrar.


Meme no Brasil é coisa tão séria que, além das já famosas guerras memeais contra outros países, esse é o segundo ano que temos o Meme Awards, premiação de memes brasileiros que reúne comunidades e mememakers para eleger vencedores através de júri técnico e popular. São diversas categorias, como Melhor meme em imagem, Melhor meme em vídeo, Melhor artista em meme, Melhor comunidade descolada, Melhor comunidade LGBTQ+, entre outras.


Mas refletir sobre memes durante a pandemia global tem lá suas convergências. O termo meme, por exemplo, foi originalmente criado pelo cientista Richard Dawkins, em 1976. Naquela altura, o meme era entendido como uma informação que se transmite de cérebro em cérebro, uma unidade de evolução cultural que se autopropaga, como ideias, sons, desenhos, valores morais, etc. Basicamente, uma transferência pela repetição. Uma espécie de contágio.




No caso do meme da internet, a transferência em geral acontece pela identificação. Ao se reconhecer em determinado conteúdo, o usuário compartilhada e difunde o meme nas redes sociais, muitas vezes manifestando o desejo de testemunhar o presente ou se posicionar diante dos acontecimentos contemporâneos.

Com mais de 600 mil seguidores, a @meltedvideos é uma das páginas de memes mais acompanhadas da internet brasileira, ao lado de outras referências como o @saquinhodelixo. Diferente de outras páginas de compartilhamento de conteúdo, esses perfis apresentam uma linha mais curatorial, além de nutrir uma estética própria.

A Melted ficou conhecida, entre outros exemplos, pela série de memes “no puedo, estoy cansadito”, e pelas montagens com bonecos 3D dançando ao som do remix funk de "Your Latest Trick" do Dire Straits -- mixagens recuperadas da Pipos, equipe de som muito atuante nos anos 1990, originada em São Gonçalo. Muitas vezes, alguns desses memes só tem graça para quem já acompanha a linguagem da página, como se houvesse uma espécie de vocabulário compartilhado, um repertório construído. Os memes se auto referenciam, constróem lógicas próprias. Além disso, em poucos dias, envelhecem. Para conquistar alguma sobrevida, o meme pode se desdobrar numa série a partir do mesmo tema ou premissa visual, como no caso recente dos ratinhos do @saquinhodelixo. No entanto, são todos como a imagem pobre de que nos fala Hito Steyerl: uma imagem digital fadada ao desgaste, fruto de uma circulação incessante, carregada daqui pra lá, sem dono, sem origem e sem sobrenome. Por isso, mesmo ao identificar uma identidade visual de uma página ou outra, dificilmente as autorias estão claramente demarcadas, sobretudo porque as páginas também repostam muito conteúdo encontrado na rede, produzido por outros. Ganha quem rouba melhor ou, como diz Godard, “Não importa de onde você tira as coisas – importa é para onde você as leva”.

Aliás, no caso da Melted, o traço nostálgico é recorrente. Da estética VHS e Vaporwave ao WordArt, típicos dos anos 1990, a página percorre assuntos diversos, entre política, comportamento, tendências contemporâneas, sexualidade, além de tópicos relacionados a saúde mental, como depressão e ansiedade -- cada vez mais intensificados pelo uso excessivo das redes sociais.




Ironicamente, essas páginas também tem cumprido o papel de expor o avesso da imagem supostamente bem resolvida do Instagram. Se os feeds pessoais forjam uma vida feliz e bem sucedida, sem defeitos, o meme ironiza o vazio por trás das máquinas de likes, é o lado B da plataforma. É nesses IGs que os usuários se identificam com aspectos humanos nada consagrados, embora presentes em todos nós. Raiva, procrastinação, improdutividade, sarcasmo, acidez, violência e toda sorte de desequilíbrios ganham espaço de representação, não sem alguma ambiguidade. Por vezes não sabemos se o meme está tecendo um elogio, uma crítica ou está sendo conivente. Consumir memes requer interpretação. Além de compartilhá-los, para alguns a graça reside em interagir com a página, criando comentários que desdobram o humor do post original. Um comentário com muitas curtidas é a promessa de mais visibilidade.

Mas no ano que o Brasil vive crises e falências múltiplas, os memes também funcionam como desabafos e analgésicos. O meme ri de sua própria desgraça, ironiza o poder e muitas vezes é formador de opinião, dando expressão a sentimentos ainda confusos e informes, principalmente por acompanhar as discussões políticas em tempo real. Segundo uma pesquisa da Consumoteca, 73% dos brasileiros já souberam de alguma notícia recente através de um meme. Ao replicá-los exponencialmente, sem maiores reflexões, seu poder de influência se torna perigoso. A mesma lógica vem se aplicando para links de notícias, muitas vezes não lidas ou sequer clicadas, mas compartilhadas apenas com base no título do artigo. Na guerra contra os bots e as fake news, entre fazendas de cliques e comércio de curtidas, mudamos nosso modo de consumir informação e pagamos o preço por compartilhar mais do que ler. Ciente de alguma responsabilidade, páginas como a Melted Vídeos assumem um posicionamento político, optando por construir um humor que não recorre à jargões preconceituosos, tão presentes no humor nacional. Pude conversar brevemente por e-mail com a equipe que administra a página, e falamos sobre curadoria, o problema da autoria e política.





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P: Como vocês definem a Melted Videos?



MV: A Melted Videos nasceu como uma produtora de videoarte ligado a estética vaporwave no meio de 2013. Nesse momento existia um humor niilista/existencialista sobre o cotidiano dos millennials. Essa linguagem foi se transformando do vídeo para conteúdos mais estáticos, num mix de retrofuturismo com realidade brasileira.




P: Como é o trabalho de um curador de memes? Existem princípios norteadores para a seleção? Sabemos que páginas como a da Melted Videos produzem conteúdo próprio mas também repostam memes encontrados na rede, como acontece essa divisão?



MV: A Melted deixou de ser uma pessoa só em determinado momento para se tornar um grupo com uma afinidade muito grande no tipo de humor da página. Havia necessidade também de diversificar os tipos de humor, por isso formar um grupo misto é essencial para um crescimento saudável e plural. Nós produzimos nossos conteúdos, mas também publicamos conteúdos de terceiros que conversam de certa forma com a gente. Memes que não fizemos, mas que gostaríamos de ter feito. Tem também a parte de volume de conteúdo, nos fazemos em média 7 posts por dia, seria necessário só trabalhar na Melted, o que não é o caso de ninguém no grupo. Todos temos outros trabalhos.




P: Os memes são apropriados, reutilizados, parodiados, refeitos... dá pra reivindicar a autoria de um meme?



MV: Da parte da Melted, nós não ligamos se pegam nossos memes e publicam em outros canais, acredito que seja parte da cibercultura essa mutação constante de uma imagem. Na medida do possível nós costumamos creditar os memes de terceiros, mas muitos vem sem marca d’agua e como sempre digo, meme não tem RG nem CPF, eles chegam no WhatsApp e não tem como rastrear. Muitas pessoas pensam que é má fé e fazem abordagens raivosas (mesmo que a pessoa nem seja a dona do meme), mas existe uma espécie de patrulha dos meme que se ocupa ferozmente com isso.





P: Vocês consideram que o meme pode fazer uma espécie de crítica cultural?



MV: Ele provoca porque é tosco. Acho que o belo desabou e está em decadência.




P: Por que os memes foram tão acolhidos no Brasil?



MV: O meme abriu uma possibilidade de criação digital de baixo custo. Hoje com apenas um celular barato você consegue editar e publicar essa mensagem digitalmente. Ele é amparado pelas redes sociais e brasileiros amam redes sociais. Somos uma nação de infanto digitais e ainda não aprendemos exatamente como lidar com o compartilhamento de informação. Temos o hábito de compartilhar imagens indiscriminadamente.




P: A página assume algum posicionamento político?



MV: Sim, a página é declaradamente de esquerda e nosso público está sincronizado com essas pautas. Não estamos filiados a partido. Nós sempre medimos cada post para evitar contribuir com a reafirmação de estereótipos, padrões, racismo, xenofobia etc. Acreditamos que isso não cabe mais na sociedade e queremos contribuir para esse processo de ruptura de um humor tipo “Pânico”.




P: Onde os memes chegam primeiro?



MV: São frentes muito diferentes, nos EUA o Reddit funciona muito, mas no Brasil a comunidade ainda é pequena. O Twitter ainda acho que é o mais funcional por aqui, tanto pela velocidade quanto pelo número de usuários. O instagram ainda é para um público mais passivo. O Twitter é mais crítico e por muitas vezes mais grosseiro e impiedoso.




P: A palavra tem um papel importante no meme porque, em geral, o que tá escrito muda o sentido da imagem, conferindo o humor. Gostaria que comentassem um pouco essa relação palavra/imagem nos memes.



MV: Pois é, isso é muito engraçado e virou uma característica da Melted que era fazer três piadas. Usar a localização, a imagem em si e a legenda. Isso tudo agregado dá mais potência no meme. Muitas pessoas comentam “A localização kkk” ou “o melhor é a legenda”. Acreditamos que tudo tem que estar muito coeso e amarrado. Tipografias mesmo tem uma linguagem própria. A escolha da fonte correta para um meme dá ao mesmo um caráter único. A interação com a palavra é importantíssima.




P: Um exercício de especulação: como imaginam o futuro do meme?



MV: Jamais saberemos e essa é a graça. Cada dia é uma novidade estética e isso é surpreendente. Se pegarmos memes de 2016 já iremos sentir um pulo gigantesco.





*Agradeço aos amigos do grupo de WhatsApp BA C TERIA FELA DAPUTA que me ajudaram a formular algumas questões aqui presentes. Afinal, sem memes e amigos, não há quarentena possível.

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